As taxas de juro principais da Zona Euro, definidas pelo Banco Central Europeu (BCE), ficaram inalteradas, anunciou a autoridade monetária sediada em Frankfurt, Alemanha, esta quinta-feira.A taxa diretora de referência (taxa de depósito) ficou assim em 2%, nível em que está há quase um ano (desde junho de 2025), mas a pausa deve terminar no próximo mês, pois o BCE aponta explicitamente para a subida dos preços cada vez "mais intensa", algo que não pretende tolerar muito mais.Em junho, deve subir a referida taxa diretora de 2% para 2,25%, diz a maioria dos analistas.De acordo com o departamento de estudos do Banco BPI, Christine Lagarde, que lidera o BCE, "acabou por dar pistas mais claras sobre um possível aumento das taxas em junho"."Após a reunião, os mercados apontam para um aumento das taxas em junho (taxa de depósito em 2,25% com probabilidade de 90%) e mais dois no resto do ano (taxa de depósito terminaria o ano em 2,75%)", diz a equipa de economistas.Segundo a Reuters, que consultou vários analistas e tem ferramentas avançadas de monitorização da procura e oferta de fundos nos mercados monetários, estes "já estão a descontar integralmente, pelo menos, dois aumentos da taxa de juro principal do BCE até ao final do ano, e consideram atualmente que um terceiro aumento [até final de 2026] é provável, mas não certo".Na apresentação aos jornalistas das conclusões dos dois dias de reunião de política monetária (esta quinta foi o segundo e último), Christine Lagarde, a presidente do BCE, disse que "a decisão que tomámos foi de forma unânime, mas também debatemos de forma longa e aprofundada a possibilidade de um aumento, isso foi debatido por todos os governadores”.Mas, insistiu, “foi uma posição de política monetária profundamente discutida, de que saiu uma decisão unânime de manter as três taxas inalteradas”.Em comunicado, o BCE assinala o desconforto com a inflação excessiva e com o perigo de esta se descontrolar e contaminar o resto da economia, de forma mais permanente, precipitando subidas de juro. Para já, ainda não estamos nesse ponto, sinalizou Frankfurt, mas os riscos são cada vez maiores.O objetivo do BCE é manter a inflação estável em 2% no médio prazo, mas isso está a tornar-se uma miragem de desde que os EUA e Israel abriram guerra contra o Irão, que entretanto alastrou aos países do Golfo Pérsico, ao Médio Oriente, interrompendo os fluxos de petróleo, gás, fertilizantes e outras matérias primas via Estreito de Ormuz.Os preços disto tudo dispararam. O petróleo custa hoje o dobro face aos valores pré-ataque ao Irão (28 de fevereiro).Ainda assim, esta quinta-feira, o conselho do Banco Central Europeu (BCE) decidiu "manter as três taxas de juro diretoras" inalteradas."Embora a informação que tem vindo a ser disponibilizada esteja globalmente em consonância com a anterior avaliação", o banco central avisa que "os riscos em sentido ascendente para a inflação e em sentido descendente para o crescimento intensificaram‑se" e que "está empenhado em definir a política monetária de modo a assegurar que a inflação estabiliza no objetivo de 2% a médio prazo", indica Frankfurt.Subida de juros é apenas uma questão de tempoNo mesmo comunicado, o BCE deixa perceber que o início da subida das taxas de juro é, no fundo, uma questão de tempo para reunir mais dados e ter mais certezas.O BCE está apenas à espera de mais informação e de poder constatar que a duração da guerra passa o limite, tornando o impacto da inflação intolerável, levando o BCE a ter de arrefecer os preços e a atividade com juros mais altos."A guerra no Médio Oriente provocou um aumento pronunciado dos preços dos produtos energéticos, fazendo subir a inflação e pesando sobre o sentimento económico", alerta o BCE."As implicações da guerra para a inflação a médio prazo e a atividade económica dependerão da intensidade e da duração do choque sobre os preços dos produtos energéticos e da magnitude dos seus efeitos indiretos e de segunda ordem", sendo que "quanto mais tempo durar a guerra e os preços dos produtos energéticos se mantiverem elevados, mais forte será o provável impacto na inflação em geral e na economia", explica a instituição presidida por Lagarde.Assim sendo, resta ao BCE "acompanhar de perto a situação e seguir uma abordagem dependente dos dados e reunião a reunião na definição da orientação apropriada da política monetária". As futuras decisões do BCE sobre as taxas de juro (a próxima reunião de política monetária é em 11 de junho) "basear‑se‑ão na avaliação das perspetivas de inflação e dos riscos em torno das mesmas – à luz dos dados económicos e financeiros que forem sendo disponibilizados –, bem como da dinâmica da inflação subjacente e da força da transmissão da política monetária".Inflação geral da zona euro descambaEsta quinta-feita, o Eurostat revelou que a inflação geral da Zona Euro está a subir de forma significativa. Estava abaixo do limite programático do BCE (2%) em fevereiro, mas saltou para 2,6% em março e 3% em abril.Portugal surge como um caso mais problemático porque já vai com uma inflação de 3,3% (valor harmonizado apurado pelo Eurostat, o cálculo do INE dá uma subida de preços de 