Os consumidores residentes em Portugal estavam a gastar cada vez mais dinheiro em compras online de "baixo valor" ou "minimis" procedentes de enormes lojas virtuais estabelecidas na China (Ali Express, Shein, Temu, por exemplo), mas a tarifa fixa de três euros por cada artigo de valor inferior a 150 euros, que entrou em vigor na União Europeia (UE) a 1 de julho passado, deve quebrar o crescimento explosivo nesses gastos, como aconteceu nos Estados Unidos, que introduziram uma tarifa deste tipo em maio do ano passado (2025).De acordo com um novo estudo do Banco Central Europeu (BCE), os produtos mais procurados são roupa, equipamentos eletrónicos e artigos para o lar.Portugal e Grécia lideram no interesse porque têm mais famílias de "rendimentos baixos e médios", portanto, mais sensíveis aos preços muito reduzidos desses artigos made in China.Outro estudo recente, desta feita do Banco de Portugal (BdP), permite estimar que os consumidores residentes no país terão gasto, em compras na internet, quase mil milhões de euros em produtos de baixo valor de 2020 (primeiro ano da pandemia e dos confinamentos em casa) até final do ano passado. O valor foi faturado por algumas das maiores plataformas online chinesas e mundiais que operam neste ramo do retalho.Em 2025, a fatura terá tocado quase 300 milhões de euros, um máximo histórico, fazendo de Portugal o 10º melhor cliente de minimis chineses num grupo de 31 países desenvolvidos, dedicando 5% do valor total em importações da China a encomendas de baixo valor, mostra o banco central.Ainda segundo o BdP, "o valor das importações de encomendas de baixo valor oriundas da China para a UE e para Portugal cresceu de forma muito acentuada após a crise pandémica". "Entre 2022 e 2025, os crescimentos acumulados na UE e em Portugal foram de 188% e 227%, respetivamente". Quase triplicaram, portanto.Já nos EUA, o crescimento foi de 48% nesse período, registando-se depois uma quebra de 33% entre 2024 e 2025. Razão: "no início de maio de 2025, as encomendas entradas nos EUA oriundas da China e de Hong Kong deixaram de estar abrangidas pelo regime de minimis, passando a pagar tarifas e a estar sujeitas a maior controlo alfandegário", explica o banco central português num estudo recente sobre o tema.De acordo com cálculos do Dn/Dinheiro Vivo a partir de dados usados pelo BdP, BCE e Comissão Europeia (CE), desde o início da pandemia covid-19, em 2020, até ao final de 2025, os compradores radicados em Portugal gastaram, como referido, quase mil milhões de euros nesse tipo de compras.Isenção de tarifas tornava artigos baratos ainda mais baratosAté ao final de junho passado e durante todos estes anos, os minimis estiveram isentos de tarifas ou impostos alfandegários, o que terá sido decisivo para manter os preços dessas mercadorias extremamente baixos e apelativos.O Banco de Portugal também confirma que estas compras aumentaram de "forma muito acentuada", quando antes da pandemia "eram residuais".Como se sabe, os confinamentos decretados logo a partir de março de 2020 e o teletrabalho vieram propulsionar o tempo despendido na internet e, com ele, a possibilidade de procurar e comprar este tipo de bens de consumo.Em 2018, o valor em pequenas compras feitas por portugueses nesses sites chineses não ia além dos 0,2% do total as importações de bens, o equivalente a quatro milhões de euros, segundo contas do DV tomando como base os dados do Banco de Portugal e do Instituto Nacional de Estatística (para as importações anuais).Em 2019, regista-se o primeiro grande salto e nos anos seguintes até 2023 foi quase sempre a duplicar ano após ano.O peso de 0,2% das compras de baixo valor à China disparou para os atuais 5%, que correspondem aos referidos cerca de mil milhões de euros, valor que não inclui encomendas com origem em Hong Kong, território chinês que também é relevante em termos estatísticos, para as importações portuguesas.Segundo a Comissão Europeia, "mais de 90% das encomendas de baixo valor [menos de 150 euros cada] que entram na UE provêm da China", sendo "Temu, Shein e Ali Express" os principais beneficiários do regime de minimis agora abolido.Sensíveis ao preço: mais pobres são mais atraídos por artigos baratosSegundo o BCE, que fez um extenso inquérito este ano aos consumidores da Zona Euro, estes "recorrem mais frequentemente às plataformas chinesas de comércio eletrónico para comprar vestuário, artigos para o lar e produtos eletrónicos — categorias em que os compradores tendem a ser particularmente sensíveis ao preço". E conclui: "quase dois terços das encomendas não ultrapassam os 25 euros e 90% têm um valor até 50 euros".O BCE repara que "a popularidade das plataformas chinesas é mais elevada na Grécia, em Portugal e em Espanha, onde mais de 70% dos consumidores assumiram fazer compras através destas plataformas". Em contrapartida, "a sua utilização é mais reduzida na Alemanha e em França, onde são usadas por menos de 50% dos consumidores".Razão? Segundo o mesmo estudo da autoridade sediada em Frankfurt, "a penetração particularmente elevada destes operadores no sul da Europa evidencia diferenças significativas entre países ao nível dos hábitos de consumo, do conhecimento das plataformas, das infraestruturas de entrega, da confiança dos consumidores e das alternativas disponíveis no comércio local"."De facto, o inquérito mostra que a utilização destas plataformas é mais frequente entre famílias de rendimentos baixos e médios". É o peso do chamado "fator preço". "Os consumidores sujeitos a maiores restrições orçamentais tendem a ser especialmente sensíveis a ofertas de baixo custo", observa o BCE..China contra-ataca: novas restrições sobre a exportação de terras raras.“Taxa de UE de três euros sobre produtos chineses é atirar areia para os olhos".UE acaba com isenção aduaneira nas encomendas até 150 euros e cria taxa de três euros