António Lobo Antunes: "Quero que o Nobel se f*da"

Uma entrevista de uma pergunta só e de uma única resposta de hora e meia no dia em que não houve Nobel da Literatura e antes de o escritor entregar aos leitores o novo romance em que vai mais longe do que nunca.

António Lobo Antunes tem um novo romance a chegar às livrarias no dia 15: A Última Porta antes da Noite. Em entrevista realizada nesta quinta-feira, no dia em que deveria ser anunciado o Prémio Nobel da Literatura se não tivesse sido cancelada a sua atribuição devido a um escândalo que mistura ingredientes de um livro policial com sexo e aliciamento do júri. O escritor pouco falou deste novo romance, antes abre o coração e afirma de rajada durante mais de uma hora - impedindo qualquer nova pergunta - tudo o que pensa sobre a literatura e em termos pouco habituais. Revela o que acha da obra de José Saramago, diminui a importância do Nobel e de outros prémios, comenta o estado da literatura nacional, desvaloriza Eça de Queirós, explica o significado da escrita para si, fala das mortes que o magoam e do seu próprio fim e, entre muito mais, confirma que daqui a três romances se vai dedicar à poesia.

O microargumento deste novo romance é real, o da morte de um empresário nortenho cujo corpo foi desfeito em 500 litros de ácido sulfúrico. A partir daí, puxa a história para a sua voz e cria uma das narrativas mais conseguidas da sua obra ao longo de 450 páginas que geram uma ansiedade constante no leitor. Há uma frase que se repete - "Não façam mal à minha filha" -, que permite o regresso à infância e às dores do crescimento e, numa roda-viva com os vários protagonistas, remexe no que a humanidade tem de melhor e de pior. Um livro onde António Lobo Antunes perde o pudor de ter pudor e confronta o leitor num estilo cada vez mais próprio, apurado e sem paralelo ao que se escreve atualmente, onde muito é feito de jogos de bilhar, de cegonhas com bebés que vêm de França, de todavias, de sombrinhas e de frases mágicas como "se é de um pesadelo que precisas posso emprestar-te um dos meus". Um romance sobre o qual diz: "Estava cheio de hesitações a cada revisão e só larguei o livro quando ele já não queria que lhe tocasse." Considera que se a mão foi capaz de escrever o que pretendia, pode ser "tão intemporal como os outros", mas receia que os leitores lhe ponham a "fasquia muito alta", o que o "deixa à rasca".

Se não fosse a crise na Academia Sueca, nesta quinta-feira seria o dia de anúncio do Prémio Nobel da Literatura e não estaríamos aqui a falar...

E o prémio da Câmara Municipal de Almada em que semana é? No entanto, o que estamos a fazer agora é a entrevista e, depois do que aconteceu na Academia Sueca, não é preciso dizer mais nada sobre esse prémio... Estou farto de ouvir falar do Nobel, é apenas um prémio literário em que as últimas pessoas que o têm ganho não me agradam. Se formos ver, os vencedores dos últimos anos não interessam. Estou a ser totalmente sincero, pois acho que se dá excessiva importância a isto. Quem é que se lembra dos prémios Jerusalém, que tem vencedores muito bons ao contrário do Nobel e de outros. É uma conversa que já não faz sentido porque tenho tido sorte e as pessoas são generosas comigo. O que posso pedir mais? Não consigo entender um prémio como a glorificação em relação a uma literatura de um determinado país - e eu já ganhei tantos! -, porque se eu contasse os bastidores de alguns nada tinham que ver com literatura. Estou tão ocupado a escrever... Não tem importância, sou melhor do que o Platão...

