Joana Casimiro fechou a porta da farmácia e só atende através do postigo.

COVID-19

Farmacêuticos. Os infetados invisíveis

São uma das classes na linha da frente a combater o covid-19, mas incluem o grupo dos "outros" na estatística oficial sobre profissionais de saúde infetados. Sabem que há, mas quantos ninguém arrisca. A Ordem dos Farmacêuticos já solicitou uma alteração da metodologia de registo.

No dia 12 de março, a farmácia do Hospital Curry Cabral, uma das unidades de referência para tratar o covid-19, teve de fechar as portas. Um farmacêutico testou positivo. O resto da equipa, 30 funcionários, tiveram de ficar em quarentena. No mesmo dia, a Vitália, farmácia histórica na Baixa do Porto, encerrava também. Da equipa de dez elementos havia três infetados, entre eles o diretor técnico e a diretora técnica adjunta. Dez dias depois, Joana Casimiro, farmacêutica há 34 anos, proprietária da Farmácia Curie, junto ao IPO de Lisboa, passava a atender só pelo postigo. Uma decisão que teve de tomar para proteger os funcionários e ela própria, dado não ter material de proteção individual em quantidade suficiente para todos.

Três histórias que atravessam o universo de atividade de quem optou pela farmacologia. Mas neste universo ainda faltam os que estão na investigação científica, na indústria farmacêutica, nos laboratórios de análises, nas Administrações Regionais de Saúde ou ainda nos centros de saúde. Seja como for, são uma das classes profissionais que estão na linha da frente no combate a este novo coronavírus - o SARS-CoV-2, que apareceu no final do ano na cidade Whuan, na China.

E, para quem não saiba, costumam dizer que eles são os profissionais de bata branca que se deslocam nos mesmos corredores que médicos e enfermeiros, apenas com funções diferentes. Ora a manusear medicamentos, a repor stocks, a preparar soros e outras substâncias, ora a acompanhar a medicação de doentes crónicos seguidos em ambulatório.

Não quer dizer que haja alguma rivalidade com as outras classes profissionais, não. Isso deixam-no bem claro. Ainda agora lançaram um programa de apoio no combate à doença, com a Ordem dos Médicos e a associação que representa a indústria farmacêutica, Apifarma. e participaram num debate na internet com todas as ordens na área da saúde. Apenas quer dizer que também estão na linha da frente, que são infetados, que têm de ter material de proteção individual, porque lidam com doentes, quer nas unidades de saúde quer na comunidade, e que também isto falta a alguns.

Quer dizer que, por tudo isto, não percebem por que o registo de profissionais de saúde infetados, que é a base dos dados oficiais, apresentados pelo Ministério da Saúde, inclui apenas médicos, enfermeiros e outros. Eles fazem parte dos outros infetados, dos que são invisíveis e que incluem também assistentes operacionais, técnicos de diagnóstico, administrativos, etc., e que ninguém sabe ao certo quantos são, em cada grupo profissional.

Grupo dos "outros" infetados já vai em mais de 800 profissionais

Dados divulgados pelo Ministério da Saúde, numa das conferências de imprensa de balanço epidemiológico desta semana, indicam que até agora só no SNS há 1345 profissionais de saúde infetados, 370 enfermeiros, 240 médicos e 825 no grupo dos "outros".

O DN sabe que a Ordem já solicitou ao Ministério da Saúde que altere a metodologia de registo para que se saiba com exatidão quantos infetados fazem parte do seu grupo profissional, mas até agora tal nada foi alterado.

A Ordem dos Farmacêuticos criou um Gabinete de Crise que se "reúne periodicamente para acompanhar a evolução da situação que estamos a viver e para auscultar todo o setor, desde a indústria à farmácia hospitalar e à comunitária, até aos laboratórios de análises, porque todas estas áreas têm de estar enquadradas com os novos procedimentos e regras", explicou ao DN uma farmacêutica.

Mas não só. E, porque são uma profissão também muito virada para os doentes, a Ordem trabalhou na criação de linhas de apoio aos profissionais, mas também aos doentes. "Temos feito um grande trabalho no sentido de ajudar os doentes, para que aqueles que não se podem deslocar, aos hospitais ou à farmácia comunitária, recebam a sua medicação em casa."


