Premium "Os emigrantes que foram a salto e viveram no bidonville são os meus heróis"

Christophe Fonseca perdeu a conta ao número de filmes que assinou, mas sabe que só depois do documentário sobre Amadeo de Souza-Cardoso ficou conhecido em Portugal. Falámos com realizador na sua casa em Janardo, uma aldeia nos arredores de Leiria.

Fala um português escorreito, sente-se tanto português como francês, e recebeu o DN em sua casa, na aldeia de Janardo, nos arredores de Leiria. Christophe Fonseca já perdeu a conta ao número de filmes que assinou, mas sabe que só depois do documentário sobre Amadeo de Souza-Cardoso é que passou a ser conhecido em Portugal. É sócio do realizador Ruben Alves na produtora Imagina (juntos realizaram já diversos trabalhos), com sede em Lisboa, mas é na sua francesa Les Films de l'Odyssée que trabalha a maior parte do tempo. Nascido e criado em Champigny-sur-Marne, o cineasta passou a infância a ouvir histórias de carabineiros que perseguiam os emigrantes, dos passadores que enriqueciam a fazê-los chegar ao destino, e de como se vivia num bairro de lata, como aconteceu a muitos da sua família. Para 2019 está agendada a estreia de Além-Fronteiras, o filme-documentário que conta a história da emigração clandestina, de que é filho.

Que filme é este, o que conta sobre a emigração?

Entre todos os que já realizei será talvez o mais importante. Eu faço filmes desde a adolescência, como se fosse uma coisa vital.

E este é aquele em que começou a pensar há muitos anos...

Eu acho até que tem que ver com a minha própria envolvência no cinema. Esta história persegue-me desde a infância. E no filme eu conto como me aconteceu esse despertar para a realidade.

É um filme que se foca mais na viagem a salto, ou na forma como os portugueses viviam nos bairros de lata, nos anos 1960?

É a história do bairro de lata de Champigny - para onde o meu pai foi, nos anos 1960 - que era a plataforma da emigração portuguesa em França, de onde por vezes partiam para outros países da Europa. Mas sim, é também um filme sobre como se chegava lá.

Que foi uma história que começou a ouvir desde pequeno...

Sim, logo na infância. Grande parte da minha família e de amigos dela tiveram esse percurso: uma longa viagem, difícil. Mas os que chegavam lá mandaram ir os outros - aqui da aldeia, por exemplo.

E a ideia é contar qual era esse percurso e como era feito?

Quero contar também como é que fui descobrindo essa história, ao longo dos anos. As histórias da viagem a salto, no bairro de lata, só se contavam entre eles. Só se falava no assunto quando se juntavam, entre família ou amigos que tinham vivido a mesma história, e nunca a pessoas que não conheciam. Acontecia muitas vezes ao domingo, depois de almoço. Para mim, em criança, que ficava debaixo da mesa a ouvir, aquilo eram as minhas histórias de cowboys. Eles eram os meus heróis. Ouvir o meu pai e os meus familiares contar como eram perseguidos pelos carabineiros, como tinham de se esconder, as condições como chegavam ao bairro de lata, e a maneira como era difícil sobreviver lá.

Para uma criança era uma coisa fantástica.

Sim, era qualquer coisa que os meus amigos da escola não tinham!

E contava isso na escola?

Não, nunca. Era o nosso segredo. Eu percebi desde sempre que aquilo era a nossa história-segredo. E por isso foi crescendo o fascínio pelos meus heróis.

Que episódios recorda dessas histórias?

Sobretudo a parte de como pagavam aos passadores para atravessar a fronteira. Mas também as causas: eles a fugirem da ditadura, para não irem para a guerra, ou simplesmente a fugir da miséria. Na minha família há todos esses exemplos. Aqui nesta aldeia onde estamos metade foi embora, pelas mais diversas razões.

O seu pai, por exemplo, fugiu de quê?

Ele tinha 16 anos, quase 17. E sabia que não tardaria a ir para a Guerra do Ultramar. Como muitas da sua geração, fugiu à tropa. É por isso que ao princípio, no bairro de lata de Champigny, a maioria eram homens. Primeiro eram aqueles que iam até com contrato de trabalho, nos anos 1950 e ainda 1960. Mas a grande vaga foi clandestina. Aliás, é engraçado ver como eram vistos os emigrantes portugueses pelos franceses: trabalhadores, mão-de-obra destacada. A coisa só começou a complicar-se quando chegaram as famílias.

No caso da sua família (direta) foi lá que ela se formou, no bairro de lata?

