Inquérito serológico nacional foi limitado. IMM prepara novo estudo com 12 mil pessoas

O Instituto de Medicina Molecular vai avançar com o inquérito serológico de maior dimensão feito em Portugal. A amostra - 12 mil testes - é cinco vezes superior à recolhida pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge durante o primeiro estudo nacional para conhecer a quantidade de portugueses que já estiveram em contacto com o novo coronavírus.

No verão, as pessoas saíram de casa, foram à praia, ao restaurante e juntaram-se com amigos. O novo coronavírus propagou-se e "agora vamos ter uma noção completa do ritmo de transmissão associado à forma como vivemos, com as máscaras, com o distanciamento social", diz, ao DN, Bruno Silva-Santos, investigador principal do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (IMM), em Lisboa. É também o coordenador daquele que será o maior inquérito serológico sobre a covid em Portugal, desenvolvido pelo IMM, com o financiamento da Sociedade Francisco Manuel dos Santos e do Grupo Jerónimo Martins.

Para estudar o nível de imunidade da população ao vírus SARS-CoV-2, o IMM está à procura, a partir desta terça-feira e até dia 7 de outubro, de 12 mil voluntários para fazer um teste serológico gratuito. A amostra deste estudo é cinco vezes superior à utilizada no inquérito promovido pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), que concluiu, em julho, que 2,9% da população portuguesa já teria anticorpos contra o novo coronavírus, a partir da recolha de 2301 análises ao sangue.

"A dimensão da amostra não era suficiente para garantir que aquela prevalência era real em relação à margem de erro. Com tão poucas pessoas, a margem de erro do inquérito quase se sobrepunha ao valor do número de testes positivos", aponta o biólogo, que dirige desde 2005 um dos laboratório do IMM, onde se estuda a interação entre o sistema imunitário e tumores malignos, apostando no desenvolvimento de estratégias de imunoterapia contra o cancro.

Apesar de a amostra "não ser suficientemente robusta", Bruno Silva-Santos acredita que o estudo elaborado pelo INSA foi importante e que, pelo menos, serviu para estimar a prevalência da infeção logo depois do período de confinamento, quando o vírus tinha menor propensão para se expandir. Mas a necessidade de saber mais cresceu com o tempo e não foi anunciado outro inquérito de maior envergadura. Nas conferências de imprensa no Ministério da Saúde, onde é feito um balanço da situação epidemiológica do país, o presidente do instituto, Fernando de Almeida, foi repetindo que a realização de outros estudos está sujeita a uma reavaliação constante e anunciou três inquéritos dirigidos a profissionais de saúde, a grávidas e a recém-nascidos. Sem nunca ter referido a possibilidade de um novo inquérito nacional.

O estudo do IMM pretende colmatar esta ausência com um retrato realizado de norte a sul do país e nas regiões autónomas da Madeira e dos Açores, que vai abranger todas as faixas etárias. E que "só é possível devido aos patrocinadores [a Sociedade Francisco Manuel dos Santos e o Grupo Jerónimo Martins]", aponta o especialista, acrescentando "que jamais seria possível ao IMM patrocinar um estudo desta dimensão".

Também a diretora executiva do IMM, Maria Manuel Mota, atribui uma "enorme importância" à viabilização financeira do inquérito, que, nas suas palavras, "permitirá compreender melhor a doença, por exemplo, o que distingue biologicamente indivíduos assintomáticos dos casos ligeiros e dos mais graves" e projetar a investigação clínica e decisões políticas no que diz respeito às medidas de contenção contra a covid-19.

Este é outro objetivo dos resultados deste estudo, que serão divulgados no final de outubro: ir mais longe na investigação científica. "Vamos ter mais informação do que o INSA do ponto de vista da produção dos anticorpos, vamos fazer um estudo sobre as várias classes de anticorpos para saber que tipo de imunidade estamos a gerar", explica o investigador Bruno Silva-Santos.

"Vamos fazer um estudo sobre as várias classes de anticorpos para saber que tipo de imunidade estamos a gerar"

Ao IMM vão chegar todos os teste serológicos que acusarem positivo para a presença de anticorpos recolhidos nos postos do Centro de Medicina Laboratorial Germano de Sousa, outra entidade parceira. No total, será possível fazer o teste, de forma gratuita mediante inscrição, em 314 locais de colheita da Germano de Sousa, espalhados por 102 municípios.

Será utilizada uma amostra estratificada e proporcional da população portuguesa, dividida por três grupos etários (menores de 18 anos; entre os 18 e os 54 e maiores de 55) e por incidência de densidade populacional nas regiões (baixa, média, elevada).

Quero participar no estudo. O que tenho de fazer?

