Pedro Costa Ferreira, presidente da APAVT
Pedro Costa Ferreira, presidente da APAVTGerardo Santos

“É desagradável dizer que o ataque ao Irão traz oportunidades para o turismo em Portugal. Uma guerra nunca beneficia nenhum destino”

O presidente da Associação Portuguesa das Agências de Viagens rejeita que o setor possa ser favorecido com o desvio de fluxos turísticos para o país. Um eventual aumento dos preços das viagens, por via da escalada dos custos da energia, não deverá inibir consumo.
Publicado a

Num cenário onde se somam as incertezas e se temem efeitos severos para a economia mundial, há uma narrativa a ganhar força e que posiciona Portugal como um dos beneficiados do conflito no Irão por via do desvio dos fluxos turísticos na região do Médio Oriente.

A premissa, defendida por um variado leque de especialistas nos últimos dias, é rejeitada pelo presidente da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT). “É desagradável dizer que o ataque ao Irão traz oportunidades para o turismo em Portugal. Uma guerra nunca beneficia nenhum destino”, diz ao DN.

Os impactos reais do ataque militar dos Estados Unidos e de Israel ao regime iraniano na economia mundial permanecem incertos e a dimensão das suas consequências dependerá da escalada do conflito. Para já, há um efeito imediato visível: o aumento dos preços da energia, que está a alimentar receios de novas pressões inflacionistas e de perturbações na atividade económica global.

Apesar das nuvens no horizonte, vários economistas e analistas têm apontado o turismo como uma janela de oportunidade para o país. A distância da zona de tensão e a perceção de segurança -  Portugal é o 15º país mais seguro do mundo para viajar este ano, de acordo com o HelloSafe Safety Index - são os dois pesos que, defendem, poderão impactar a balança a favor de Portugal, principalmente numa altura em que os turistas começam a planear as férias de verão.

“Não concordo com esta leitura. Vir para um país porque há uma guerra numa geografia nunca pode ser de saudar e nem apresenta condições de manutenção a longo prazo. Portugal deve atrair as pessoas pelo que é e não pelas dificuldades que os outros estão a viver. É sempre desagradável para todos quando alguém não pode viajar por um destino por razões que não têm a ver com as condições turísticas. Prefiro que Portugal compita em igualdade de circunstâncias com os outros destinos e que continue a demonstrar que é, como se sabe, muito mais competitivo do que a economia portuguesa em geral”, aponta. 

Pedro Costa Ferreira refuta qualquer associação positiva à crise no Médio Oriente e atesta que a prioridade é assegurar que os turistas portugueses que estão retidos nos países afetados possam regressar em segurança.

“Temos centenas de passageiros presos. Não há, neste momento, no longo curso, lugares de avião de nenhuma parte do mundo a partir destes hubs. Não é todos os dias que se é apanhado numa zona de guerra e as agências de viagens estão focadas nas condições de segurança e de vida dos clientes e, com diálogo e serenidade, estamos a dar todo o acompanhamento possível”, afiança.

"A paz e a própria vida das pessoas são, neste momento mais importantes, do que falar no desenvolvimento económico do setor", remata.

"O mercado reage com muito vigor aos acontecimentos, mas tem memória curta"

Apesar de faltar um mês para a Páscoa, e de o verão estar à espreita, com muitos portugueses já a comprar antecipadamente os pacotes de férias, é prematuro traçar um quadro sobre os impactos que a atual situação geopolítica poderá ter nas reservas. 

Para já, os indicadores são positivos com a  procura de viagens dos portugueses neste início de 2026 a atingir níveis superiores aos do ano passado e não há nenhum sinal que aponte para uma retração.

O presidente da APAVT explica que é necessário gerir com tranquilidade a evolução do conflito. As agências estão a aconselhar os clientes com deslocações marcadas para abril ou maio a aguardar antes de precipitar decisões.

“As viagens previstas para esta semana estão, obviamente, a ser canceladas ou substituídas rapidamente. Já no caso das mais longínquas, é preciso esperar para perceber se as condições adversas se irão manter ou se a situação poderá normalizar em breve. Apesar de algumas infraestruturas danificadas, as condições no Médio Oriente não estão afetadas de forma generalizada e, se o conflito terminasse e as ligações aéreas fossem repostas, as viagens retomariam rapidamente”, afirma.

Para o representante das agências de viagens do país, o efeito mediático da guerra não será inibidor da procura. “Aprendemos, ao longo dos anos, nos vários eventos de bombas, desordens sociais e problemas climáticos, que o mercado reage com muito vigor aos acontecimentos, mas tem memória curta. Depois de repostas às condições, o que temos verificado, desde o ataque do Charlie Hebdo em Paris, às bombas em Londres, é que o mercado reage de uma forma brutal durante um curto espaço de tempo. Quando a vida das pessoas volta ao normal, também o mercado volta aos seus números habituais”, justifica.

Aumento dos preços das viagens não deverá inibir consumo

O aumento dos preços da energia e dos combustíveis poderá vir a encarecer as viagens, fazendo com que os pacotes de férias pesem mais no bolso dos consumidores. Este é um dos efeitos adversos expectáveis caso os constrangimentos no Irão se prolonguem, mas para o presidente da APAVT é ainda precoce traçar projeções.

“Em momentos de aumento de preços e de inflação, naturalmente que o valor das viagens tende a subir. Ainda assim, é preciso esperar para perceber se a subida de preços, a incerteza e a inflação vão galopar ou não. Um contexto inflacionista afeta as taxas de juro e um aumento generalizado dos preços não fomenta o consumo. Precisamos de perceber se a macroeconomia se irá alterar de forma significativa, prejudicando o consumo, mas esses são capítulos do livro que ainda não estão escritos”, analisa.

Apesar dos riscos, o agravamento da fatura a pagar para viajar não representa, para já, uma dor de cabeça para o setor. Desde o pós-pandemia que os preços dispararam, mas a procura atingiu níveis históricos com o apetite dos mercado interno a ganhar fôlego. Recorde-se que, no ano passado, a compra de viagens de portugueses para o estrangeiro deu saltos históricos, tanto no período de verão como de fim de ano.

 “A elasticidade da procura face ao preço das viagens tem sido muito reduzida, quase nula. À medida que os preços aumentam, o número de viagens também tem crescido. Os números recorde do turismo em Portugal confirmam-no”, adianta.

Pedro Costa Ferreira, presidente da APAVT
Guerra com o Irão. Menos poder de compra com inflação, juros podem subir, aviões e turismo mais caros
Pedro Costa Ferreira, presidente da APAVT
Irão: “Não se esperam cortes de abastecimento de energia, mas Portugal vai apanhar por tabela com o aumento dos preços”
Diário de Notícias
www.dn.pt