Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE)
Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE)Foto: FILIP SINGER / EPA

BCE mantém taxas de juro, mas sinaliza que está muito pressionado a subir em junho

Banco Central Europeu mantém taxa principal em 2%, mas alerta que a inflação cada vez mais alta representa um risco grave e "intensificou‑se". Código para: terão de subir juros, talvez já em junho.
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As taxas de juro principais da Zona Euro, definidas pelo Banco Central Europeu (BCE), ficaram inalteradas, anunciou a autoridade monetária sediada em Frankfurt, Alemanha, esta quinta-feira.

A taxa diretora de referência (taxa de depósito) ficou assim em 2%, nível em que está há quase um ano (desde junho de 2025), mas a pausa deve terminar no próximo mês, pois o BCE aponta explicitamente para a subida dos preços cada vez "mais intensa", algo que não pretende tolerar muito mais.

Em junho, deve subir a referida taxa diretora de 2% para 2,25%, diz a maioria dos analistas.

Aliás, em comunicado, o próprio BCE assinala esse desconforto com a inflação excessiva e com o perigo de esta se descontrolar e contaminar o resto da economia, de forma mais permanente. Para já, ainda não estamos nesse ponto, indica Frankfurt, mas os riscos são cada vez maiores.

O objetivo do BCE é manter a inflação estável em 2% no médio prazo, mas isso está a tornar-se uma miragem de desde que os EUA e Israel abriram guerra contra o Irão, que entretanto alastrou aos países do Golfo Pérsico, ao Médio Oriente, interrompendo os fluxos de petróleo, gás, fertilizantes e outras matérias primas via Estreito de Ormuz.

Os preços disto tudo dispararam. O petróleo custa hoje o dobro face aos valores pré-ataque ao Irão (28 de fevereiro).

Ainda assim, esta quinta-feira, o conselho do Banco Central Europeu (BCE) decidiu "manter as três taxas de juro diretoras" inalteradas.

"Embora a informação que tem vindo a ser disponibilizada esteja globalmente em consonância com a anterior avaliação", o banco central avisa que "os riscos em sentido ascendente para a inflação e em sentido descendente para o crescimento intensificaram‑se" e que "está empenhado em definir a política monetária de modo a assegurar que a inflação estabiliza no objetivo de 2% a médio prazo", indica Frankfurt.

Subida de juros é apenas uma questão de tempo

No mesmo comunicado, o BCE deixa perceber que o início da subida das taxas de juro é, no fundo, uma questão de tempo para reunir mais dados e ter mais certezas.

O BCE está apenas à espera de mais informação e de poder constatar que a duração da guerra passa o limite, tornando o impacto da inflação intolerável, levando o BCE a ter de arrefecer os preços e a atividade com juros mais altos.

"A guerra no Médio Oriente provocou um aumento pronunciado dos preços dos produtos energéticos, fazendo subir a inflação e pesando sobre o sentimento económico", alerta o BCE.

"As implicações da guerra para a inflação a médio prazo e a atividade económica dependerão da intensidade e da duração do choque sobre os preços dos produtos energéticos e da magnitude dos seus efeitos indiretos e de segunda ordem", sendo que "quanto mais tempo durar a guerra e os preços dos produtos energéticos se mantiverem elevados, mais forte será o provável impacto na inflação em geral e na economia", explica a instituição presidida por Christine Lagarde.

Assim sendo, resta ao BCE "acompanhar de perto a situação e seguir uma abordagem dependente dos dados e reunião a reunião na definição da orientação apropriada da política monetária".

As futuras decisões do BCE sobre as taxas de juro (a próxima reunião de política monetária é em 11 de junho) "basear‑se‑ão na avaliação das perspetivas de inflação e dos riscos em torno das mesmas – à luz dos dados económicos e financeiros que forem sendo disponibilizados –, bem como da dinâmica da inflação subjacente e da força da transmissão da política monetária".

Inflação geral da zona euro descamba

Esta quinta-feita, o Eurostat revelou que a inflação geral da Zona Euro está a subir de forma significativa. Estava abaixo do limite programático do BCE (2%) em fevereiro, mas saltou para 2,6% em março e 3% em abril.

Portugal surge como um caso mais problemático porque já vai com uma inflação de 3,3% (valor harmonizado apurado pelo Eurostat, o cálculo do INE dá uma subida de preços de 3,4% em abril, em Portugal), visivelmente acima da média do euro neste mês que agora termina.

Mas há um ponto positivo que ajuda a explica o esperar para ver do BCE antes de começar um nosso ciclo de aperto das taxas de juro, que fará aumentar o peso do endividamento e o esforço para pagar dívidas aos bancos.

Apesar da subida rápida da inflação, amplamente explicada pelos preços da energia que subiram mais de 5% em março e quase 11% em abril, a inflação subjacente (sem energia e alimentação não processada) até tem vindo a abrandar (2,3% em fevereiro, 2,2% em março e 2,1% em abril, segundo o Eurostat).

O BCE considera que "a área do euro entrou neste período de subida acentuada dos preços dos produtos energéticos com a inflação em torno do objetivo de 2% e a economia revelou resiliência nos últimos trimestres". No entanto, embora as expectativas de inflação a mais longo prazo continuem "bem ancoradas", nota que há um "aumento significativo das expectativas de inflação nos horizontes mais curtos".

Como referido, a taxa de juro relativa à facilidade permanente de depósito ficou em 2%. As taxas das operações principais de refinanciamento e da facilidade permanente de cedência de liquidez também ficaram estabilizadas em 2,15% e 2,4%, respetivamente.

Lagarde: receio instala-se nas famílias e empresas

Em conferência de imprensa, a presidente do BCE, Christine Lagarde, relembrou que a economia da zona euro até estava com "algum dinamismo quando se iniciou a atual turbulência" nos mercados da energia.

O Produto Interno Bruto (PIB) real da Zona Euro "cresceu 0,1% no primeiro trimestre de 2026, de acordo com a estimativa preliminar do Eurostat", disse a ex-chefe do FMI.

"A procura interna continua a ser o principal motor do crescimento, sustentada por um mercado de trabalho resiliente", mas, "no entanto, as perspetivas económicas são altamente incertas e dependerão da duração da guerra no Médio Oriente e da intensidade com que esta afetará os mercados da energia e de outras matérias-primas, bem como as cadeias de abastecimento globais".

Segundo os dados já absorvidos e analisados pelo BCE, "o conflito está a afectar a atividade económica" e "os inquéritos apontam para uma desaceleração do crescimento" pois "os consumidores e as empresas tornaram-se menos confiantes no futuro desde o início da guerra", alerta Lagarde.

"Os prazos de entrega mais longos e o aumento dos preços dos inputs [bens intermédios, com as matérias primas] indicam que as cadeias de abastecimento estão sob pressão" e, quanto ao "futuro", "prevê-se que os custos elevados da energia continuem a pressionar os rendimentos reais, tornando as famílias e as empresas mais relutantes em consumir e investir".

(atualizado às 14h20)

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