Covid-19. Governo espanhol vive pesadelo com recorde de mortes e desemprego

Desde o atraso da resposta à pandemia que já fez mais de dez mil mortes aos testes defeituosos comprados a uma empresa chinesa que não tinha licença, tudo serve de argumento contra Pedro Sánchez e o seu governo de coligação com a Unidas Podemos.

Com um número recorde de mortos por coronavírus e dados de desemprego também nunca antes visto, Espanha enfrenta outro problema: a desunião política diante de um governo de coligação minoritário, que ainda nem sequer fez três meses, e que é criticado pela oposição e pelos governos regionais. Desde o atraso da resposta à pandemia à chegada de testes defeituosos da China, tudo serve de argumento contra o primeiro-ministro Pedro Sánchez.

Espanha registou esta quinta-feira um número recorde de vítimas mortais pelo coronavírus: 950 em apenas 24 horas, elevando o total de mortes desde o início da pandemia para as 10 003. Foi um aumento de 10% em relação a quarta-feira, o que não deixa de ser uma percentagem positiva, tal como o aumento de apenas 5% de infetados, para um total de 110 238, com 26 743 doentes curados.

O número diário de mortes foi o mais elevado registado até ao momento em qualquer país do mundo. O anterior recorde pertencia a Itália, com 919 casos em 24 horas - o balanço chegou a ser de 969, mas este incluía mortos que não tinham sido declarados no dia anterior.

À crise de saúde pública, com hospitais acima das capacidades, junta-se os dados da economia, que ainda não traduz a decisão do confinamento quase total decretado finalmente pelo governo no último fim de semana. Os dados apontam para um número recorde de mais 302 mil desempregados no mês de março, em especial na última quinzena, elevando para mais de 3,5 milhões o número dos que não têm emprego. Além disso, foram destruídos 834 mil empregos e a todos esses há ainda de somar os mais de 620 mil trabalhadores que foram alvo do lay-off temporário.

"Em alguns países, a pior pandemia em mais de um século pode ter posto de lado rivalidades políticas. Não é esse o caso em Espanha, uma das nações mais afetadas pela epidemia do coronavírus, com mais de cem mil casos confirmados e mais de nove mil mortes", escreveu o Financial Times. "O slogan oficial do governo é 'Este vírus, paramo-lo unidos'. Mas à medida de que o número de mortos aumenta e Madrid usa os poderes de emergência para emitir decretos económicos, a política de confrontação regressou com vingança", acrescenta o jornal.

Esta semana, o líder do Partido Popular, Pablo Casado, acusou o governo de mentir. Em causa terá estado uma conversa em que Sánchez pediu que não condicionasse o seu apoio ao prolongamento do estado de alarme (que aconteceu na semana passada) ao endurecimento de medidas, porque o governo não queria chegar a esse extremo. "Mas depois faz o contrário, logo ou me está a esconder informação ou não me disse a verdade", afirmou, referindo-se à decisão do governo de paralisar todas as atividades não essenciais em Espanha durante o fim de semana.

Na terça-feira, o governo espanhol pediu desculpas pelo "ritmo vertiginoso" com que tem que tomar decisões, comprometendo-se a "estreitar a coordenação" tanto com os partidos políticos, como com as Comunidades Autónomas.

Para a semana, o Congresso espanhol terá que dar novamente luz verde ao prolongamento do estado de alarme por mais 15 dias e, numa tentativa de baixar a tensão política, Sánchez tem previstos contactos telefónicos com os diferentes partidos, a começar pelo próprio Casado, que já esta quinta-feira disse que Sánchez está a ter uma resposta a esta crise que vai "da arrogância à incompetência".

Onze dias sem telefonar

"A situação política em Espanha é tensa há muito tempo, desde que Sánchez chegou ao poder com a moção de censura a Mariano Rajoy. Foi muito violento", disse ao DN o jornalista do El País, Carlos Cué, que segue a política espanhola. "Desde esse momento as relações complicaram-se muito entre PSOE e PP e a realidade tornou-se ainda mais complexa com um partido de extrema-direita que alterou todos os equilíbrios à direita. O PP, moderado historicamente, está agora mais radical porque está a competir com a extrema-direita", acrescentou.

No meio de toda essa tensão, apareceu o coronavírus. "A reação do governo de Espanha tem sido telefonar muito pouco ao PP. Há 11 dias que não lhes telefona, o que é muito, porque em 11 dias mudou tudo. Estamos a ter um conselho de ministros extraordinário praticamente a cada dois dias que toma medidas cada vez mais extremas, desde proibir os despedimentos, paralisar a produção, dar um salário mínimo aos mais vulneáveis... decisões que envolvem muito dinheiro", referiu Cué.

Isso levou o PP a aumentar as críticas a Sánchez, já a pensar no que virá depois da crise. "Os partidos estão a pensar no dia depois. Nos círculos de poder, há quem acredite que o governo vai sair muito prejudicado, como qualquer governo que enfrente uma situação com dez mil mortos", explicou o jornalista do El País. "A oposição está a tomar posições, pensando que isto pode acabar numa crise política com eleições antecipadas. É evidente que a oposição, segundo o governo de forma desleal, está a colocar-se nesse cenário", afirmou, lembrando contudo que noutros países como Itália, França ou Reino Unido os governos também têm sido alvo de críticas por parte da oposição.

