O inventor do jornalismo apartidário e noticioso em Portugal

Na vida de Eduardo Coelho há um antes e um depois de 29 de dezembro de 1864, data do primeiro DN, reinava então D. Luís em Portugal.

O que se pode dizer de um homem que tem um busto no lisboeta Jardim de São Pedro de Alcântara e uma rua com o seu nome no Bairro Alto, onde viveu grande parte da vida? Um homem que ainda em vida viu a Rua dos Calafates ser rebatizada de Rua do Diário de Notícias tanto era o sucesso do jornal que fundara em 1864. E que muitos anos depois da morte ainda era homenageado com um outro busto, esse colocado na entrada do edifício histórico do DN na Avenida da Liberdade. No fundo, que dizer de um homem que hoje consegue ser relembrado não por um qualquer jornal, mas por aquele que criou há mais de século e meio? Que deixou marca em Lisboa, na sociedade portuguesa em geral, porque foi alguém realmente à frente do seu tempo.

"Eduardo Coelho nasceu em Coimbra, em 22 de abril de 1835, na Rua dos Sapateiros, à qual, mais tarde foi dado o seu nome. Aos 13 anos ficou órfão de pai, obrigando-o, tão precocemente, a fazer pela vida. Abandonou os estudos e começou a trabalhar como empregado de comércio, em Lisboa. Cedo tomou o gosto pela leitura, responsável, certamente, por uma forte atração pela escrita. Deixou a atividade comercial e iniciou a aprendizagem de tipógrafo e, mais tarde, entrou na Imprensa Nacional. Antes de abandonar a primeira profissão, publicou um livro de versos, intitulado O Livrinho dos Caixeiros, em que descreve a natureza e a dureza do trabalho daqueles profissionais. Um tanto humorístico, já reflete aí as suas preocupações de justiça, que o acompanharam até ao fim da vida", conta Leonel Gonçalves, que trabalhou durante quatro décadas no DN, três delas a dirigir o arquivo.

Acrescenta o antigo diretor do arquivo, que tantas vezes lidou com os papéis do próprio Eduardo Coelho, que este "fundou o Boletim Noticioso, jornal de anúncios e notícias, ao preço de 10 réis. Foi diretor da Crónica dos Teatros e colaborou no Jardim Literário, na Revolução de Setembro, no Conservador e em muitas outras publicações. Escreveu vários livros, de diferentes géneros literários, entre os quais A Vida de Um Príncipe (1860), Leituras ao Serão (1863), Repressão e Liberdade (1871), Histórias de Hoje (1877). Fez também traduções. Desempenhou as funções de secretário de duas grandes figuras da época: António Feliciano de Castilho e José Estêvão".

Mas na vida de Eduardo Coelho há um antes e um depois de 29 de dezembro de 1864, data do primeiro DN, reinava então D. Luís em Portugal, Napoleão III mandava em França, a rainha Vitória de Inglaterra não ia sequer ainda a meio do seu reinado e nos Estados Unidos Abraham Lincoln tinha acabado de ser reeleito presidente em plena Guerra Civil.

"O aspeto mais relevante da vida de Eduardo Coelho foi, sem qualquer dúvida, a sua entrada na Tipografia Universal Lisbonense, dadas as consequências para o jornalismo português e para o país. Ali se faziam várias publicações e o contacto com o proprietário, Tomás Quintino Antunes, gerou uma cumplicidade, no sentido da criação de um grande jornal que tratasse de todos os aspetos do país (política, história, arte, comércio, indústria, justiça, ciência, agricultura, etc.) com princípios e com equilíbrio, sem insultos e com linguagem civilizada. Essa obra foi o monumento chamado Diário de Notícias."

Eduardo Coelho morreu em 1889, meses antes de o seu jornal comemorar um quarto de século. Mas o legado revelou-se duradouro: afirma Jorge Pedro Sousa, professor na Universidade Fernando Pessoa e historiador do jornalismo, que "numa paisagem mediática dominada pela imprensa político-noticiosa alinhada com os partidos políticos da monarquia constitucional, o DN vai distinguir-se pelo perfil editorial apartidário e noticioso. Deu grande espaço à notícia factual, em detrimento dos artigos de fundo, das crónicas parlamentares e das notícias comentadas próprias dos jornais políticos. Quando intervinha nos assuntos públicos, fazia-o em nome das noções abstratas da nação, do país, do povo ou do bem comum e não de uma força política. Adaptando alguns dos melhores exemplos estrangeiros à realidade portuguesa, o DN distinguiu-se, ainda, por ser um empreendimento jornalístico assente em bases empresariais que visava, legitimamente, o lucro, facto que o levou a ser criticado ferozmente pela imprensa política de então. Entre outros aspetos relativamente inovadores para a prática portuguesa, financiou-se, principalmente, pela inserção de anúncios publicitários, incluindo milhares de pequenos anúncios pessoais. Assim, o DN podia ter um preço baixo por exemplar, fator determinante para o seu sucesso comercial e jornalístico. Os anúncios publicitários também contribuíram, a seu modo, para o incremento das tiragens e da circulação, já que tinham o seu público. Finalmente, ao apostar na produção própria de informação jornalística, o DN deu um contributo notável à profissionalização do jornalismo em Portugal e ao surgimento do repórter, que substituiu gradualmente os plumitivos que imperavam nas redações. Tornou-se um exemplo a seguir e provocou a metamorfose da própria imprensa política".

Acrescenta ainda o autor de Para Uma História do Jornalismo em Portugal (que coorganizou com Carla Batista, professora na Universidade Nova e antiga jornalista do DN) que "o sucesso do projeto facultou a adesão dos intelectuais da época. Grandes escritores colaboraram com o DN, especialmente nos folhetins, um género que fez escola na imprensa oitocentista. Eça e Ortigão, por exemplo, escreveram O Mistério da Estrada de Sintra para o DN. Escrever para um grande jornal também elevava a reputação dos escritores e facilitava a circulação da respetiva obra. As remunerações auferidas pela colaboração com um jornal da envergadura do DN também não seriam despiciendas. Victor Hugo terá escolhido o DN para publicação da sua carta a elogiar Portugal pela abolição da pena de morte (para crimes civis) devido, precisamente, à envergadura que o jornal já tinha e ao seu impacto na sociedade portuguesa".

Recorda Leonel Gonçalves, por seu lado, que Eduardo Coelho teve direito a várias biografias e "as principais são os livros dos 50 anos, de Alfredo da Cunha, dos 75 anos, de João Paulo Freire, e dos 100 anos, de Oscar Paxeco", ligadas todas pois a aniversários importantes do DN.

Alfredo da Cunha foi diretor do DN e casou-se com Maria Adelaide Coelho da Cunha, filha e herdeira de Eduardo Coelho. O seu relacionamento trágico deu já origem a livros e filmes, o mais recente, Ordem Moral, em que Maria de Medeiros é Maria Adelaide, acusada de louca por ter trocado o marido pelo motorista. Tudo se passou três décadas depois da morte do fundador do Diário de Notícias, mas a notoriedade do caso teve muito que ver com o prestígio da família.

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