Nove farmácias infetadas, sete já reabriram


E é isto que as farmácias de oficina, ou comunitárias, têm feito, quer com a ajuda de juntas de freguesia ou de autarquias. Tentar chegar a todos. Mas nesta fase já nove viram as portas fecharem-se por o vírus ter chegado até elas. Sete já reabriram, faltam apenas duas. A Associação Nacional de Farmácias espera que mais não sejam afetadas. Não só pelos profissionais, mas também pelo negócio.

Na Baixa do Porto, a Farmácia Vitália é uma das que passaram por esta situação. Os delegados de saúde fecharam-lhe as portas no dia 12 de março, depois de um dos sócios ter sido internado no Hospital de Santo António e ter dado positivo ao novo coronavírus. A despistagem levou a que se testasse os restantes nove elementos da equipa. O diretor técnico e também sócio, Armindo Cosme, de 55 anos, era um dos que estavam infetados, e não sabia, a diretora técnica adjunta também. Os restantes, embora sem sintomas, tiveram de ir para casa de quarentena. O primeiro foi infetado no âmbito social, os outros já no meio laboral.

A sorte "é que tínhamos um funcionário de baixa médica e foi ele que nos ajudou com a equipa de desinfeção na farmácia e com todas as alterações que tivemos de fazer para podermos reabrir no dia 25, 13 dias depois", conta ao DN este farmacêutico com mais de 30 anos de profissão e há quase 20 na Vitália.

Mais ninguém ficou infetado, os restantes voltaram ao trabalho. Ele continua em casa. Nesta quarta-feira, fez novo teste para saber se já está negativo, espera que sim, há muito que não tem sintomas, mas os resultados só os terá daqui a 48 ou 72 horas.

Armindo faz parte do grupo dos primeiros 100 infetados no país. Não queria acreditar. Foi infetado pelo sócio, infetado numa festa de aniversário em Aveiro. Ele depois infetou a mulher e os dois filhos.

Armindo faz parte do grupo dos cem primeiros casos de covid-19 em Portugal. Nunca o imaginou, mas a cadeia epidemiológica traçada pela saúde pública não deixa muitas dúvidas. "Fui infetado pelo meu sócio, que tinha estado numa festa na zona de Aveiro, onde esteve com um senhor, que trabalha em Lisboa, mas que tinha passado por Felgueiras e que tinha estado com pessoas infetadas."

Foi o suficiente para o infetar a ele e, porventura, a outra colega, que é o seu braço-direito na farmácia. Ele infetou a mulher e os dois filhos. Desde o dia 12 de abril que estão todos em casa. "Sofro de rinite alérgica, tinha um pouco de tosse, mas é um sintoma normal para esta época, não liguei e só soube que estava infetado depois de o meu sócio ter sido internado na madrugada do dia 12. Ele esteve mal, eu tive apenas uma situação ligeira, sem febre, mas com dores musculares, aquela dormência própria de gripe", afirma.


A "festa de aniversário de Aveiro"

O sócio de Armindo foi o primeiro a dar sinal de que algo se passava, pois as pessoas que estiveram com ele na festa na zona de Aveiro só souberam que estavam infetadas depois de ele ter sido internado e de terem sido contactadas pela saúde pública. "A cadeia de transmissão foi mesmo designada pela festa de aniversário na zona de Aveiro. Foram uma série de pessoas e muitas em isolamento profilático. Só à minha conta ficaram em isolamento mais de uma vintena de pessoas. Antes de saber tive a festa de anos do meu filho, onde esteve a família toda e amigos", refere mostrando como a multiplicação do vírus pode acontecer. "Mas mais ninguém teve doença, ninguém teve sintomas, alguns fizeram mesmo o teste e deram negativo. Só eu e a minha família ainda estamos fechados em casa."

Espera regressar ao trabalho na próxima semana, a farmácia ainda não está a funcionar normalmente. "Colocámos postigos de acrílico a separar a comunicação entre os profissionais e os clientes. Só entra uma pessoa à vez, mas os funcionários estão instruídos para usarem máscaras, luvas e desinfetarem constantemente os ATM." Neste momento, a Vitália está só a funcionar a um terço do habitual. Armindo Cosme espera que rapidamente tudo volte ao normal.