Houve uma altura em que estava bastante sedento disso, estava enraivecido, mas há uns tempos que estou em paz. Era uma reação estúpida e narcisista... Nunca penso na literatura portuguesa, evidentemente que ela existe e temos grandes escritores. Nos prosadores que eu gosto começava por Fernão Lopes, o grande escritor, D. Duarte e Fernão Mendes Pinto. Depois passava para os séculos XVII e XVIII, com D. Francisco Manuel de Melo e Matias Aires. A prosa do Antero [de Quental] é maravilhosa, bem como a do grande Herculano, que quase não tem "ques", o que é muito difícil evitar. Temos sobretudo grandes poetas, e é nisso que mais penso em termos de literatura portuguesa. Livros de que gosto muito e considero bons: Décadas, do João de Barros - levantei os olhos e dei logo com isso [na estante em frente]; [padre António] Vieira, uma prosa magnifica embora um pouco repetitiva, ou Garrett, outro magnífico... Não estamos mal servidos apesar de tudo. O que é um grande escritor? Inglaterra tem um que em Portugal não se fala, Dickens, que descreve uma cena num livro que me comoveu: um homem tem a mãe internada e muito doente num hospital. Vai visitá-la e pergunta-lhe: "Tens dores, mãe?" Ela responde: "Tenho a impressão de que há uma dor aqui no quarto mas não sei se sou eu que a tenho."

"Não partilho do amor por Eça de Queirós"

Isto é extraordinário, isto é um escritor e há muito poucos assim. Os Maias, por exemplo, que era o romance de que o meu pai mais gostava e nos lia muito quando éramos pequenos e algum filho ficava doente. Eu não partilho desse amor por Eça de Queirós, de quem gostei muito até aos 17 anos, depois comecei a escrever mais a sério e a minha admiração foi diminuindo. Não quero entrar em linguagem técnica, mas é a maneira como repete as personagens. São sempre as mesmas: o conde de Abranhos noutro livro chama-se conde de São Romão, noutro conselheiro Acácio, noutro Gouvarinho, e as mulheres são todas iguais. Comparado com Dickens ou Tolstoi existe uma grande distância. Lembro-me de ter lido uma crítica inglesa ao Crime do Padre Amaro, em que o autor desvalorizava o livro, o que para mim na altura era cruel. Fiquei muito indignado, mas agora compreendo. O que interessa isso neste momento? Esta história de classificar os escritores em primeiro, segundo ou terceiro lugar não se aplica à arte.

Quando os amigos do Theophile Gautier o levaram a ver As Meninas de Velázquez ficou em silêncio durante muito tempo. Um dos amigos insistiu em saber o que ele pensava e a resposta foi: onde está o quadro? Esta é a melhor crítica de pintura que conheci. O ideal seria que me dissessem: onde está o seu livro? Tem de me devolver o dinheiro porque comprei o livro e afinal não estou a ler um. Como os grandes atores americanos que cortam na representação e aderimos afetivamente ao que fazem, o que acontece com atores que dantes considerávamos de segunda ordem, como Sean Connery ou Gary Cooper, mas por trás daquela simplicidade havia muito trabalho. A arte é isso, trabalho... Havia um escritor que dizia: "Não há uma frase que um principiante não possa escrever?" O que distingue um grande escritor dos outros é que trabalha mais, que marra e marra. Dantes, pessoas que estavam a começar vinham ter comigo e pediam opinião. Eu dava e dizia que ainda havia bastante trabalho a fazer, mas voltavam dois dias depois e diziam "já emendei tudo". As pessoas não têm sentido crítico. O que é um livro bom? É fodida a pergunta, não é! Pode dizer coisas como as que tem aí escritas no papel para fazer perguntas, mas não era mau pensar-se sobre isso. Porque acho que Guerra e Paz é um livro bom e um livro da Odette de Saint-Maurice é mau? Os livros bons são maiores do que a vida. Se lermos Os Possessos de Dostoievski perguntamo-nos como é que aquele homem conseguia encher os livros de grandes trevas vivas? Se o escritor não as tem não é bom...

Gostava muito do [Joseph] Conrad - agora já não partilho dessa admiração - e ele tinha uma frase em O Coração das Trevas que dizia: "Tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega sempre tarde de mais." Isto é tão verdadeiro. Viver com uma mulher, por exemplo, é muito difícil porque conhecemos melhor os homens. As pessoas são tão inesperadas por muito previsíveis que sejam, como acontece quando olhamos a nossa própria morte...

"É bom estar de mão dada com um homem"

Quando estava com os cancros aprendi muito sobre a vida com as pessoas na sala da quimioterapia, aquela coragem admirável. E como serão lá em casa? Uns chatos como maridos e mulheres, mas era impossível não gostar delas no hospital. Aquele rapaz de um conjunto [Xutos & Pontapés] que morreu com um cancro, o Zé Pedro, uma coragem espantosa. Eu saía de lá cheio de respeito. Aquilo é horrível, a ressaca também e o que vem à cabeça não é agradável, mas as pessoas portavam-se com uma coragem admirável. Pareciam mais humanas e quentes do que fora daquele contexto, porque não necessitavam de competir. A vida, afinal, é só isto e nós fomos feitos para a morte e não para a vida, mas enquanto estou vivo devo tirar alguma alegria disso.

