O Tribunal Federal de Oakland, na Califórnia, é hoje o centro de gravidade do mundo tecnológico. O confronto judicial entre Elon Musk e a OpenAI — a empresa que o multimilionário ajudou a fundar e que agora acusa de “traição” — está prestes a entrar numa fase crítica. Após três dias de sessões intensas que colocaram o homem mais rico do mundo no banco das testemunhas, a agenda para esta semana promete ser o verdadeiro ponto de rutura de um processo que poderá forçar a reestruturação de toda a indústria da Inteligência Artificial (IA).Na passada sexta‑feira, Musk encerrou o seu primeiro ciclo de depoimentos com uma nota sombria, típica da sua retórica existencialista: “A IA pode matar‑nos a todos”. Para o multimilionário, o desvio da OpenAI de uma organização sem fins lucrativos para uma entidade comercial avaliada em mais de 800 mil milhões de dólares não é apenas uma quebra de contrato, mas um perigo para a civilização. Musk argumenta que as suas doações iniciais à organização — entre 38 e 40 milhões de dólares — foram feitas sob a garantia de que a tecnologia seria “aberta” e não propriedade exclusiva de gigantes como a Microsoft.No entanto, a defesa da OpenAI, a criadora do ChatGPT liderada por Sam Altman, conseguiu desferir golpes importantes. Musk foi obrigado a admitir, sob juramento, que o seu próprio modelo de IA, o Grok (da xAI), utilizou dados do ChatGPT para o seu treino — uma revelação que mina a posição do dono da Tesla e da SpaceX de “guardião ético”. A estratégia da OpenAI é clara: pintar Musk como um fundador ressabiado que tentou assumir o controlo total da empresa em 2018 e, ao falhar, decidiu destruí‑la judicialmente.O que aí vemA partir desta segunda‑feira, o foco muda. Se a semana passada foi o “espetáculo de Musk”, os próximos dias serão sobre a mecânica interna da OpenAI. Espera‑se que Greg Brockman, cofundador e presidente da OpenAI, preste depoimento para explicar como a transição para o modelo de “lucro limitado” foi a única forma de garantir o financiamento necessário para os chips da Nvidia, essenciais para o desenvolvimento do GPT‑4.Outro momento aguardado para este início de semana é a audição de peritos em segurança de IA, como Stuart Russell. O seu testemunho será vital para determinar se a OpenAI está a ocultar avanços que se aproximam da Inteligência Artificial Geral (AGI, na sigla inglesa) — o ponto em que a máquina supera o humano em todas as tarefas — apenas para evitar que esses avanços se tornem domínio público, conforme os estatutos originais da fundação previam.O que está em causa não são apenas os 150 mil milhões de dólares exigidos por Musk. Se a juíza Yvonne Gonzalez Rogers decidir que a OpenAI violou a sua “missão de caridade”, a empresa poderá ser forçada a abrir o código‑fonte dos seus modelos mais avançados.Com isso, a propriedade intelectual que sustenta o ChatGPT poderia tornar‑se pública. O contrato multibilionário com a Microsoft poderia mesmo ser juridicamente contestado, caso o tribunal considere que a tecnologia licenciada já constitui AGI — uma possibilidade que, embora não implique automaticamente a sua anulação, abriria uma frente de litígio sem precedentes. Seria também o fim da era em que empresas se apresentam inicialmente como “sem fins lucrativos” para atrair talento e benefícios fiscais, convertendo‑se depois em gigantes comerciais mal atingem o sucesso.O que se decidir em Oakland não ficará apenas nos registos do tribunal — ficará gravado no código que ditará o futuro imediato da nossa espécie e na relação com aquela nova entidade que estamos a fazer surgir nos circuitos eletrónicos digitais.