A economia portuguesa está a tentar reerguer-se da devastação causada pelas tempestades violentas que começaram no final de janeiro e duraram semanas e agora uma nova guerra eclodiu no Médio Oriente, provocando rupturas severas nos fluxos de petróleo e de gás natural (dos quais Portugal dependente totalmente), a que acrescem fortes perturbações no transporte aéreo que suporta o maná do turismo.O ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, lembrou esta segunda-feira, é um facto, que "o aumento do preço do petróleo não é uma boa notícia", que o país "resiste hoje muito melhor ao aumento do que no passado" porque "70% da eletricidade consumida em Portugal tem origem em fontes renováveis e, portanto, somos menos dependentes do petróleo, o que é uma vantagem competitiva", referiu o governante numa conferência em Faro, citado pela Lusa.É menos dependente, mas no ano passado ainda importou combustíveis minerais no valor de quase dez mil milhões de euros. Se o custo do petróleo e do gás continuam a subir (o gás natural disparou 50%, só para se ter uma ideia), a fatura energética fóssil dos portugueses derrapará facilmente.O aumento destes custos – esta segunda-feira, o barril de Brent chegou a ultrapassar os 80 dólares, mais dez do que na média da semana passada – tem implicações para famílias e empresas porque agrava os custos de transporte e de uma panóplia de bens intermédios usados na produção, podendo assim, indiretamente, implicar perdas pesadas no poder de compra das famílias e na competitividade das empresas exportadoras.E também no investimento empresarial e público, que em Portugal é amplamente financiado por dívida e, ato contínuo, dependente do curso das taxas de juro, que agora podem aumentar para o BCE tentar travar a inflação.Segundo vários analistas, a outra fonte de risco para países como Portugal e outros na Europa é via turismo.Este sector é hoje um potente motor da atividade económica portuguesa, responsável por dezenas de milhares de empregos. O governo estima que o turismo tenha gerado quase 40 mil milhões de euros para a economia nacional. No entanto, esta nova guerra com o Irão causou já fortes disrupções no tráfego aéreo internacional, tendo o aeroporto do Dubai, um dos maiores do mundo, sido alvo dos ataques do regime de Teerão.A grande dúvida é durante quanto tempo esta situação pode durar. Ontem, segunda-feira, o Presidente dos EUA, Donald Trump, disse que a hostilidade contra o Irão pode durar "quatro ou cinco semanas, mas temos capacidade para prolongar a operação por muito mais tempo do que isso".Puzzle no turismo globalPortugal tem alguma flexibilidade no sector do turismo, pode reorganizar os mercados da procura, mas o custo em viajar acompanhará sempre a tendência dos preços dos combustíveis, podendo tornar o turismo mais caro. Não só para Portugal, claro. Na Europa, são muitos os países que dele dependem. O poder de compra das famílias (consumo privado) e os custos das empresas (que se refletem na capacidade de exportação e de investimento) são os dois maiores e imediatos riscos para a atividade.Puzzle nas taxas de juroDo lado das famílias, além da corrosão que a inflação pode provocar (hoje está em 2,1%), há a vulnerabilidade do endividamento. Se a inflação europeia disparar, o Banco Central Europeu (BCE) irá, quase de certeza, subir taxas de juro. Recorde-se que, em meados de 2022, tinha começado a guerra da Rússia contra a Ucrânia, a inflação nacional, que em outubro de 2021 (antes dessa guerra) estava abaixo de 2%, galgou até mais de 10% em apenas um ano (outubro de 2022).O BCE agiu em conformidade: a taxa de juro diretora, que estava em 0% em julho de 2022, subiu até 4% em setembro de 2023. Foi um aperto monumental e veloz, bastou um ano e dois meses para os juros da Zona Euro chegarem a esse máximo histórico."Os mercados abriram com uma clara procura por ativos mais seguros após a escalada do conflito que envolve o Irão", observa o departamento de estudos do Banco BPI. "Os futuros de ações estão em queda generalizada e o dólar está a valorizar, ao passo que os preços do petróleo Brent se aproximam dos 80 dólares, no meio de alertas sobre a segurança do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz.""Zona Euro é a economia mais exposta"James Knightley, economista-chefe do grupo financeiro ING, está em Nova Iorque, mas é ele quem segue as economias da Europa Ocidental. Para o analista, "a Zona Euro é a economia mais exposta"; "é onde as consequências macroeconómicas se fazem sentir com mais força, e o momento não podia ser pior"."A Zona Euro estava finalmente a emergir do seu longo período de estagnação, com sinais incipientes de recuperação a surgirem – embora, recentemente, estes tenham sido prejudicados por novas incertezas em relação às tarifas. Agora, a Zona Euro pode enfrentar um choque energético, além de um choque comercial", observa.Assim é porque "a Europa importa praticamente todo o seu petróleo e uma parcela significativa de GNL [gás natural liquefeito]" pelo que "uma subida dos preços da energia e até uma possível interrupção no fornecimento podem trazer à tona as memórias da crise energética desde o final de 2021 até 2023".Depois, como referido, ainda há o fantasma dos juros mais elevados. "O Banco Central Europeu encontra-se num verdadeiro dilema. A inflação dos serviços ainda é persistente, e um choque petrolífero elevaria a inflação geral – no entanto, a perspetiva de crescimento está a deteriorar-se simultaneamente sob o peso combinado das tarifas, da incerteza e, agora, dos custos da energia", acrescenta o economista do ING.Recorde-se que, em dezembro passado, uma análise do BCE mostrou que um aumento de 14% nos preços do petróleo elevaria a inflação em 0,5 pontos percentuais e poderia reduzir o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 0,1 pontos percentuais. No entanto, "este seria apenas o efeito sobre os preços, e não o efeito da perturbação da cadeia de abastecimento".Entre o final do dia de sexta-feira, 27 de fevereiro, e o fecho desta segunda-feira, 2 de março, o preço do contrato do barril de petróleo Brent para entrega em maio, subiu 6,6%. Fechou em 78 dólares.Sobre a problemática dos aviões, o meio de transporte que nutre o valioso turismo de massas, Rohit Kumar, analista da agência de ratings Morningstar DBRS, adverte que "a maioria das companhias aéreas globais consegue suportar o impacto direto do encerramento do espaço aéreo no Médio Oriente, mas o preço do combustível representa um risco".No entanto, este mesmo perito conclui que "as companhias aéreas europeias e asiáticas estão mais expostas do que as congéneres norte-americanas, dada a sua proximidade geográfica e a importância do espaço aéreo do Médio Oriente para a conectividade entre a Europa e a Ásia"..Irão: “Não se esperam cortes de abastecimento de energia, mas Portugal vai apanhar por tabela com o aumento dos preços”.Dilema das monarquias do Golfo: retaliar e parecer estar ao lado de Israel ou não reagir