Christine Lagarde, presidente do BCE.
Christine Lagarde, presidente do BCE. Foto: CHRISTOPHER NEUNDORF / EPA

BCE queria aguentar juros em 2% até junho, mas mercados veem subida para 2,25% em abril e 2,5% no verão

Com dados estabilizados até 11 de março, o BCE decidiu manter a taxa de juro principal da Zona Euro em 2%. Mas será sol de pouca dura. Lagarde alerta para "propagação" das pressões inflacionistas.
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As taxas de juro da Zona Euro definidas pelo Banco Central Europeu (BCE) devem começar a subir dentro em breve, dizem vários economistas numa primeira digestão das palavras da presidente do BCE, esta quinta-feira, 19 de março, em Frankfurt, Alemanha.

O cenário, agravado pelo choque petrolífero em curso (nesta quinta, o preço do barril de Brent chegou a furar a fasquia dos 119 dólares), aponta para uma primeira subida da taxa principal do BCE dos atuais 2% para 2,25% entre abril e junho, depois para 2,5% até setembro e, com elevada probabilidade, para 2,75% em dezembro deste ano.

Segundo alguns analistas, a autoridade monetária que define o custo dos empréstimos e da dívida e a remuneração das poupanças, até mostrou que gostaria de esperar talvez pela reunião de junho para começar a subir taxas de juro (atualmente, a taxa principal, de depósito, está em 2%), mas o "choque severo" dos preços da energia (palavras de Lagarde) deve precipitar a primeira subida de juros por parte do BCE já no final de abril (a próxima reunião é no dia 30 do mês que vem).

E cresce o número de observadores do mercado que já falam no plural, consideram que, ao dia de hoje, a hipótese de pelo menos duas subidas este ano já é uma realidade assumida.

"Após a reunião [de política monetária, de taxas de juro, do BCE], os mercados financeiros consolidaram a mudança nas expectativas das últimas semanas e descontam agora dois aumentos de juros em 2026 (o primeiro entre abril e junho, o segundo entre julho e setembro)", dizem os economistas do grupo BPI.

Em cima disto, já se aventa "um terceiro aumento, com a taxa de depósito do BCE a chegar aos 2,75% em dezembro, com 75% de probabilidade", revela o departamento de estudos do grupo BPI (BPI Research).

Até ao final deste ano, o BCE tem mais seis reuniões de política monetária agendadas, mostra o calendário oficial.

Segundo o gabinete de análise económica do BPI, "o BCE manteve as taxas de juro inalteradas (taxa de depósito em 2%), mas expressou preocupação com os potenciais impactos do conflito no Médio Oriente, um aumento esperado da inflação e uma revisão em baixa da previsão de crescimento económico".

"Lagarde descreveu um cenário em transformação, diante de um choque significativo e severo, que “se está a desenrolar, e cuja resposta dependerá da intensidade e duração das tensões e da disseminação dos seus efeitos económicos", acrescentam os economistas do BPI.

Lagarde usou mesmo o termo "propagação" das pressões inflacionistas, como se fosse um incêndio descontrolado.

Frederik Ducrozet, economista-chefe de uma grande gestora de ativos, a Pictet Wealth Management, sediada na Suíça, segue o BCE há décadas. Segundo ele, "há fontes do BCE a sugerir que podem aumentar as taxas em abril", mas na sua opinião, "penso que junho é mais provável".

"O BCE tem uma reunião a 30 de abril", mas Lagarde, na conferência de imprensa, falou em momentos importantes pelos quais quer esperar porque devem dar informação vital ao banco central nestes tempos altamente voláteis.

Ducrozet lembra que há o "Inquérito às Expectativas do Consumidor, a 27 de março, o que é muito cedo para o BCE, depois o Inquérito aos Economistas Profissionais, a 4 de maio, que fornecerá os primeiros indícios [se a inflação já está a ser inoculada na economia de forma mais permanente] e depois o Inquérito Telefónico às Empresas, em meados de junho".

A reunião de junho do BCE acontece, justamente, no dia 11 desse mês.

Michael Field, analista-chefe para os mercados europeus da agência de ratings Morningstar DBRS, recorda que "a definição das taxas de juro tinha-se tornado uma coisa relativamente aborrecida até há algumas semanas, mas agora, com o preço do barril de petróleo a disparar para os 115 dólares, tudo mudou".