Outro problema que se me punha era o de Deus. Tenho dois amigos, um é o José Tolentino de Mendonça e outro o [frei] Bento Domingues - nunca conheci ninguém tão alegre como eles - e sempre que os encontro peço-lhes para não se esquecerem de rezar por mim. Digo-lhes: não sei se Deus me ouve, mas a vós escuta de certeza. Eu dizia: Ó Bento, se eu morrer o que faço? E ele respondia: "Continuas a escrever. Descansa que te vão ler e que vais encontrar temas." É um homem admirável, sem vaidade, generoso e humilde, ele que até aos 12 anos andava atrás das cabras no Minho e só depois de um dominicano ter ido dizer a missa à sua aldeia é que descobriu que queria ser como o frade e foi para o seminário. Uma vez perguntei-lhe: Está sempre assim feliz? E e ele, numa surpresa genuína, disse-me: "O que posso ser senão feliz." O Zé Tolentino e eu tivemos uma conversa pública e entrámos de mão dada no palco - é bom estar de mão dada com um homem num sítio onde estão tantas mulheres... O Eugénio de Andrade disse-me uma vez: "Estou cheio de inveja do Hermínio [Monteiro], ele morreu de mão dada com o Tolentino." Isto foi dito por um homem duro, distante e que morreu sozinho...

Nos últimos tempos aconteceram-me coisas tristes, a morte de dois irmãos, O João [Lobo Antunes] dizia-me volta e meia: "Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que estás a pensar." Não precisávamos de falar e éramos tão diferentes. Antes de morrer veio despedir-se de mim aqui em casa e em três horas não dissemos dez frases. A certa altura disse "eu acho que os pais" e ele cortou-me logo a palavra. Fui levá-lo ao táxi, abraçou-me e começou a chorar e avisou-me: "Não digas a ninguém que me viste chorar." Entrou no carro e não olhou mais para mim... Se conseguirmos escrever assim, com esta economia, transmitimos todos os sentimentos de quem quer viver e não vai conseguir. Um grande pintor, Hokusai, disse que se tivesse mais cinco anos tinha-me tornado um grande pintor. Que humildade... Eu tenho tanto que aprender - percebe-se neste livro - e vou morrer sem saber coisas que queria. Era como a teimosia do meu pai para eu tirar um curso... Para ele era estranho associar a minha vida à escrita, mas agora começo a tornar-me um escritor. Já estou coberto de glória, mas isso não interessa nada, queria era fazer livros bons...

Acho que tenho vindo a conseguir estar mais perto daquilo que considero ser um bom livro. Não sei se chegarei a fazer um bom, e não estou a ser falsamente humilde pois sou bem vaidoso. Era ótimo no hóquei quando estava no Benfica e podia ter tido uma bela carreira, mas o meu pai dizia: "Ou estás a ler ou nos treinos, não estudas. Acaba-se o hóquei." Para mim, pôr a camisola do Benfica, vestir o fato de treino... Aquele ritual era para um adolescente uma coisa do caraças e eu era bom naquilo. O meu pai é que nos pôs a andar de patins aos 3 anos, ele a dar ordens "faz curvas para a esquerda durante meia hora", depois para a direita. Comecei no Futebol Benfica - ainda existe - e um dia cheguei a casa vindo do liceu e a mãe disse: "Estão lá em cima uns senhores do Benfica a falar com o teu pai." Tinha 14 anos e fui transferido para o Benfica. Adorava e havia muitas meninas a assistir aos treinos... Com os livros é a mesma coisa. Como é que hei de dizer? Agora é que vejo bem que ninguém escreve como eu, mas ainda me falta alguma coisa.

"O que vou fazer nos anos que faltam?"

