Dez anos depois, o julgamento do caso BES arrancou com a presença do antigo presidente do banco, Ricardo Salgado, após uma tentativa infrutífera, por parte da defesa do ex-banqueiro, para que não fosse levado a julgamento por motivos de saúde, uma vez que sofre da doença de Alzheimer. No tribunal, onde Ricardo Salgado não chegou sem antes ser confrontado por alguns clientes lesados, os advogados do ex-banqueiro deixaram fortes críticas à Justiça por ter obrigado o seu cliente a ir a julgamento sem que, alegadamente, se possa defender das imputações que lhe são feitas pelo Ministério Público, devido ao Alzheimer. O que se poderá aplicar também a eventuais responsabilidades que lhe possam vir a ser imputadas pelos restantes 17 arguidos no processo..Após cerca de um quarto de hora em tribunal, Ricardo Salgado foi autorizado pela presidente do coletivo de juízes, Helena Susano, a deixar a audiência, ficando também livre de comparecer nas seguintes, devido ao seu estado de saúde. O ex-banqueiro apenas respondeu de forma satisfatória a uma pergunta da juíza, quando esta lhe perguntou o nome. Questionado sobre o seu local de residência, respondeu que não sabia se vivia em Lisboa ou Cascais. Para a defesa de Salgado, o estado de confusão que o seu cliente demonstrou no tribunal acabou por servir de argumento para mais uma vez sustentar que não deve ser julgado, acenando inclusive com um recurso ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos..“A situação clínica é um facto incontornável que não vemos como o tribunal pode empurrar para debaixo da mesa. O tribunal está obrigado a realizar uma perícia médica sob pena de nulidade. Quem não viu que o tribunal ficou compreensivelmente hesitante com a situação que todos presenciámos hoje de manhã? Como poderá o arguido compreender e discutir factos com o grau de sofisticação aqui em causa?”, questionou na sua exposição introdutória o advogado Adriano Squillace, que juntamente com Francisco Proença de Carvalho defende o antigo presidente do BES, citado pela Lusa..Squillace argumentou que a situação clínica de Ricardo Salgado “impede o exercício da defesa”, bem como a possibilidade de prestar declarações em tribunal, sublinhando que a defesa “nada mais consegue fazer”..Na sua intervenção, o mesmo advogado deu a entender que, se necessário, a defesa de Salgado poderá levar o processo até ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos e que Portugal fica em risco de ser condenado por esta entidade internacional. “Basta atentarem nos relatórios para verem que este já não é Ricardo Salgado”, disse..Antes desta intervenção, o advogado de um assistente processual pedira à juíza, sem sucesso, que o julgamento fosse suspenso até fosse nomeado um curador provisório para o antigo presidente do BES..“Ricardo Salgado está incapacitado de compreender o decurso deste julgamento e de exercer o direito de defesa, por isso o julgamento deve suspender-se até que seja nomeado um curador provisório”, disse o advogado Henrique Prior, ainda segundo a Lusa..Do “não sabia” ao “ingénuo útil”.Com mais saúde e menos anos de vida, os advogados dos outros arguidos no processo recorreram a outros argumentos para defender os interesses dos seus clientes. O advogado de Manuel Fernando Espírito Santo, primo de Ricardo Salgado e antigo administrador do grupo familiar, não hesitou mesmo em retratar o seu cliente como um “ingénuo útil”. “O que eu disse foi que ele, de facto, a encontrar uma palavra, é um ingénuo útil. Talvez tivesse sido atento se desconfiasse, como não desconfiava do que se passava, o dever de diligência resultou exatamente nisso”, afirmou o advogado José António Barreiros aos jornalistas, segundo a Lusa..Por sua vez, o advogado de Amílcar Morais Pires, antigo administrador financeiro (CFO) do BES, que chegou a ser indicado pela família Espírito Santo para suceder a Salgado na liderança, argumentou que o seu cliente é “uma pessoa fundamentalmente cumpridora”. Segundo disse Raul Soares da Veiga aos jornalistas, a “verdade” é que Morais Pires “não sabia de certas coisas”..Também Paulo Saragoça da Matta, advogado de João Martins Pereira, antigo assessor do board do BES, argumentou que o seu cliente não deveria ser julgado pelos três crimes de burla qualificada de que é acusado em coautoria com outros arguidos. “É um homem que não devia sequer estar aqui”, defendeu Saragoça da Matta..O julgamento daquele que é o maior escândalo bancário em Portugal prossegue hoje, com a audição da gravação do depoimento de Ricardo Salgado ao juiz Carlos Alexandre, na fase de instrução, antes de haver uma acusação do Ministério Público e de ter sido diagnosticada a doença de Alzheimer.