3,4% em abril, em Portugal), claramente acima da média do euro neste mês que agora termina.Mas há um ponto positivo que ajuda a explica o esperar para ver do BCE antes de começar um nosso ciclo de aperto das taxas de juro, que fará aumentar o peso do endividamento e o esforço para pagar dívidas aos bancos: é que, apesar da subida rápida da inflação, amplamente explicada pelos preços da energia que subiram mais de 5% em março e quase 11% em abril, a inflação subjacente (sem energia e alimentação não processada) até tem vindo a abrandar (2,3% em fevereiro, 2,2% em março e 2,1% em abril, segundo o Eurostat).O BCE considera que "a área do euro entrou neste período de subida acentuada dos preços dos produtos energéticos com a inflação em torno do objetivo de 2% e a economia revelou resiliência nos últimos trimestres". No entanto, embora as expectativas de inflação a mais longo prazo continuem "bem ancoradas", nota que há um "aumento significativo das expectativas de inflação nos horizontes mais curtos".Como referido, a taxa de juro relativa à facilidade permanente de depósito ficou em 2%. As taxas das operações principais de refinanciamento e da facilidade permanente de cedência de liquidez também ficaram estabilizadas em 2,15% e 2,4%, respetivamente.Lagarde: famílias e empresas "mais relutantes"Em conferência de imprensa, a presidente do BCE relembrou que a economia da zona euro até estava com "algum dinamismo quando se iniciou a atual turbulência" nos mercados da energia.O Produto Interno Bruto (PIB) real da Zona Euro "cresceu 0,1% no primeiro trimestre de 2026, de acordo com a estimativa preliminar do Eurostat", disse a ex-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI)."A procura interna continua a ser o principal motor do crescimento, sustentada por um mercado de trabalho resiliente", mas, "no entanto, as perspetivas económicas são altamente incertas e dependerão da duração da guerra no Médio Oriente e da intensidade com que esta afetará os mercados da energia e de outras matérias-primas, bem como as cadeias de abastecimento globais".Segundo os dados já absorvidos e analisados pelo BCE, "o conflito está a afectar a atividade económica" e "os inquéritos apontam para uma desaceleração do crescimento" pois "os consumidores e as empresas tornaram-se menos confiantes no futuro desde o início da guerra", alerta Lagarde."Os prazos de entrega mais longos e o aumento dos preços dos inputs [bens intermédios, com as matérias primas] indicam que as cadeias de abastecimento estão sob pressão" e, quanto ao "futuro", "prevê-se que os custos elevados da energia continuem a pressionar os rendimentos reais, tornando as famílias e as empresas mais relutantes em consumir e investir".Crescimento em perigo e vida mais caraLagarde também atualizou o exercício regular de balanço de riscos e fez saber que, no caso do crescimento económico, "são negativos", dando a entender que o perigo é cada vez maior."A guerra no Médio Oriente continua a ser um risco para a economia da zona euro, agravando o instável ambiente político global. A interrupção prolongada do fornecimento de energia poderá aumentar ainda mais os preços da energia e durante um período mais longo do que o actualmente previsto."Estes fatores podem "corroer o rendimento e tornar as empresas e as famílias mais relutantes em investir e gastar"."O impacto negativo no crescimento intensificar-se-ia se o encerramento de importantes rotas marítimas provocasse uma escassez aguda de inputs essenciais, obrigando as empresas da zona euro a reduzir a produção", "uma deterioração do sentimento dos mercados financeiros globais poderá reduzir ainda mais a procura" e novos atritos no comércio internacional "podem agravar as perturbações nas cadeias de abastecimento, reduzir as exportações e enfraquecer o consumo e o investimento".E isto, sem esquecer, as outras tensões que já existem, "em particular a guerra injustificada da Rússia contra a Ucrânia", que são "uma importante fonte de incerteza".No caso da inflação, o balanço é claramente negativo para o poder de compra das famílias, ou seja, aponta para riscos sérios de subida dos preços."Os riscos para as perspetivas de inflação apontam para uma tendência de subida. Se os preços da energia subirem mais e durante um período mais longo do que o actualmente previsto, a inflação na zona euro aumentará ainda mais", disse Lagarde."Este aumento poderá ser reforçado e tornar-se mais persistente se os preços mais elevados da energia se reflectirem, numa proporção superior à esperada, noutros preços e nos salários, se as expectativas de inflação a longo prazo aumentarem em resposta a esta subida ou se as cadeias de abastecimento globais forem interrompidas de forma mais ampla", somando a isto as tensões comerciais que continua e "poderão também conduzir a cadeias de abastecimento globais mais fragmentadas, restringir o fornecimento de matérias-primas essenciais e agravar as limitações de capacidade na economia da zona euro".(atualizado às 16h30).Lagarde diz que famílias estão hoje "mais sensíveis" à inflação e isso pode acelerar subida de juros.BCE deve aguentar taxas de juro em abril, mas em junho começa o aperto