CFP. "Temos de pensar na produtividade" porque imigração, fundos europeus e turismo devem começar a faltar
"Os motores do crescimento económico dos últimos anos – turismo, fundos europeus e imigração – permitiram contornar temporariamente a escassez de mão-de-obra e os baixos níveis de investimento", mas estas restrições "persistem num quadro de comércio internacional mais adverso" pelo que é necessário encontra um fator de crescimento mais duradouro – a produtividade, defende a presidente do Conselho das Finanças Públicas (CFP).
Nazaré Costa Cabral diz "temos que pensar que o crescimento económico do país deve estar cada vez mais dependente de ganhos de produtividade do que destes três fatores" porque o mundo que aí vem é "mais exigente".
Na conferência de imprensa de apresentação do estudo semestral sobre as Perspetivas Económicas e Orçamentais 2026-2030, a presidente da entidade que avalia as finanças públicas, diz que "nos últimos anos, se pensarmos em termos mais estruturais, vemos que os grandes motores do crescimento económico têm advindo fundamentalmente da combinação de três fatores virtuosos".
"Por um lado, imigração, que ajudou de facto ao crescimento do emprego", da economia e "contribuiu positivamente para as finanças públicas". "A imigração deu um impulso ao crescimento económico", mas agora o CFP diz que podemos estar a entrar numa nova era.
Num contexto de políticas do atual governo muito mais hostis a certas coortes de trabalhadores estrangeiros, o novo estudo do CFP diz que "o ritmo de criação de emprego deverá diminuir, um movimento que deve ser lido no contexto da evolução demográfica esperada para os próximos anos, mantendo-se a taxa de desemprego em níveis baixos".
Assim, "saldos migratórios gradualmente menos positivos, juntamente com a evolução da estrutura etária, limitarão aumentos da população em idade ativa", pelo que "o crescimento do emprego deverá diminuir face aos 1,7% estimados para 2026". "Com saldos migratórios menos positivos e o envelhecimento da população a limitarem o crescimento da população em idade ativa, o crescimento do emprego desacelera para 1,1% em 2027, e estabiliza em torno de um crescimento nulo em 2030", avisa o CFP.
"Depois, os fundos europeus de caráter extraordinário que provavelmente não vão ser reabilitados nos próximos tempos", isto é, envelopes generosos como o PRR (originalmente pensado para responder aos efeitos da pandemia covid na economia) podem não surgir mais.
Em terceiro lugar, mas não menos importante, o fator "virtuoso", em relação ao qual Portugal deve começar a reduzir a sua "dependência", é o turismo. "O bom comportamento do turismo alavancou de facto muito deste crescimento nos últimos anos", mas é um fator de crescimento que apresenta cada vez mais limitações.
No novo estudo, o CFP adverte que "nas exportações de serviços, nomeadamente de turismo, cujo crescimento nominal foi de 58,8% entre 2019 e 2025, futuros aumentos estão limitados pela capacidade das infraestruturas aeroportuárias, não obstante a redução da sazonalidade e uma distribuição geográfica mais equilibrada da procura".
Assim, Costa Cabral considera que "de facto, assistimos a mudanças grandes" e neste momento "antecipa-se um menor crescimento do emprego nos próximos tempos, aliás, as nossas projeções vão justamente nesse sentido". Isso "é fruto das restrições migratórias associado ao envelhecimento demográfico que estamos de facto a assistir e que é uma evidência inexorável".
"Portanto, neste momento, cada vez mais nós temos que pensar que o crescimento económico do país deve estar cada vez mais dependente de ganhos de produtividade do que destes fatores que referi", acrescentou a responsável.
"Entrámos agora num ciclo muito mais exigente do ponto de vista dos desafios para a nossa economia e temos de perceber, mais do que nunca, que vamos ter que começar a falar de produtividade e de como a aumentar".
No CFP, "estamos em linha com outras entidades, temos uma perspetiva relativamente benigna deste ponto de vista, considerando que há aqui ou que pode haver um aumento da intensidade capitalista do fator de trabalho e também o reforço da componente tecnológica, mas, nada disto é certo", considerou a economista.

