Em Portugal, em 2019, houve 209 mil pessoas que doaram o seu sangue, destas 14% eram jovens.

COVID-19

Portugal prepara-se para desenvolver terapêutica experimental com sangue

Não é um fármaco, mas é uma das várias opções disponíveis com que a medicina está a tentar tratar a covid-19. E tem dado bons resultados. Foi primeiro usada na China. Na UE está a uniformizar-se procedimentos.

Ouso do sangue para salvar doentes não é uma prática nova na história da medicina. Já aconteceu com outras epidemias deste século - como a SARS, em 2002, e a MERS, em 2012, também provocadas por coronavírus - e volta a acontecer com a covid-19. O certo é que tanto antes como agora tem dado bons resultados. Além de que, e como afirma ao DN a presidente do Instituto Português do Sangue e Transplantação (IPST), Maria Antónia Escoval, "embora experimental, esta terapêutica encerra em si uma solidariedade muito interessante, pois permitirá a um dador recuperado salvar um doente infetado". Ou seja, o plasma do dador convalescente, como é designado, rico em anticorpos, "irá ter efeitos na recuperação dos outros doentes", explica.

Maria Antónia Escoval afirma que Portugal está a acompanhar a evolução desta terapêutica em países como a China e agora mais recentemente em Itália e em Espanha, não de forma generalizada, mas apenas em algumas regiões, para a poder usar. O que quer dizer, sublinha: "Não estamos a ficar para trás, estamos a preparar-nos para a podermos usar como mais uma das opções disponíveis no tratamento a esta epidemia." No entanto, "ainda estamos numa fase inicial e ainda não podemos avançar com uma data precisa para o seu início" nos hospitais portugueses.

Dentro do IPST foi já "criado um grupo de trabalho, ainda restrito, mas para este efeito, e que tem como missão elaborar protocolos e harmonizar procedimentos para depois serem discutidos com a Direção-Geral da Saúde (DGS) e o Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (INSA), que estão ao corrente do que estamos a fazer. Depois passaremos à fase de discussão com os hospitais que têm as maiores colheitas e que, no fundo, são mais representativos em termos de transfusão".

"O uso de plasma convalescente "ainda é só um ensaio clínico, mas é uma mensagem de esperança para a população, porque tem dado bons resultados".

A Comissão Europeia está também a reunir com todos os países para harmonizar procedimentos, para que todos possam ficar alinhados nos termos de normas e de diretivas comunitárias. "Cada país terá o seu sistema e protocolo, mas tem de haver um registo comum para a informação recolhida e também a definição de objetivos a atingir", pormenorizou ao DN a presidente do IPST. Por agora, o uso de plasma convalescente "ainda é só um ensaio clínico, mas é uma mensagem de esperança para a população, porque tem dado bons resultados", salienta.

Segundo explica, a colheita para este plasma convalescente é muito específica, pois "só poderá ser feita a partir de um período de 28 dias após o doente ter registado dois testes negativos" e terá de obedecer a critérios rigorosos de seleção de doentes dadores, tendo estes de dar o seu consentimento para participar neste procedimento.

Solução começou por ser experimentada na China

Portugal está em cima do acontecimento e a preparar-se, não sabe ao certo quando se poderá avançar com esta terapêutica, mas a presidente do IPST acredita que não levará muito e que vamos a tempo de "podermos dar o nosso contributo nesta luta contra a epidemia. O processo terá de passar obrigatoriamente por três fases. A primeira, é aquela em que estamos, a elaborar protocolos e procedimentos, a segunda é a fase de articulação com a DGS e com o INSA e de definição de critérios para seleção de doentes, depois a terceira é já o envolvimento dos hospitais, pois queremos que sejam parceiros".

A solução que agora avança em Portugal e que começou por ser testada na China, logo nas primeiras semanas do auge da doença, já constava do plano de contingência do IPST para o covid-19. "Quando fizemos o nosso plano de contingência já propúnhamos este tipo de intervenção, porque já houve outras experiências realizadas com outras doenças, nomeadamente com o ébola", referiu Maria Antónia Escoval.

