BCE corta a fundo previsões, Lagarde mais pessimista do que FMI

Uma vaga enorme de liquidez pandémica vem agora juntar-se ao pacote de compra de dívida do BCE avaliado em 750 mil milhões de euros. A economia da zona euro pode contrair até 12% neste ano.

Christine Lagarde, a presidente do Banco Central Europeu (BCE), está mais pessimista que o Fundo Monetário Internacional (FMI) quanto ao andamento da economia da zona euro, este ano.

De acordo com os números revelados na quinta-feira pela chefe do BCE, a recessão média prevista para 2020 rondará os 8,5% (intervalo de 5% a 12%). Há duas semanas, o FMI avançou com uma projeção de quebra económica no euro na ordem de 7,5% este ano.

A situação está má e o BCE anunciou ontem também mais uma torrente de dinheiro barato (liquidez) para os bancos da zona euro a taxas de juro negativas (cerca de -1%) durante um ano, de junho de 2020 a junho de 2021.

Mas voltemos à doença antes de falar da suposta cura ou terapia através de dinheiro a rodos e a custo zero ou abaixo de zero.

Em março, já com a pandemia a pairar sobre as previsões económicas, o BCE reduziu ligeiramente a projeção de 2020, para 0,8%. Agora, Christine Lagarde, a presidente da instituição, vai muito mais abaixo.

Na teleconferência de imprensa que decorreu esta quinta-feira depois da reunião de política monetária, a chefe do BCE disse que a sua equipa de economistas "está a projetar uma contração do produto interno bruto (PIB) da zona euro entre 5% e 12% em 2020".

E "a queda da atividade em abril sugere que o impacto deve ser mais severo no segundo trimestre", avisou Lagarde.

A ex-chefe do FMI evidenciou um forte pessimismo quanto ao futuro próximo, dizendo que a economia deve piorar e afundar ainda mais neste segundo trimestre, podendo a queda chegar a 15%.

E depois confessou não saber bem o que aí vem porque "a incerteza é muito elevada".

Recorde-se que estas contas do staff do BCE já devem incorporar a informação muito negativa divulgada nesta manhã de quinta-feira pelo Eurostat.

O gabinete oficial das estatísticas europeias revelou que a zona euro terá registado, neste primeiro trimestre de 2020, a maior contração económica trimestral (em cadeia, face ao último trimestre de 2019) de que há registo (as séries remontam a 1995). O colapso no PIB chegou aos 3,8%.

Em termos homólogos (comparando com o primeiro trimestre de 2019), a descida foi de 3,3%, o pior registo desde 2009.

Em junho, o BCE avançará com o painel completo das projeções macroeconómicas atualizadas, incluindo valores para a recessão, inflação e taxa de desemprego, entre outros indicadores.

A terapia do costume: mais dinheiro e mais barato

O BCE também decidiu avançar com injeções de liquidez a taxas de juro que podem ir até -1% durante o período de um ano.

Disse que vai injetar no sistema bancário da zona euro o dinheiro (liquidez) necessário através de uma série de operações de refinanciamento de longo prazo no âmbito da emergência pandémica.

E, não menos importante, o BCE anunciou também que vai baixar substancialmente as taxas de juro de linhas de crédito que já existem para financiar os bancos no longo prazo.

Vai reduzir temporariamente as taxas entre junho deste ano e junho de 2021, cobrando uma taxa negativa que pode chegar a -1% nas chamadas operações de refinanciamento direcionadas de longo prazo, as TLTRO (linhas de crédito aos bancos que já existem e que agora ficam ainda mais baratas).

Ou seja, o BCE decidiu reduzir a taxa de juro em 50 pontos base face à taxa média de refinanciamento do Eurossistema e, em alguns casos de bancos elegíveis para tal, cortar 50 pontos base face à taxa de depósito, o que na prática significa emprestar dinheiro aos bancos durante um ano (até junho de 2021) a uma taxa de juro de -1%, como referido.

Podemos estar a falar de um pacote de dinheiro mais do que barato (o BCE paga para emprestar) na ordem de 1 bilião de euros ou mais, todo ele para a banca da zona euro.

A redução das taxas de juro em causa pode dar um mega bónus, um enorme desconto aos bancos, que rondará 3 mil milhões de euros no seu serviço de dívida.

Além disso, o BCE garantiu que o quantitative easing (QE) pandémico, o pacote de compra de dívida pública e outra aos bancos, no valor de 750 mil milhões de euros, continuará "até que esta fase do coronavírus termine e, em todo o caso, até ao final deste ano". Ou seja, se a pandemia continuar no inverno este pacote pode vir a ser estendido no tempo, 2021 a dentro.

Vários analistas internacionais estão à espera que o BCE expanda este programa de compra de dívida, mas isso deverá acontecer mais tarde, talvez em junho ou julho, quando os governos da zona euro já tiverem corrigido os seus orçamentos e já houver uma noção mais rigorosa da quantidade de obrigações do tesouro disponível no mercado, a tal dívida que o BCE irá comprar aos bancos comerciais da zona euro de modo a concretizar este programa reforçado de QE, que corre em cima de dois outros que já existem: o "envelope temporário de aquisições líquidas de ativos suplementares, no montante de 120 mil milhões de euros" que vai até ao final deste ano, vocacionado para compra de ativos do setor privado; e o programa de compra de ativos (asset purchase programme - APP), que corre a um ritmo de 20 mil milhões de euros em compras mensais de dívida e outros ativos.

"Estas aquisições apoiarão as condições de financiamento favoráveis para a economia real em tempos de incerteza acrescida", espera Frankfurt.

BCE cria nova sigla: PELTRO

"Será conduzida uma nova série de operações de refinanciamento de emergência pandémica de longo prazo não direcionadas (PELTRO, na sigla em inglês), com vista a apoiar as condições de liquidez no sistema financeiro da zona euro e contribuir para preservar o bom funcionamento dos mercados monetários, fornecendo um fundo de liquidez eficaz", refere a autoridade presidida por Christine Lagarde.

Estas PELTRO "consistem em sete operações adicionais de refinanciamento, com início em maio de 2020 e vencimento de acordo com uma sequência escalonada entre julho e setembro de 2021, tendo em conta a duração das medidas de alívio de garantias".

Estas novas injeções de dinheiro ultra barato para os bancos terem em caixa "serão executadas através de leilão de taxa fixa com colocação total, com uma taxa de juro 25 pontos base abaixo da taxa média nas principais operações de refinanciamento que prevalecem ao longo da vida de cada PELTRO", refere o BCE.

Quanto às taxas de juro de referência ficam na mesma, em mínimos históricos. A taxa aplicável às operações principais de refinanciamento, as taxas de juro aplicáveis à facilidade permanente de cedência de liquidez e taxa de depósito permanecerão inalteradas em 0%, 0,25% e -0,5%, respetivamente.

O BCE espera que estas taxas de juro diretoras se mantenham nos níveis atuais ou inferiores até que as perspetivas de inflação comecem a "convergir de forma robusta" para valores próximos, mas abaixo de 2%.

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