Sim, o meu pai conheceu a minha mãe - que é da zona de Ourém - e foi ali que começou a nossa vida.

Mas sempre com uma ligação a Portugal?

Sim, sempre. Vínhamos todos os anos. E eu ficava pelo menos dois meses, na aldeia, com os meus avós. Lidava sobretudo com os portugueses que aqui moravam e isso foi muito importante para que eu pudesse desenvolver o meu português.

Em França frequentou a escola portuguesa?

Não. Nunca fui, também não havia ali próximo onde morávamos.

E quando é que percebeu que essa história de família - que é dos dois países, também - tinha de ser documentada em filme?

Em criança fui ouvindo a história dos meus heróis, até que um dia, já adolescente, comecei a querer saber mais. Queria saber o outro lado, contado por outras pessoas. Não havia quase nada: livros, documentos...então fui à procura de imagens. Pedi uma autorização aos Arquivos Audiovisuais de Paris, e foi quando vi as primeiras imagens. E foi um grande choque.

Porquê?

Porque vi o outro lado da história, da realidade do bairro de lata de Champigny.

Visto por quem?

Por jornalistas da época. Ainda hoje me custa falar disso, Chorei imenso quando vi aquilo.

Porque não imaginava o drama que foi essa parte da diáspora?

Não, porque quando ouvia as histórias em miúdo era tudo muito mais positivo. Porque de repente eles viram-se em liberdade. Eu acho que é sobretudo a liberdade que os marca, mesmo quando passavam a maior parte do tempo a trabalhar, eram livres. Ganhavam o seu dinheiro e podiam fazer o que quisessem.

E depois confrontou a família com esse outro lado da história?

Não. Durante muito tempo precisei de digerir aquilo. Juntei vídeos, jornais da época, tudo o que encontrei.

Para fazer o seu próprio puzzle?

Exato. Assim fiquei com dois pontos de vista: de quem o viveu, e de quem o contou - jornalistas e fotógrafos que se interessaram pelo fenómeno.

Como o Gerard Bloncourt?

Sim, por exemplo. O que me marcou mais foi a atualidade da época. Carregavam imenso na miséria do bairro de lata. E a partir daí os meus heróis levaram uma facada. Era como se estivessem a destruí-los. E isso foi muito duro.

E foi aí que começou a recolha de depoimentos para o filme?

Sim, foi nesse momento. Recolhi testemunhos de familiares, amigos, documentação vária, confrontando sempre as duas realidades: aquela vivida e a outra, de perceção.

Na sua opinião essa é uma história que ainda não está bem contada?

Não, de todo. Já houve várias coisas mas ainda não está, na minha opinião. Às vezes penso que eu faço cinema para contar esta história. Porque foi uma coisa tão forte, desde a infância...

Que idade tinha quando descobriu essas imagens de arquivo?

Tinha 14 anos. Eu sabia que queria fazer cinema, e a primeira história que queria contar era esta.

Mas demorou quase 30 anos...

Sim, porque fui fazendo outras coisas. Mas também porque sempre respeitei a necessidade de eles não falarem publicamente sobre o tema.

E hoje, que a maioria está na idade da reforma... já aceita falar sobre isso?

Sim, as coisas estão a mudar. Embora, por exemplo, o meu pai (que tem agora 66 anos), de cada vez que eu lhe digo que estou a fazer o filme... ele está ainda sempre com um pé atrás. Mas há cada vez mais pessoas com necessidade de falar sobre o tema.

Como se precisassem de fazer uma catarse, agora que caminham para a velhice?

Eu acho que nós temos todos uma fase. Em qualquer parte da emigração - ou da vida - há uma primeira fase de adaptação. O bairro de lata foi uma fase.

Esse trabalho de pesquisa começou exatamente quando?

A primeira entrevista que fiz para este filme tinha 18 anos, foi nos anos 1990, estava na escola de Cinema.

O filme é um documentário?

É uma mistura de documentário, ficção e animação. E seguindo a memória que é realçada, tem diferentes formas.

E neste momento está definido um timing para o fazer?

Sim, chegou um momento em que disse a mim próprio que tinha de o fazer. Portanto o filme tem de estar pronto em 2019. Percebi que não posso estar à espera de que toda a gente esteja pronta para falar. Foi assim que escrevi um novo guião e comecei a trabalhar a sério no filme. Porque o primeiro já tem mais de 20 anos...

Como é que se vai chamar?

Em português Além-Fronteiras, em francês Au-delà du Silence.

E qual é o grande objetivo com a realização deste filme? É deixar um testemunho aos dois países?

