Quem assistiu esta terça-feira ao primeiro dia do julgamento do processo principal relativo à queda do Banco Espírito Santo (BES) terá observado o empenho do Ministério Público (MP) em garantir que os bens arrestados fiquem com o Estado, por um lado, e, por outro, um tribunal empenhado em condenar os 18 arguidos, para haver uma “projeção social favorável à justiça portuguesa”, segundo o relato ao DN de fonte ligada à defesa dos lesados do BES presente na sala de audiências, que defende a necessidade de reparação para haver “equilíbrio” no desfecho do processo..Os lesados do BES defendem que a justiça não ocorre só com a punição dos arguidos, devendo haver uma compensação patrimonial a favor das vítimas..Demonstrando persistência na procura de uma indemnização, os lesados do BES chegaram à primeira sessão do julgamento com o estatuto de vítima.E ao que o DN apurou, devido a esse estatuto, a defesa da maioria dos lesados requereu, na véspera do primeiro dia de julgamento, uma avaliação psicológica a todos aqueles ex-clientes do BES com estatuto de vítima, para quantificar e valorar os danos morais sofridos nos dez anos subsequentes ao colapso do banco..Caberá à juíza Helena Susano, que preside a um dos maiores julgamentos da história da justiça nacional, decidir. Mas não há um prazo legal para dar resposta..À porta do tribunal, no Campus de Justiça, em Lisboa, o advogado Nuno Silva Vieira, que representa mais de dois mil lesados do BES, afirmou aos jornalistas que “a justiça portuguesa tem que inovar e tem que fazer como os outros ordenamentos jurídicos”, concretamente, “atribuir a cada um aquilo que é seu”..Quanto deve receber cada vítima? “A média das duas mil [vítimas] ronda os 200 mil euros, valores que foram depositados no BES e que foram perdidos”, adiantou o mesmo advogado que, na sua primeira intervenção na sala de audiências disse representar “os simples mortais” e defendeu a avaliação da “dor e o sofrimento de perder dinheiro e bens”..Também o advogado Ricardo Sá Fernandes, que representa o empresário Carlos Malveiro, que perdeu 21 milhões de euros com o colapso do BES, defendeu, à porta do tribunal, que “Ricardo Salgado tem de responder patrimonialmente por aquilo que fez”, admitindo que, do ponto de vista criminal, a responsabilidade do antigo banqueiro “tem de ser avaliada em função da situação em que está [aludindo ao estado de demência do principal arguido]”..Durante a audiência, o advogado de vários assistentes do caso, Varela de Matos, disse esperar que o “megaprocesso não corresponda a uma mega absolvição”..Cerca de 2015 lesados do BES têm o estatuto de vítima neste processo, o que reforça a sua legitimidade para conseguir indemnizações. Em meados de agosto, a Associação de Defesa dos Clientes Bancários (ABESD) lamentava que, até àquele momento, nenhuma medida concreta de proteção às vítimas tenha sido tomada e considerava que isso reforçava a sensação de que o sistema judicial “falha em oferecer justiça material”.