Ainda não é o que eu quero e, agora estou a acabar, só vou escrever mais três livros - já são 28 livros com este e o próximo. Queria fazer mais três e acabo. Não me importo de deixar de escrever. Já pensei voltar à poesia, como quando tinha 10 anos, mas achava que era tudo tão mau o que fazia que decidi tentar prosa. É mais fácil do que encontrar uma rima. À medida que os anos foram passando, percebi que escrever era muito difícil... Entreguei há dias o manuscrito [do próximo romance] e estou à espera dele, A Outra Margem do Mar [que sairá dentro de dois anos], para voltar à escrita. Este intervalo tem dado muito espaço para pensar. O que foi a minha vida? O que fiz dela? O que vou fazer nos anos que faltam? Que espero não sejam muitos porque não quero assistir à decadência. A partir dos 40 começa-se a notar e a vida passa a ter um peso que não havia, parece que nos empurra para baixo e temos menos paciência para certas coisas. Como naquele verso do [António] Nobre: "Olha, acolá, tantos Estúpidos! Meu Deus (Morrendo, diz-se, vão para o reino dos céus."

Eu tinha imensa paciência para estúpidos e deixei de a ter. Vejo os jornais, meu Deus, e as pessoas que escrevem lá... Não quero estar a fulanizar e dizer mal de alguém, que nem era falar mal, apenas dizer a verdade. Cinco anos de vida e tinha-me tornado um pintor! Tolstoi morre com 82 anos e o que aquele homem conseguiu fazer. E Dostoievski. Era uma competição: Benfica x Sporting; Tolstoi x Dostoievski; Lobo Antunes x Saramago. Saramago é uma merda... Se me quiserem comparar com alguém ponham lá o Antero, o Herculano, ponham assim um escritor. Porque não falam dos dois romances que o Almada [Negreiros] deixou? Estes últimos tempos foram difíceis, morrer um irmão é uma coisa tão estranha... Comecei a olhar para os livros de outra maneira e para aquilo a que se chama sucesso.

"E agora pergunta-me por nóbeis"

O Tolstoi morre com os mesmos problemas das pessoas, o Dostoievski idem, esses escritores de génio - que é uma coisa que acho que tenho - não lhes retira nada ao sofrimento, só os torna mais humildes. Sem nós, a vida continua da mesma maneira. O João [o irmão] morreu e o sol nasceu no dia seguinte. Ou alguém [Ramalho Eanes] que me ofereceu a caneta Parker que o pai lhe tinha dado quando foi para a Academia Militar ainda ele estava na igreja. Fiquei tão comovido com isso e agora pergunta-me por nóbeis... Claro que [a Biblioteca] Plêiade me deu uma alegria grande. Foi, talvez, quando me senti mais recompensado pelo trabalho, não no aplauso dos camaradas que fazem o mesmo ofício, que têm sido muito generosos para mim. Um escritor de quem gosto muito, o Claudio Magris, o Juanito [Juan Marsé]... Outros de quem gosto, a Agustina, que era mulher sem inveja e também devastadora. Podia continuar a lista, mas estes já chegam...

Acho que comecei a compreender melhor como se faz um livro porque queria fazer coisas que fossem dignas dessas pessoas por quem estava tão apaixonado e, infelizmente, já não posso falar com eles. Os meus dois irmãos, o Ernesto [Melo Antunes], outros ainda. Um dos problemas de a gente não morrer é que a morte de quem gostamos é horrível. Ainda tenho tanto que aprender... Então, penso que nestes últimos livros não tenho a grandeza destas pessoas de quem falei, mas se forem bons justificam a minha passagem por aqui. Não estou a pensar em termos de glórias ou prémios, nada disso, acho que tinha de pagar a honra de estar vivo... Creio que não me portei mal e, sobretudo, conheci pessoas excecionais, grandes médicos que nunca foram piegas comigo. As coisas estúpidas a que eu dava importância... Enquanto estou a escrever nunca fico seguro, e há muitas versões do livro; as primeiras são imperfeitas, se calhar as últimas também... Sendo sincero, não vejo ninguém que escreva como eu, mas sendo ainda mais sincero, eu também não escrevo como eu. Tenho de o fazer melhor, livros mais fortes e que estejam mais perto dos homens.