Há um objetivo comum a todos os meus filmes que é lutar contra o preconceito. E a minha arma para o fazer é o conhecimento, dar a conhecer aos outros. Chegar ao máximo de pessoas.

E os emigrantes são uma minoria, também. Parece-lhe que ainda hoje eles sentem alguma vergonha da sua condição?

Acho que é uma mistura: de raízes do campo, de um certo pudor em desvendar o que viveram, do que foi a sua marca - a emigração silenciosa, ou ainda dos restos da ditadura. Por isso o que o filme pretende é dar a conhecer uma história. E no fundo isto é uma homenagem a uma geração que para mim é um modelo. Continuam a ser os meus heróis. Porque fizeram aquilo que eu próprio seria incapaz de fazer. Não conheciam a língua, não faziam ideia do que era a França, ou Paris, e numa geração conseguiram ir tão longe.

Sentiu esse estigma, no mundo do cinema, por ser filho de emigrantes?

Claro que sim. Mas de cada vez que me diziam "isto não é uma área para ti", e me fechavam uma porta, eu pensava sempre no que passaram os meus familiares para chegar a França e alcançar outra vida. E foi isso que me fez avançar.

Atualmente tem um lugar no cinema em França. Quantos filmes já realizou?

Não sei ao certo... também não publicito muito o que faço, gosto de ficar no meu cantinho. O que é importante é haver sempre um objetivo.

Quando fez o documentário sobre a vida e obra de Amadeo de Souza-Cardoso, qual era o objetivo?

Dar a conhecê-lo além-fronteiras.

Mas a ideia que tenho é que também não o conhecia, quando a Fundação Calouste Gulbenkian o convidou para fazer esse documentário...

É verdade. E é isso que quero dizer: como é que eu não conhecia? Como é que isso não chegou a mim? É por essa razão que o conhecimento é tão importante. Quando descobri a figura dele, pensei logo que tinha de o tornar conhecido no mundo inteiro. E foi esse o meu motor.

No ano passado foi mostrar o filme a Nova Iorque. Como é que foi?

A antestreia foi no MoMA (Museu de Arte Moderna), e não poderia ser melhor. Naquele momento senti que já tinha feito a minha parte, simbolicamente. É sempre bom quando sentimos que um filme serve para qualquer coisa. E eu preciso de ter sempre um significado no meu trabalho. Neste, sobre a emigração, gostava que fosse - além de uma homenagem - um momento de reflexão sobre o que acontece na nossa sociedade. É ir buscar um exemplo anterior. Porque há a história oficial da emigração, mas foi dada pouca oportunidade aos protagonistas de a contarem. E sobretudo em França, muitas vezes essa história é contada por certos especialistas, e poucas vezes por quem a viveu.

Provavelmente porque é dolorosa para os protagonistas relembrá-la...

É por várias razões. Mas temos que fazer esse trabalho.

E rapidamente. Porque é uma geração que está a desaparecer...

Sim, têm entre 70, 80 e 90 anos...

Parece-lhe que têm uma relação pacífica com Portugal, que fizeram as pazes com o passado, depois de terem sido forçados a deixar o país, por qualquer que seja a razão?

Da mesma maneira que eu acho que não há uma comunidade portuguesa (há comunidades) também acho que cada um tem a sua maneira de encarar isso. Há pessoas que resolveram bem, outras não. Para mim o que é essencial no filme é incentivar à reflexão, sobre as fronteiras. Se não precisarmos de pagar para atravessar uma fronteira, se não ficas preso lá, não vais aceitar certas condições de trabalho... mas no meio disto há histórias de sucesso. E devemos mostrar esses exemplos também. Ver o que correu melhor e pior.

É um instrumento para o futuro, também?

Penso que sim. Nós estamos numa fase em que o racismo está a subir. E é uma oportunidade também de vermos esses fenómenos de outra maneira. Fiquei muito surpreendido quando comecei a falar no filme e apareceram produtores a nível internacional. Porque, afinal, nós achávamos que esta era uma pequena história franco-portuguesa, tem uma mensagem muito mais universal. E toca muitos povos. Veja-se os americanos, que agora estão a construir fronteiras...

Ou seja, é um filme sobre o passado, mas também de futuro?

Acho que sim. São problemas que nos vão tocar no futuro. Nós estamos a falar de uma população mundial em bairro de lata que nos próximos anos será multiplicada por muitos mais. E quando pensávamos que o bairro de lata iria desaparecer... é o contrário. Vai ser um fenómeno de grande escala no futuro.

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