Na verdade, o uso de plasma começou em situações de epidemia viral e há mais de cem anos, precisamente no tratamento da gripe espanhola, que matou mais de um milhão da população mundial. Agora, volta a ser usado. Nesta semana, a Food Drug Administration (FDA), a agência norte-americana para o medicamento, autorizou a utilização de plasma convalescente, com carácter experimental, em alguns doentes e em situações de emergência. De imediato, unidades como o The New YorK Blood Center aceitaram começar a testá-lo. O seu diretor, Bruce Sachais, argumentou que "o objetivo é começar a aplicar o mais rapidamente possível esta técnica para ajudar os hospitais a tratar mais doentes". O estado de Nova Iorque é o mais afetado pelo covid-19.

Reservas de sangue baixaram 52% nas últimas semanas

Quer como terapêutica quer como suporte de convalescença, o sangue acaba por ser sempre um elemento importante. Neste momento, uma das situações já detetadas é que muitos doentes de covid-19 acabam por necessitar de transfusões devido a anemias. A questão, e o IPST lançou na semana passada um alerta amarelo para a sociedade portuguesa, é que devido à epidemia houve uma quebra muito significativa em relação às reservas do sangue: 52%, nas últimas semanas. "Agora estão mais equilibradas, porque tivemos uma diminuição significativa nas colheitas, mas, simultaneamente, os hospitais também tiveram uma redução nos consumos, o que nos tem permitido manter as reservas, até este momento, numa situação confortável", explica Maria Antónia Escoval. Acrescentando: "Mas é sempre uma situação imprevisível."

As colheitas de sangue dependem maioritariamente de "ações móveis, que podem reunir 30, 100 ou 150 dadores, mas com as medidas de isolamento social as pessoas não saem de casa e o próprio IPST, por precaução e segurança dos doentes e dos profissionais, teve de reforçar os critérios para a seleção de dadores". Além de haver menos pessoas, o processo tornou-se mais moroso, pois "há mais passos a seguir, como a medição prévia da temperatura, a desinfeção das mãos, o facto de não se poder ter mais de dez pessoas no mesmo espaço, etc. Tudo isto faz que tenhamos menos dadores". Neste momento, o IPST está a privilegiar o agendamento prévio para a dádiva de sangue. "As pessoas telefonam para os centros de Lisboa, Porto e Coimbra ou para para os serviços de sangue de hospitais e agendam uma hora para a sua dádiva", o que já aconteceu é que alguns tiveram de ser rejeitados por terem estado em países com a doença ativa na comunidade.

"O nosso plano de contingência define medidas que visam a proteção dos dadores, dos profissionais, mas também a mitigação de potenciais riscos de transmissão através da transfusão", explica. Uma potencial transmissão que "é apenas teórica. Não há evidências de que há transmissão através da transfusão ou da transplantação, mas é um vírus novo e não o conhecendo temos de ter medidas de precaução. Uma das primeiras medidas foi mesmo a suspensão de dadores que tivessem estado em locais com transmissão comunitária ativa ou que tivessem tido contacto com um caso confirmado nos últimos 28 dias". Do ponto de vista da segurança, foram tomadas outras medidas, como o reforço da informação pós-dádiva. "As pessoas que derem sangue devem informar sempre os serviços se , depois, tiverem sintomas da doença ou se estiverem em contacto com um caso positivo, para se poder passar à retirada dos componentes que possam ter ido para instituições", porque há doentes que precisam sempre de sangue, como os hematológicos e oncológicos."

Ainda não há um fármaco que trate diretamente este novo coronavírus, identificado pela primeira vez na cidade de Wuhan, província de Hubei, China, no final de 2019, mas a comunidade cientifica não para. Tem havido uma mobilização global para a descoberta de um fármaco que o trate ou de uma vacina que o previna. Como diz a presidente do IPST, "estamos todos na luta contra esta epidemia e cada um a dar o seu contributo. A própria situação faz que estejamos todos mais juntos e com um objetivo comum e isso é muito importante".

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