Chega arma de arremesso? "Costa está a devolver ao PSD o que a direita fez em 2015"

Colagem do PSD ao Chega é pura estratégia política, dizem analistas. Para Adelino Maltez o sistema político (e o mediático) estão a "normalizar" o partido.

Uma "deriva insana" de aproximação ao Chega, um "esbatimento daquilo que são os cordões sanitários entre a direita e a extrema-direita", uma "contaminação" perigosa pelas ideias do partido de André Ventura. Na entrevista ao DN, ao JN e à TSF, neste fim de semana, António Costa abriu uma nova frente de ataque contra Rui Rio, acusando o líder social-democrata de se chegar à direita e de querer disputar espaço e ideias ao Chega. "Já está entendido com eles nos Açores, importou uma senhora do Chega para candidata à Amadora, propõe-se ser o baluarte do ataque à independência das magistraturas, é contra o salário mínimo nacional", exemplificou.

"António Costa tenta estigmatizar o PSD com uma radicalização à direita", diz António Costa Pinto, sustentando que o líder socialista está agora a usar o mesmo discurso com que o espetro político adversário reagiu aos acordos de 2015 com PCP e Bloco de Esquerda. "Sabendo que o desafio do PSD está na sua relação com o Chega, o secretário-geral do PS, do alto dos seus 36%, está a desafiar a direita da mesma forma que no passado a direita desafiou o PS - "vão coligar-se com os comunistas, vão coligar-se com os radicais?!". Está a devolver o mesmo discurso", sublinha o investigador coordenador do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa.

Com este discurso, sustenta António Costa Pinto, o primeiro-ministro tenta conquistar para o seu lado o eleitorado do centro. Mas essa concessão que aponta o secretário-geral do PS é identificável? "É um artefacto discursivo, sem fundamento empírico. Não há sinais de que o PSD tenha feito alguma concessão, que tenha elementos programáticos ou discursivos" que o aproximem do Chega. A experiência de outros países mostra que "pode acontecer", mas "até agora não se verificou, não se viu o PSD assumir uma agenda populista, xenófoba".

Paula do Espírito Santo vê nas palavras de António Costa uma uma "estratégia política e eleitoral", uma "demarcação de terreno" já a pensar nas autárquicas que se avizinham e nas próximas legislativas, o traçar de uma linha de separação com a direita que significa também uma continuidade relativamente ao modelo da geringonça.

"É uma marcação de espaço eleitoral e uma tentativa de isolar o PSD, colando-o ao Chega, há uma construção de uma mensagem de forma a colar os dois partidos", diz a investigadora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa, que viu na entrevista do primeiro-ministro "um discurso mais agressivo, que não é o tom corrente de António Costa". "É um momento que marca uma clara rutura entre os dois", também visível na forma como o próprio Rio reagiu, acusando Costa de ter feito uma entrevista "rasteira". "Há ali qualquer motivo que veio acicatar os ânimos entre os dois. O quê não sabemos, pelo menos pelo que nos é dado ver publicamente", sublinha.

"Estão todos a fabricar o Chega"

O Chega está, portanto, transformado numa arma de combate político entre os dois maiores partidos. A somar ao facto de estar permanentemente no centro de sucessivas polémicas, sejam as criadas pelo próprio ou por efeito colateral, caso da presença de André Ventura na convenção do Movimento Europa e Liberdade. "Estão todos a fabricar o Chega. Fala-se em normalização: todos estão a fazer essa normalização ao elegê-lo como adversário principal. É o chamado inimigo conveniente. Todo o sistema político português está a fabricar o Chega, e não é só o sistema político, também o sistema mediático", sustenta por seu lado Adelino Maltez. E Ventura sabe tirar partido dessa lógica: "Aproveita a deixa de Odemira [a polémica em torno da requisição civil de um empreendimento turístico], ataca logo sempre que vê um potencial conflito, sobretudo se for com minorias. Adianta-se uma semana ao PSD e ao CDS."

António Costa Pinto lembra que a forma como o sistema político e partidário deve reagir a um partido populista é uma discussão sem uma resposta definitiva, que já se fez noutros países da Europa: "Ilegaliza-se, não se ilegaliza? Há uma cerca sanitária, não há? Em França fez-se essa cerca sanitária [contra Marine Le Pen], na Holanda deixou de existir, na Áustria também."

Para este analista político há uma "grande interrogação que vai moldar a política portuguesa nos próximos tempos: o Chega vai crescer no sentido de ser um partido que conta e vai tender para o centro ou vai ficar na extrema-direita?". Sobre esta última questão, Costa Pinto aponta a anunciada vinda de Matteo Salvini, o líder da extrema-direita italiana, ao próximo congresso do partido. "Há uma coisa interessante no que se refere à escolha da família política europeia do Chega. Podia ter optado pela direita, optou pelo modelo de extrema-direita clássico", uma opção que "pode até limitar o seu crescimento". Mas, tratando-se de um partido que "está ainda em fase de fixação da sua identidade política" há uma "expressa associação" a figuras como Salvini ou Le Pen - e isso quer dizer alguma coisa.

Já Adelino Maltez vê como "natural" a associação de Ventura a estes nomes: "Integram a mesma família europeia, isso faz parte da vida normal dos partidos." E do outro lado também há interesse nessa relação. "Aquilo a que se chama a extrema-direita europeia sempre foi muito fraquinha em Portugal. Agora há um momento de génese de um partido, já têm um representante, já podem vir com toda a satisfação de ter aqui uma secção", defende o politólogo.

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