Só o facto de sermos homens comuns é que nos permite fazer grandes obras, seja elas quais forem. Olha o Afonso de Albuquerque, que queria morrer em Goa e o rei não deixou. Ele mandou ancorar o barco em frente à cidade e disse: "Do que fiz ou não fiz não cuido agora, a Índia inteira falará por mim." E aceitou a morte. Há coisas que não controlamos... Para escrever um livro faço um plano muito detalhado mas a mão acaba por fugir e torna-se uma entidade autónoma.

"Há 40 artistas em Portugal?"

Mesmo para alguém que nasceu canhoto como eu, a quem o professor dava porrada na escola e obrigava a escrever com a direita... Houve um grande tenista, o Björn Borg, sobre quem um jornal dizia que a diferença dele para os outros tenistas é que esses jogam ténis e ele jogava outra coisa, por isso era o melhor. Os outros escrevem, eu faço outra coisa. E se o conseguir fazer, então é bom. De outra maneira não vale a pena, há tanto livro bom e tanto bom escritor... Portugal é o país convidado da Feira do livro de Guadalajara e leva uma embaixada de 40 pessoas. Mas há 40 artistas em Portugal? Extraordinário! E eu no meio daquilo sou convidado de honra, entre todos aqueles génios...

Olhe, o último livro do Manuel Alegre é muito bom, fiquei tão contente porque cada vez que aparece uma pessoa a fazer bem também sou eu que faço. É mesmo bom aquele livro... As pessoas compram cada vez menos livros, o que é que se pode fazer para aproximar as pessoas da leitura? Temos de lhes dar grandes livros, mas os miúdos são logo ensinados na escola a não gostarem da literatura. Andar a dividir o Camões em orações afastou-me dele. Queria lá saber! Não nos ensinam a gostar destas pessoas nem de qualquer forma de arte. Queria escrever como os saxofonistas de jazz, como o Charlie Parker, parece que é Deus que está a falar por ali. Uma vez, numa sessão de improvisação, ele atira o saxofone para o chão e começa a pisá-lo até o amolgar todo e a dizer "já toquei isto amanhã". Ele era um génio e ainda hoje quando o ouço fico com os pelos todos no ar. É preciso sofrer muito para o leitor ter prazer, o Charlie Parker sofria como um cão. Quando o João estava no hospital nos Estados unidos, recebeu uma chamada e como estava em alta-voz ouvi uma voz muito grossa a dizer: "Hello, I am Charlie Mingus." Ele estava lá internado e não descansei enquanto o meu irmão não me levou até ele, tal como tinha visto a Marlene Dietrich, internada lá também, e que era muito pequenina.

"Estou cada vez mais contido"

Às vezes achamos que os admiradores são parvos porque fazem coisas impensáveis. Quando estou a autografar na Feira do Livro também ficam como como eu à espera de falar com o Charlie Mingus... Tenho reparado que a maior parte dos grandes escritores são pessoas muito modestas e contidas e eu estou cada vez mais contido; não vou a sítios, não apareço, vou à Feira do Livro porque tenho de agradecer às pessoas que compram os livros. Ainda consigo que a editora separe uns tantos para dar a alguns leitores, os livros estão caros e as pessoas ganham muito pouco em Portugal. E os meus livros nem sempre são fáceis - este livro é fácil de ler? -, porra, não me apetece estar a dar trabalho aos leitores. Queria que ler fosse uma fonte de prazer como é para mim quando leio um grande livro. Fico tão contente, estou a pensar qual foi o último livro que me pôs assim contente. Têm-me trazido vários livros, está ali uma antologia da guerra que é muito boa... Toda a gente queria fazer plêiades, os americanos tentam, mas a Plêiade é única. Estive a ler os Balzac, de alguns prefácios não gosto, não estão bem feitos...

Agora começo a fruir mais o prazer de estar com artistas que admiro. Enquanto ele - Júlio Pomar - estava a fazer este retrato, foi um tormento. O Júlio avançava e recuava, suava, e logo ele que era uma pessoa muito cordata. Beijava-me sempre nas duas bochechas. A certa altura grita: "MEXE-TE." Eu nunca tinha posado e estava quieto. "Foda-se, que é bonitinho de mais", disse, e lixou-me as mãos o sacana. Eu era mais bonito do que isto - aponta para o quadro -, mas ele não queria fazer um retrato muito igual a mim. Mais parece um livro acerca de uma pessoa. Lá pôs uma pálpebra mais aberta do que a outra, uma coisa que herdei da minha mãe. Ali em cima estão três coisas dele: um Beckett, o Tolstoi e o Camões. Tenho para aí uns 21 Pomares... Ele tinha em casa - que inveja - uma cara de rapariga desenhada pelo Matisse, uma coisa em quatro traços do caraças. Quando lhe disse que ia ser internado por causa do cancro, encorajou-me imenso só com isto: "Aguenta-te." Foi muito importante, melhor do que "vais ver que não vai ser nada e vais ficar bom"...