Do atraso na resposta aos testes chineses

A oposição critica Sánchez por não ter reagido mais cedo à epidemia, ignorando os avisos da Organização Mundial de Saúde de que era preciso os países começarem a preparar-se para o que aí vinha. Quando finalmente correu a comprar o material sanitário necessária, fossem testes ao covid-19, fossem máscaras, o governo espanhol virou-se para a China e o primeiro carregamento de testes rápidos que recebeu revelou-se sem qualidade, tendo sido comprada a uma empresa que não tinha licença.

"Temos um país praticamente federal, mas sem estruturas federais. Esta crise mostrou que faltam estruturas federais, estruturas de coordenação entre todos", disse Cué, falando na descoordenação dos primeiros dias após a declaração do estado de alarme, quando o governo espanhol centralizou, por exemplo, as compras de material que durante anos foram feitas pelas Comunidades Autónomas. "O ministério de Saúde estava vazio. Curiosamente o Podemos não quis o ministério da Saúde, rejeitou a oferta que Sánchez lhe fez durante a formação da coligação, porque não tinha competências, não tinha valor político. Dois meses depois, tornou-se no mais importante de todos", lembrou o jornalista.

O governo espanhol foi resistindo a pedir um confinamento mais acentuado, apesar da pressão nesse sentido tanto da Comunidade de Madrid como da Catalunha -- as duas regiões do país mais afetadas pela pandemia. Tanto a presidente da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, do Partido Popular, como o presidente da Generalitat, o independentista Quim Torra, não têm poupado críticas a Sánchez.

"O epicentro da crise é a Comunidade de Madrid, governada pelo PP, sendo um centro histórico para fazer oposição ao governo. Sempre que a esquerda chega ao poder, o PP refugia-se na Comunidade de Madrid e faz sempre oposição desde aí", referiu Cué.

Tanto Ayuso como Torra deram positivo para o covid-19 e estão em isolamento, não deixando de atacar o líder socialista por não ter dado resposta à crise, mesmo tendo assumido algumas das competências regionais ao decretar o estado de alarme, a 14 de março. Ainda antes de Espanha decidir fechar as escolas, já a capital tinha dado esse passo.

Sánchez é criticado também por não aprender com o exemplo de Itália, pondo em prática o estado de alarme só 24 horas depois de o anunciar, permitindo que grande parte da população procurasse "fugir", dispersando-se pelo território e levando o vírus para outras regiões onde este ainda não estava presente.

Os primeiros ataques ao governo vieram logo por ter autorizado as marchas do Dia da Mulher (8 de março), mesmo depois de o Centro Europeu para a Prevenção e o Controlo das Doenças desaconselhar esse tipo de eventos e apoiar o distanciamento social. Na primeira fila da marcha em Madrid, que terá reunido 120 mil pessoas, estavam várias ministras e outras personalidades que, semanas depois, testaram positivo para o coronavírus.

A extrema-direita do Vox critica o governo socialista não apenas por ter demorado a aplicar as medidas, mas também pela violação da quarentena de Pablo Iglesias, líder da Unidas Podemos e um dos vice-primeiros-ministros. A sua companheira e mãe dos seus filhos, a também ministra da Igualdade Irene Montero, foi uma das que deu positivo para o covid-19. Iglesias, que devia ficar de quarentena em casa, quebrou-a para participar na reunião extraordinária do Conselho de Ministros em que foi aprovado o estado de alarme. E dias depois voltou a sair para dar uma conferência de imprensa. O próprio Sánchez tem a mulher (outras das que participou na marcha do Dia da Mulher), a mãe e o sogro infetados.

Governo minoritário

Sánchez está à frente de um governo minoritário de coligação com a Unidas Podemos que só dentro de duas semanas cumpre os seus primeiros cem dias. Mas qualquer plano que pudesse ter, depois de ter negociado apoios suficientes no Congresso para ser investido a 7 de janeiro (incluindo com os independentistas), caíram por terra com a chegada do coronavírus ao país.

O escritor Daniel Gascón escreveu no El Periódico de Aragón: "Seria difícil para um bom líder. Imagina para Sánchez", acrescentando que o primeiro-ministro espanhol é "um líder muito pequeno frente a um problema gigantesco". E, como outros, critica o facto de as perguntas nas conferências de imprensa a Sánchez serem filtradas primeiro, não havendo verdadeira interpelação ao governo neste momento de crise.

A imprensa mais crítica denuncia como Iglesias tem vindo a ganhar destaque dentro do Conselho de Ministros: foi ele que apresentou as últimas propostas do governo em matéria social, a sua pasta de governo. Mas até a imprensa tradicionalmente de esquerda, como o El País, chama a atenção para a situação: "Até ao momento, a sensação dentro da formação é que as teses da Unidas Podemos se estão a impor frente ao selo ortodoxo que defendem alguns membros do governo do PSOE liderados pela vice-primeira-ministra para a área económica, Nadia Calviño, na hora de abrir a torneira do dinheiro público para as ajudas sociais que travem a crise económica derivada da pandemia."

Cué não é tão radical na sua posição: "Há uma batalha entre Podemos e Calviño, mas também há uma batalha dentro do PSOE, porque também há diferentes posições. Seria impensável que o Podemos, que é o sócio minoritário desta coligação, ganhasse algumas batalhas, porque não está a ganhar todas, sem o apoio de Sánchez."

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