“Os mercados bolsistas previam inicialmente taxas de juro estáveis ​​em 2026, ou até mesmo a possibilidade de cortes nas taxas em algum momento, mas neste momento, estão a reajustar preços ao novo cenário, dada a possibilidade de vários aumentos das taxas de juro caso os efeitos do conflito se reflitam nos indicadores da inflação. Como as coisas mudam rapidamente”, observou o mesmo economista.

Carsten Brzeski, economista-chefe para a economia global no grupo financeiro holandês ING, não se atravessa com datas, mas concede que "os comentários da presidente Christine Lagarde, na conferência de imprensa, deram à reunião um tom mais agressivo. Mesmo que não esteja iminente um aumento das taxas de juro, a mudança de tom e de linguagem reconhece uma maior incerteza e visa demonstrar a disponibilidade do BCE para agir, se necessário".

"O facto de a sua conhecida expressão monitorizar atentamente ou de perto ter voltado a ser utilizada é um sinal claro de que o BCE aumentou o seu estado de alerta", na verdade, "sempre foi um sinal de elevado estado de alerta; foi utilizado durante as breves tensões bancárias em março de 2023 e anteriormente, em 2022".

Lagarde fala em "choque severo"

As novas projeções do Banco Central Europeu "incorporam, excecionalmente, informação até 11 de março, uma data posterior ao que é habitual", e bastaram apenas estes 11 a 12 dias da guerra no Golfo Pérsico para ter de refazer as contas para todo o ano de 2026 e subir violentamente a previsão para a inflação anual, de 1,9% (projeções de dezembro) para 2,6% agora, explicou Lagarde, a seguir à reunião das taxas de juro.

Estamos perante "um choque severo", concordou, e assim, foi avisando que o BCE não pode ficar de braços cruzados, que vai ver quanto tempo dura este choque petrolífero e energético e como é que ele se vai "propagar".

Se esta crise que envolve o Irão se arrastar no tempo, a inflação subir e começar a destilar os chamados "efeitos de segunda ordem", colando-se com mais força aos preços, então, o BCE terá de atuar e voltar a subir taxas de juro, claro.

Governos podem apoiar, mas tem de ser temporário

Quanto às respostas imediatas, as dos governos, a presidente do BCE diz que sim, lá terá de ser, mas que as medidas fiscais só podem ser temporárias e retiradas logo que possível. É o caso do apoio fiscal em sede de ISP que existe em Portugal, por exemplo.

Segundo Lagarde, o BCE sublinha que temos neste momento "uma necessidade urgente de reforçar as economias da Zona Euro, mas mantendo, ao mesmo tempo, finanças públicas sólidas".

Por isso, continuou a economista francesa, "quaisquer respostas fiscais ao choque dos preços da energia devem ser temporárias, direcionadas e adaptadas".

Além do mais, "a atual crise energética reforça a necessidade imperativa de reduzir ainda mais a dependência dos combustíveis fósseis", insistiu Lagarde.

Como referido, para já, as taxas de juro da Zona Euro ficam na mesma (a taxa principal, de depósitos em 2%), mas na próxima reunião, a autoridade sediada em Frankfurt, deve, muito provavelmente, aumentar o custo dos empréstimos.

"O aumento dos preços da energia provocado pela guerra elevará a inflação acima dos 2% no curto prazo".

Se isto "persistir", significa que "o aumento dos preços da energia pode levar a um aumento mais amplo da inflação através de efeitos indiretos e de segunda ordem, uma situação que exige uma monitorização rigorosa", constatou Lagarde.

E é aí que o BCE será obrigado a atuar com uma política mais dura e restritiva, com aumentos de taxas de juro e/ou menos concessão de liquidez a custos baixos (via outros instrumentos, como as compras de dívida).

Para mais, "as expectativas de inflação nos mercados financeiros aumentaram significativamente em horizontes de curto prazo", avisou a presidente do BCE.

Christine Lagarde, presidente do BCE.
Lagarde. Taxas de juro terão de subir se isto se arrastar, mas apoios dos governos devem ser "temporários"

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