Clara da Silva cumpriu duas semanas de isolamento depois de regressar ao Lar

COVID-19

No dia em que D. Clara voltou houve festa no lar

A história do lar de idosos que conseguiu estancar o contágio e de Clara da Silva, que, aos 88 anos - diabética e doente renal - se salvou da covid-19. Ela e as três funcionárias estão ente os infetados já recuperados.

Clara da Silva ajeita o cabelo com uma mão e segura na outra um rosário. Fala e sorri ao mesmo tempo, coisa que nunca deixou de fazer, mesmo enquanto esteve internada, depois de infetada com covid-19. "Eu digo o que sinto: nunca dei por ela. Não tive nem tosse nem febre, nadinha deste mundo." Está sentada na cama do quarto onde se mantém em isolamento, quase duas semanas depois do dia em que voltou ao Lar de São José, na aldeia da Ilha, concelho de Pombal, no distrito de Leiria. Conta os dias para poder finalmente voltar a sentar-se ao lado das amigas, logo ela que é um ser tão social, que tanto gosta do convívio. Passa os dias no quarto, reza o terço vezes sem conta, pouco liga à televisão ou ao rádio que também lhe fazem companhia. Mas salvou-se, e isso é tudo o que importa.

Aos 88 anos, D. Clara acumula comorbilidades que a tornavam doente de risco acrescido: é diabética e faz hemodiálise. Mas passou pela doença quase sem dar por ela, e voltou ao lar, num dia que foi de festa. O vídeo, partilhado vezes sem conta nas redes sociais, mostra-a a sair da ambulância, ladeada pelas funcionárias da instituição, entre vivas e aplausos. Uma comoção generalizada, depois de toda a angústia que ali se viveu, durante mais de um mês: além da utente, três funcionárias também foram contagiadas. Estão todas curadas e em condições de regressar.

Os filhos (seis) telefonam-lhe todos os dias, alguns netos também. Clara Silva é nascida e criada na Ilha, e depois de ficar viúva mudou-se para o Lar do Centro Social e Paroquial, já lá vão seis anos. Na casa onde morou a vida inteira com o marido nasceram os filhos. Sublinha, com orgulho, que todos eles nasceram bem, sem ajudas de terceiros. "Nunca precisei de ir ao médico por causa dos filhos." Gosta de contar a vida passada no meio de muito trabalho, entre os campos de cultivo e a criação de vacas leiteiras, além de trabalhar também na arte do bracejo, como a maioria das mulheres mais velhas da aldeia. De resto, por ali existe até uma cooperativa dedicada a esse artesanato, este ano candidato às Sete Maravilhas de Portugal, na vertente cultura popular. Clara também sabe fazer alcofas e capachos, que na juventude ajudavam no sustento. Ali no lar, também já deixou essa marca.

Plano de contingência não evitou contágio

Naquele dia, em meados de março, como acontece três vezes por semana, Clara Silva, entrou na ambulância com destino ao Centro de Hemodiálise, em Pombal. "Não há certezas, mas acreditamos que terá sido aí que foi contaminada. Entre o transporte e partilha na diálise (onde houve outras situações de contágio), aconteceu", conta ao DN Eduarda Magno, diretora técnica do Lar de S. José, onde Clara vive há seis anos.

Desde o princípio que a ambulância e os dois funcionários do serviço privado a que pertence deram mostras de todo o cuidado em matéria de proteção: "Vinham todos equipados, desinfetavam a maca, a ambulância, tudo em conformidade." E isso descansava o corpo técnico e direção do Lar, onde também já estava implementado o respetivo plano de contingência, desde o início de março, quando a DGS fez chegar orientações específicas aos Lares de Idosos. Adquiriram equipamento de proteção individual, deram formação a todos os funcionários; criaram circuitos diferenciados para o apoio domiciliário, trabalhavam alternadamente com equipas em espelho. "Fomos cumprindo tudo. Mas isto prova que tudo não basta para impedirmos que a doença entre", sublinha Eduarda. Com os doentes sujeitos a tratamentos de hemodiálise, tinham cuidados redobrados: iam de máscara e luvas.

D. Clara - também ali tratada por Ti Clara - tem várias patologias que a idade lhe trouxe: faz hemodiálise, é diabética.

A 19 de março, a notícia de que uma idosa da vizinha freguesia do Carriço (que dividia o transporte com Clara Silva) morrera infetada com covid-19, deixou todos em alerta. Tinha 94 anos, foi a terceira vítima em Portugal, e partilhava com Clara Silva a mesma ambulância na viagem até ao Centro de diálise. Mas nessa altura já o Lar sabia que a análise post mortem tinha sido positiva, e por isso decide isolar a utente Clara, num quarto, além das medidas de precaução entretanto adotadas. Nos procedimentos habituais incluía-se tirar a temperatura aos utentes, e no final dessa semana Clara Silva acusa uma temperatura de 37.3 Mesmo sem ser considerada febre, o Lar faz o contacto para a linha de Saúde 24, que a encaminha para o teste ao novo coranavírus, nos Hospitais da Universidade de Coimbra. Era positivo. Clara ficou internada mesmo antes de saber o resultado. Dali só sairia para o Hospital dos Covões, também em Coimbra, onde poderia fazer os tratamentos de hemodiálise em simultâneo.

Nunca foi ventilada nem manifestou qualquer sintoma. Os exames mostraram que não havia qualquer indício da doença nos pulmões.

