Lagarde. Taxas de juro terão de subir se isto se arrastar, mas apoios dos governos devem ser "temporários"
As novas projeções do Banco Central Europeu (BCE) "incorporam, excecionalmente, informação até 11 de março, uma data posterior ao que é habitual", e bastaram apenas estes 11 a 12 dias da guerra no Golfo Pérsico para ter de refazer as contas para todo o ano de 2026 e subir violentamente a previsão para a inflação anual, de 1,9% (projeções de dezembro) para 2,6% agora, explicou a presidente do BCE, Christine Lagarde, na conferência de imprensa que decorreu em Frankfurt, depois da reunião das taxas de juro.
Estamos perante "um choque severo", concordou Lagarde, e assim, foi avisando que não pode ficar de braços cruzados, que vai ver quanto tempo dura este choque petrolífero e energético e como é que ele se vai "propagar".
Se esta crise que envolve o Irão se arrastar no tempo, a inflação subir e começar a destilar os chamados "efeitos de segunda ordem", colando-se com mais força aos preços, então, o BCE terá de atuar e voltar a subir taxas de juro, claro.
Governo podem apoiar, mas tem de ser temporário
Quanto às respostas imediatas, as dos governos, a presidente do BCE diz que sim, lá terá de ser, mas que as medidas fiscais só podem ser temporárias e retiradas logo que possível. É o caso do apoio fiscal em sede de ISP que existe em Portugal, por exemplo.
Segundo Lagarde, o BCE sublinha que temos neste momento "uma necessidade urgente de reforçar as economias da Zona Euro, mas mantendo, ao mesmo tempo, finanças públicas sólidas".
Por isso, continuou a economista francesa, "quaisquer respostas fiscais ao choque dos preços da energia devem ser temporárias, direcionadas e adaptadas".
Além do mais, "a atual crise energética reforça a necessidade imperativa de reduzir ainda mais a dependência dos combustíveis fósseis", insistiu Lagarde.
Como referido, para já, as taxas de juro da Zona Euro ficam na mesma (a taxa principal, de depósitos em 2%), mas na próxima reunião, a autoridade sediada em Frankfurt, deve, muito provavelmente, aumentar o custo dos empréstimos.
"O aumento dos preços da energia provocado pela guerra elevará a inflação acima dos 2% no curto prazo".
Se isto "persistir", significa que "o aumento dos preços da energia pode levar a um aumento mais amplo da inflação através de efeitos indiretos e de segunda ordem, uma situação que exige uma monitorização rigorosa", constatou Lagarde.
E é aí que o BCE será obrigado a atuar com uma política mais dura e restritiva, com aumentos de taxas de juro e/ou menos concessão de liquidez a custos baixos (via outros instrumentos, como as compras de dívida).
Para mais, "as expectativas de inflação nos mercados financeiros aumentaram significativamente em horizontes de curto prazo", rematou a presidente do BCE.