Sem máscaras para todos, só atende pelo postigo


Joana Casimiro tem 58 anos. É farmacêutica e proprietária da Farmácia Curie, em Lisboa, e doente de risco no covid-19. Há uns anos foi operada a um tumor, e ainda não obteve alta após o tratamento. Desde o início da epidemia que a sua preocupação foi sempre a de proteger as pessoas que com ela trabalham e ela própria. Por isso, no dia 22, já em pleno estado de emergência, decidiu fechar as portas da farmácia e começar a atender pelo postigo.

A farmacêutica conta que não tem outra solução. Não tem material de proteção suficiente para todos os funcionários, portanto era o que lhe restava fazer. "Marquei o chão para as pessoas cumprirem o distanciamento, coloquei cartazes a pedir que não colocassem nada em cima do balcão, tinha indicação à porta que só entrava uma pessoa de cada vez, mas nem sempre era respeitado. E, no dia 22, quando entra ao fim da tarde um senhor na farmácia que tinha estado na fila junto de outras pessoas e a fumar, tinha máscara e tirou-a quando entrou na farmácia e que depois manifesta visíveis sintomas da doença, decidi que fechava a porta, não podia continuar assim."

No dia seguinte estavam a trabalhar rotativamente duas equipas em dois turnos, o da manhã e o da tarde, continuando a fazer 11 horas por dia e 55 horas semanais, "respeitando o que está na legislação". Abrem às 08.00 e fecham às 13.30, para a farmácia ser desinfetada e às 14.00 entrar outro turno, e quando fecham há nova desinfeção.

Joana é farmacêutica há 34 anos, há 31 que está naquela farmácia, junto ao IPO de Lisboa. Sempre teve stock de máscaras, porque "os doentes imunossuprimidos usam-nas muito. Em janeiro, tive uma procura grande, mas o abastecimento foi normal. Em fevereiro já começou a escassear, até que deixei de receber encomendas dos fornecedores normais, comecei a receber propostas de compra deste tipo de material a preços muito mais elevados, ainda hoje me pediram 40 euros mais IVA por uma caixa de 50 máscaras. Não compro e não tenho stock".

Do stock que ainda tinha deu algumas caixas à Unidade de Transplantes de Medula do IPO, que "já não tinham para dar aos doentes". Restam-lhe algumas, mas, como não chegam para todos os funcionários, irá fazer o mesmo. Joana receia a infeção, uma das suas preocupações sempre foram os doentes oncológicos, mas receia também pelos seus funcionários. Por isso, irá continuar de porta fechada e só a abrir o postigo, que à frente tem um cilindro e protege-a a ela e aos funcionários.

"Uma farmácia tem a obrigatoriedade de estar aberta 55 horas semanais, não quisemos infringir a regra, que ainda se mantém em vigor, mas somos tratados como estando ao mesmo nível de outro negócio de porta aberta, ao nível da padaria, do café, da mercearia, que não têm essa obrigatoriedade. Estamos expostos, mas ninguém das autoridades de saúde nos perguntou ou disponibilizou material para os profissionais", salienta. "Os farmacêuticos estão na linha da frente, mas ninguém tem pensado muito neles. Não obstante o trabalho que a nossa bastonária tem feito junto do Ministério da Saúde desde o início desta situação", acrescenta.

Joana ganhou alguma tranquilidade com as medidas que foram tomadas e que estão a permitir controlar melhor a situação do que era expectável, mas está apreensiva com a saída de tudo isto. "Se não estávamos preparados para estar dentro disto, também não estamos para a saída. Só podemos aguardar."

Farmácias hospitalares fechadas

O primeiro caso que nos reportam é o do Hospital Curry Cabral, mas há mais. Pelo menos mais duas situações, asseguram-nos. Só conseguimos confirmar a situação de Lisboa. Um farmacêutico infetado, numa equipa de 30 elementos, levou ao encerramento da farmácia da unidade que é referência para o covid-19 na zona sul.

A farmácia foi desinfetada durante três dias, dois de fim de semana, em que habitualmente está fechada também, e ao quarto dia reabriu com elementos das outras farmácias das unidades que integram o Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central. "Ninguém ficou sem medicamentos. Tudo foi assegurado pela farmácia central no Hospital de São José", confirmou ao DN fonte do centro. Até agora, não houve qualquer outra situação.

O número de profissionais infetados vai aumentando, não se sabe quando será descoberto algum fármaco ou vacina que trate ou previna a doença. Portugal está com 13 141 infetados neste dia e 380 mortos.

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