Bruxelas aposta na Gronelândia para um dos seus 13 novos projetos estratégicos de matérias-primas
A Comissão Europeia revelou esta quarta-feira, 4 de junho, 13 novos projetos estratégicos de matérias-primas críticas localizados fora da União Europeia, numa tentativa de reduzir a dependência da China e garantir o acesso a recursos essenciais para a transição energética em diversas indústrias.
Os novos projetos patrocinados por Bruxelas fazem parte da implementação da Lei de Matérias-Primas Críticas acordada em 2023, segundo a qual o bloco dos 27 pretende extrair 10%, processar 40% e reciclar 25% das suas necessidades de materiais raros até 2030.
Estas parcerias, localizadas fora do território da UE, surgem num contexto de crescente pressão internacional, após a China ter imposto, em abril, restrições à exportação de terras raras — componentes cruciais para a transição verde em curso, em produtos tão diversos quanto veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas militares.
A medida deixou governos e empresas europeias em alerta, acelerando, para tentar assegurar cadeias de fornecimento alternativas e evitar paralisações industriais.
"Devemos reduzir a nossa dependência de todos os países, particularmente da China (...). As proibições de exportação aumentam a nossa vontade de diversificar", disse o comissário europeu para a Indústria, o francês Stéphane Sejourné, citado pela agência Reuters.
Os 13 novos empreendimentos estão espalhados por países como Gronelândia, Reino Unido, Canadá, Cazaquistão, Noruega, Sérvia, Ucrânia, Zâmbia, Brasil, Malawi, África do Sul e o território francês da Nova Caledónia.
Entre eles, há dois projetos de terras raras em África — Malawi e África do Sul — e um projeto estratégico de grafite na Gronelândia.
A disputa de influência na Gronelândia
A maior ilha do mundo, região autónoma da Dinamarca, tem-se tornado um foco de interesse geopolítico, já diversas vezes reivindicada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, com as autoridades americanas a insistirem num plano para colocar a Gronelândia na esfera de influência americana através de um tipo de acordo comercial de livre associação.
Os Estados Unidos têm usado esses acordos para manter laços estreitos com várias nações insulares do Pacífico, por exemplo, onde o governo americano oferece serviços essenciais e, em troca, as Forças Armadas americanas operam livremente, enquanto o comércio com os EUA é amplamente aliviado de impostos, lembra a Reuters.
Certo é que a localização geoestratégica da Gronelândia, no Ártico, e a sua abundância em matérias-primas críticas (como grafite, lítio e cobre) para a transição energética têm feito da ilha um território muito apetecido nos últimos tempos.
Bruxelas assinala, assim, também, com este novo projeto, o interesse na região.
A maior parte dos projetos agora anunciados pela Comissão Europeia são fortemente voltados para minerais como lítio, cobalto, manganês e grafite — todos essenciais para baterias de veículos elétricos e armazenamento de energia, por exemplo. O projeto britânico, por sua vez, foca-se na extração de volfrâmio.
A Comissão Europeia estima que os novos projetos exigirão um investimento total de 5,5 mil milhões de euros. Com este novo pacote, o número total de projetos estratégicos patrocinados pela UE neste domínio sobe para 60.
Em março, Bruxelas já tinha anunciado 47 outras iniciativas para construir uma cadeia de abastecimento mais resiliente, verde e geopoliticamente independente. Na altura, todos os projetos identificados eram localizados em território da União Europeia, com quatro deles em Portugal: três de lítio, em Boticas, Montalegre e Estarreja, e um de cobre, nas Minas de Neves-Corvo (Castro Verde).