Enquanto Clara era hospitalizada, iniciava-se um trabalho minucioso de descobrir todos os contactos que teriam existido com a utente. Não estávamos ainda na fase de transmissão comunitária, pelos que identificar as cadeias de contágio era ainda relativamente fácil. Testaram-se cerca de 20 funcionários, 8 utentes e também uma das filhas de Clara Silva, por via das dúvidas - mesmo numa altura em que as visitas já tinham sido suspensas. Feitas as contas, além da idosa, havia três trabalhadoras infetadas. Nenhuma delas teve sintomas. De modo que ficaram em casa, sob vigilância médica e monitorização à distância. Clara silva voltou ao lar no sábado 18 de abril, depois de considerada curada da doença.

O mais difícil? Gerir o medo

Este terá sido o maior desafio da vida profissional de Eduarda Magno. Nunca dormiu no Lar, mas em casa manteve-se isolada do resto da família. Passaram semanas até que, finalmente, pode dar um abraço aos filhos. "Foi a angústia, foi o medo, foi a frustração de saber que tínhamos feito tudo, e que mesmo assim não chegou para impedir que o vírus aqui entrasse. E isso assustou-nos, claro. Percebemos que é mesmo muito fácil de transmitir."

Naquele sábado 21 de março, Eduarda ficou no lar até de madrugada. Depois do telefonema do Delegado de Saúde, ao final da tarde, ligou a todas as pessoas que integram a equipa de limpeza. Explicou tudo, a cada uma, assim como fez com o restante pessoal. No domingo, deixaram os utentes nos quartos, e desinfetaram "a casa toda de uma ponta à outra". Foi preciso falar com cada um deles, também, um contacto que ele própria fez, com a ajuda da psicóloga do Lar. Depois foi gerir a comunicação com as famílias. Eduarda enaltece a compreensão que encontrou, desse lado, uma resposta à frontalidade de que sempre usou, desde que ali está, há 8 anos. "Ainda hoje houve famílias que me disseram que nunca sentiram insegurança, porque sabiam que estávamos a fazer tudo pelos seus." As videochamadas foram fundamentais, nesse processo, numa constante comunicação digital. Valeu-lhe também o esforço incondicional do corpo técnico do Lar, desde então com equipas que trabalham 12 horas por dia, sete dias por semana. Numa sala, estão empilhados os colchões que servem para descanso do pessoal.

À distância dos dias da crise, a diretora acredita que foi esse excesso de zelo desde o início que impediu a disseminação. Mas foram dias difíceis, para todos. "As equipas estavam a precisar de muita força, e também de gerir o medo. Isso foi o mais difícil. No fundo apoiámo-nos muito, mutuamente. Elas sentiam que nós estávamos ao lado delas e diziam-me constantemente "enquanto aqui estiver, nós estamos consigo". E isso foi muito importante.

As três funcionárias que testaram positivo estão desde há vários dias entre os doentes recuperados. Regressaram ao trabalho esta semana, faseadamente, depois de cumprida a quarentena que as autoridades de saúde recomendam, mesmo após a contra-análise negativa. É um regresso esperado e necessário, também, até porque "há elementos na equipa que começam a dar sinais de cansaço. E não podemos baixar a guarda".

Para o padre Fernando Carvalho, que preside à direção do Centro Social desde 2018 (quando chegou à paróquia) também foi um desafio inédito. É a segunda vez que entra no lar desde o início da crise pandémica, para acompanhar a reportagem do DN. Ordenado há 15 anos, é também a primeira vez que tem sob a sua responsabilidade um Lar de Idosos. De acordo os estatutos, o padre local é também o presidente da IPSS, ligada à Igreja.

O pároco sublinha como foi importante a informação que a comunidade teve: "Pelas redes sociais, fomos informando com clareza o que se estava a passar." Não esquece a solidariedade da população, das coletividades, de todos quantos lhe depositavam material à porta. "A generosidade foi muito grande: viseiras, máscaras, luvas, donativos em dinheiro. O Grupo Desportivo da Ilha disponibilizou uma verba e os treinadores abdicaram do salário de março para entregar à IPSS local. Na aldeia há um espírito de união forte, que foi notório também na pandemia."

Estado de alerta permanente

Inaugurado a 1 de julho de 2012, o Lar de S. José alberga 58 utentes, embora tenha agora capacidade para 64, alargada quando alguns quartos individuais foram adaptados para casais. Os utentes pagam entre 600 euros (os que são comparticipados pela Segurança Social) e 1200 em quarto individual. O Centro Social e Paroquial da Ilha, a que pertence, tem ainda Centro de Dia (15 utentes) e apoio domiciliário (17 utentes), este último das 8 às 22 horas. O mais recente investimento foi a Creche, para 20 bebés. No total trabalham no Centro 63 trabalhadores. O padre Fernando Carvalho sublinha que não houve nem há postos de trabalho em risco, graças ao apoio dos pais e da comunidade.

Passada a tormenta, o lar continua com todas as cautelas: a roupa e o calçado que se usa lá dentro não é o mesmo que se usa na rua, e continua o isolamento pessoal de cada uma das funcionárias e direção técnica, em casa. Eduarda Magno sabe que o final desta história continua por escrever: "Tivemos em estado de alerta, mas estamos bem. Partimos sempre do princípio de que temos o vírus cá dentro e que a qualquer momento ele mostra-se. O que tentamos fazer é viver com o vírus, mas com todos os cuidados. Com menos tensão, menos medo. Já nos habituámos a estas práticas, rotinas, e acho que daqui saiu um reforço de união da equipa. O lado bom disto tudo."

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