Há muitas maneiras de estar próximo, há mães como a Anna Magnani que abraçam e dizem fiiiilho e outras como a Ingrid Bergman, que não nos toca, mas o amor está lá à mesma. E entendemos mal porque não sabemos interpretar... Temos de escrever assim, mas isto chegou muito tarde... Estas mortes mudaram muita coisa em mim... Tirando a pergunta do Nobel não abriu mais a boca! Está a deixar aqui sozinho-me... Estive a ler os livros que escrevi e não me envergonham. Li o Auto dos Danados e gostei muito, eles são bons e não estava nada com esta ideia, até Memória de Elefante, que o [editor francês, Philippe] Bourgois dizia que era o melhor primeiro romance que conhecia. Esse gajo era o homem que mais sabia de literatura e escreveu-me uma carta a dizer "nada de meias-medidas entre nós, tenho um cancro". E escreveu uma frase que me surpreendeu porque nunca tinha falado do meu trabalho: "És meu irmão e não há escritor no mundo que admire tanto"... Vale a pena falar de Nobel depois de receber isto do Bourgois?

A primeira vez que assinei um contrato com ele foi para três livros, que eu ainda não tinha escrito, o Tratado, a Ordem e Gardel, e disse-lhe: estás a fazer contratos sem saber se vou viver para os escrever. Parecia o comendador Ferrarri quando assinou com o Ronnie Peterson, que morreu numa corrida depois... Tenho tanta inveja dos poetas... [declama António Reis]. Faz lembrar muito a poesia americana que agora toda a gente imita em Portugal e fazem uma merda porque não percebem a diferença que vai disto para poetas sem qualidade... Andei durante dez anos com um romance, as miúdas [filhas] ainda devem ter isso, depois atirei-o fora e enquanto desesperava comecei uma coisa - Memória de Elefante -, que foi publicado quando tinha uns 35 anos. Foi um sucesso, mas antes ninguém o quis durante três anos, sempre recusado, nem sei se o leram... Depois, tenho esta vida estúpida, sem computador, telemóvel, cartão de crédito, nem carro tenho já. Sou livre, é ótimo. Agora tenho de ir a Itália receber um prémio... Agora, esta competição entre as universidades americanas que querem os meus manuscritos... Está aí um livro do F. Scott Fitzgerald, que escritor, veja lá se o José Rodrigues dos Santos escreve esta frase "na noite mais escura da alma são sempre três horas da manhã". Estou a dizer este nome porque não ofende ninguém, os outros que se acham escritores.

Quem é que pode dizer que é escritor? Há um haiku de Bashô que eu traduzo assim: "Os quimonos pendurados secam ao sol, ai as mangas pequenas da criança morta." Chegar a isto! A primeira vez que o li fiquei cheio de lágrimas. Aí o O'Neill tem razão quando escreve no fim de um poema "Só entre os homens e por eles. Vale a pena sonhar"... E depois há os artistas que nos deixam estas coisas, como o Faulkner que dizia: "Descobri que escrever faz-nos erguer sobre as patas de trás e projetarmos uma enorme sombra"... Não me venham falar em nóbeis, quero que o Nobel se foda - ponha mesmo assim -, ou na grandeza de uma obra de tantos grandes escritores no mundo depois de Tolstoi. Tenho uma inveja dos poetas que me dano todo, gostava de ser capaz, mas não tenho talento. Faço estas coisas... Quantas páginas tem? [450]... O que eu trabalhei nisto, sempre à rasca, mas apaixonei-me pela mulher que aparece, a das todavias, que nunca vi. Gosto tanto deste objeto, o livro, apetece-me cheirá-lo... Este é de uma edição para pessoas com dinheiro, para o Ricardo Salgado, que nunca lerá...

Não fez perguntas, que chatice...

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