Se quiser ser um dos 12 mil voluntários deste estudo serológico pode inscrever-se, entre 8 de setembro e 7 de outubro neste site (onde também é possível encontrar todas as informações relativas ao projeto ou entrar em contacto com a linha de apoio através do número 808 100 062).

Depois de preencher uma ficha de candidatura com os seus dados e de dar consentimento para que o IMM utilize a sua análise para fins científicos, caso esteja disponível uma vaga na sua zona de residência e na sua faixa etária, ser-lhe-á enviado um código para o telemóvel. Basta dirigir-se ao posto de colheita Germano de Sousa mais próximo e apresentar o código que o identifica como participante do estudo. O código tem o prazo máximo de validade de uma semana e se não for utilizado o seu lugar volta a estar disponível na plataforma.

Inscreve-se online e apresente o código de acesso ao estudo num posto de colheita Germano de Sousa.

"Vai haver um número de vagas por município e por idade. O sistema é automático e a pessoa, quando preenche os dados, sabe logo se ainda há vagas para o seu município e para a sua idade. Quanto mais cedo a pessoa se registar mais hipóteses tem de participar no estudo", explica o coordenador do inquérito nacional.

Uma vez selecionado, deve dirigir-se a um dos 314 centros de Medicina Laboratorial da Germano de Sousa, mesmo sem marcação prévia, e o teste serológico, que consiste na recolha de uma amostra de sangue periférico, é-lhe feito de forma gratuita. A sensibilidade destes exames, ou seja, a fiabilidade na deteção de anticorpos, está avaliada entre os 98,5% e os 98,7%, dependendo do tipo de anticorpos procurados.

Será informado do resultado do seu teste pelo laboratório Germano de Sousa, que, na sua página online, garante entregá-lo no prazo de três dias úteis. E, no caso de já ter anticorpos, a análise é remetida para o IMM, que divulgará os resultados da investigação no final de outubro.

"Esta é uma oportunidade de as pessoas fazerem este teste de forma gratuita e saberem se têm anticorpos enquanto são úteis para o país, dando-nos informações adicionais sobre o tipo de anticorpos, se estes conseguem ser neutralizantes, que é uma coisa importante para saber qual o potencial desses anticorpos para evitar a chamada reinfeção", diz Bruno Silva-Santos.

Reinfeção? "A resposta imunitária é suficientemente forte"

No final de agosto, o alarme soou: investigadores de Hong Kong anunciaram o primeiro caso comprovado de reinfeção pelo novo coronavírus. Passados quatro meses e meio de ter apresentado dois testes negativos e, por isso, ter sido dado como curado de covid, um homem de 33 anos de Hong Kong voltou a ter um teste positivo para o SARS-CoV-2 , embora desta vez não tenha apresentado sintomas, como anteriormente.

"É uma exceção que confirma a regra e a regra é não haver reinfeção"

Este caso lançou o debate sobre a possibilidade de reinfeção mesmo depois da cura. Sobre isto, Bruno Silva-Santos lembra que a circunstância é rara e que se "contam pelos dedos das mãos as reinfeções conhecidas". "Nestes casos, a segunda análise mostrou que o vírus que estava a infetar era geneticamente diferente do vírus que infetou da primeira vez. Nem sequer era exatamente o mesmo. Para nós, cientistas, é uma exceção que confirma a regra e a regra é não haver reinfeção", continua.

O investigador cita ainda os ensaios clínicos mais avançados na procura por uma vacina contra a covid-19, em que não há evidência de reinfeção em animais, nomeadamente em macacos. "Se a vacina impediu a reinfeção, nós achamos que o próprio vírus impede o mesmo na grande maioria dos casos. A resposta imunitária é suficientemente forte. Sobretudo naquelas pessoas que tiveram sintomas."

Imunidade algures entre os 2% e os 20%

Sobre os resultados que preveem obter durante o estudo, um campo de incertezas, o cientista do IMM aponta para um número entre os 2% e os 20%.

Uma vez que o país tem tido um número de casos de covid-19 confirmados inferior a outras nações europeias, tais como Espanha, França ou Itália, e os inquéritos serológicos nacionais destes países têm apontado no máximo para uma imunidade populacional a rondar os 5%, depois do confinamento, a equipa do IMM não está à espera de encontrar uma circulação muito superior em Portugal, atualmente.

No entanto, "quão baixa pode ser a quantidade de pessoas com anticorpos ninguém sabe. O estudo do INSA revelou um valor mais baixo do que nós estimaríamos e agora quão mais acima disso vai ser? Não sabemos. Não esperamos estar já nos 20%, mas entre os 2% e os 20% há um enorme leque de possibilidades". O valor exato fica prometido para o final de outubro.

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