As taxas de juro de referência da Zona Euro, definidas pelo Banco Central Europeu (BCE), devem ficar inalteradas na reunião de política monetária de quinta-feira, 30 de abril, referem vários analistas que, no entanto, antecipam o início (quase inevitável) do aperto monetário (subida de juros) na reunião seguinte, a 11 de junho, para tentar travar a inflação galopante e arrefecer os excessos da economia.Recorde-se que na reunião de 19 de março, tinha ficado tudo em aberto.A presidente do BCE, Christine Lagarde falou de um "choque severo" dos preços da energia, levando, na altura, vários observadores a afirma que a primeira subida de juros por parte do BCE podia acontecer já no final de abril.No entanto, passaram cerca de seis semanas, a guerra no Médio Oriente continua, teve um género de pausa pelo meio com as negociações entre as partes beligerantes (EUA e Irão), conduzindo o preço do petróleo e do gás numa montanha russa. Esta sexta-feira, o preço do barril de crude Brent, a principal referência para a Europa, estava a subir, tendo tocado um máximo de 107,5 dólares durante a sessão.Mas, a esperança é a última a morrer, como se costuma dizer, e é isso que parece estar a guiar o BCE. Esperar mais para ver o que acontece de forma mais estrutural à inflação, esperar também que as conversações entre Washinton e Teerão levem a uma paz ou um cenário de maior estabilidade, mais duradouros, apesar de o mal estar feito.O Golfo Pérsico é um lugar perigoso, muitas instalações de produção de combustíveis e fertilizantes foram danificadas do outro lado do mar pérsico, em frente ao Irão (Arábia Saudita, Emirados, Qatar, etc.) e, cereja em cima do bolo, o Estreito de Ormuz continua fechado, vendando a passagem e a circulação de cerca de 20% do petróleo consumido a nível mundial.Mas, como referido, o BCE sinalizou que pretende esperar mais para ver até começar a subir juros, dos atuais 2% (taxa de depósito, a principal).Há analistas que antecipam duas subidas de 0,25 pontos percentuais cada até final de 2026 (com a taxa a terminar o ano em 2,5%), outros que dizem três apertos, até 2,75%.Dependerá muito do chamado enraizamento da inflação, dos efeitos de segunda ordem, que fazem com que o agravamento do custo de vida (via preços no consumidor) se torne mais estrutural e difícil de resolver."A próxima semana promete ser importante para a Zona Euro, com a decisão sobre a taxa de juro do BCE e a divulgação de vários dados relevantes, tudo concentrado na quinta-feira 30 de abril", aponta Bert Colijn, o economista-chefe para a Zona Euro no grupo financeiro holandês ING."O Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre, a inflação de abril e o desemprego de março serão divulgados poucas horas antes do anúncio da decisão do BCE sobre as taxas, mas esperamos que se mantenham inalteradas".Bert Colijn não fala de cor. Esteve atento à cascata de comentários de vários banqueiros centrais do BCE nas últimas semanas. Todos ventilaram a ideia de que é preciso ir com calma na subida de juros e ter mais dados para ver que inflação é esta, se vem para ficar ou não. Até Lagarde sinalizou essa necessidade de tempo para refletir mais, ter "mais dados". Várias vezes."Esta nossa previsão foi sugerida por vários membros do Conselho de Governadores recentemente, que enfatizaram a falta de novas informações e a ausência de urgência para agir. Neste sentido, abril servirá principalmente como um teste de realidade para as expectativas em relação às taxas, com os mercados a descontarem atualmente um aperto monetário em torno dos 50 pontos base [0,5 pontos percentuais] até ao final do ano", diz o economista holandês.Em Portugal, a leitura da equipa de economistas do departamento de estudos do Banco BPI é similar."Esperamos que o BCE mantenha as taxas de juro (taxa de depósito em 2%), mas que sinalize intenção de as aumentar gradualmente a partir de junho caso não haja uma resolução rápida para o conflito no Médio Oriente, acompanhada por uma rápida descida nos preços da energia e de outros inputs afetados [outras matérias primas, por exemplo]", diz a equipa do BPI numa nota divulgada esta sexta-feira."O aumento do preço da energia decorrente do conflito no Médio Oriente reforçou as expectativas de uma subida substancial da inflação, sendo 3% a meta para a Zona Euro em 2026", mas para já, "o aumento é considerado temporário, esperando-se que a inflação volte a atingir cerca de 2% em 2027".Segundo o mesmo departamento de estudos, o que se vê é que "os mercados atribuem apenas 10% de probabilidade a uma subida da taxa de juro em abril, mas já descontam uma depo em 2,25% com 90% de probabilidade para junho".Seja como for, "existe uma considerável incerteza quanto à magnitude final do choque" pois "quanto mais tempo durar o conflito, maiores serão os riscos de que o aumento dos preços da energia possa contagiar todo o cabaz de preços e acionar os mecanismos indiretos e de segunda ordem que dariam persistência à inflação e a afastariam significativamente dos 2% também em 2027", diz o gabinete de estudos baseado em Portugal."Para gerir esta incerteza, acreditamos que o BCE procurará posicionar a política monetária no limite entre a neutralidade e a restrição", mas se for levado ao limite, "em consonância com uma taxa de depósito em 2,5%, o BCE poderia continuar a aumentar as taxas se o cenário conduzir a um pico mais severo e persistente da inflação", avisa o Banco BPI.Cascata de comentários do BCE a apelar à calma, prudênciaComo referido, vários banqueiros centrais do Eurossistema (BCE e bancos centrais nacionais) vieram por alguma água na fervura sobre a possível subida de taxas a 30 de abril. Segue-se um apanhado feito pela agência Reuters.Christine Lagarde, presidente do BCE, 20 de abril:"Até agora, não vimos os preços da energia subir o suficiente para nos levar diretamente para o nosso cenário adverso". "Esta incerteza sobre a duração do choque e a abrangência da transmissão justifica a recolha de mais informação antes de tirarmos conclusões definitivas sobre a nossa política monetária."Isabel Schnabel, membro do conselho executivo do BCE, 15 de abril:"Temos uma postura de política monetária amplamente neutra, o que significa que podemos dar-nos ao luxo de dedicar o tempo necessário para analisar a natureza deste choque. Não temos de agir precipitadamente." "Temos de ponderar as nossas decisões de política monetária com muita cautela e ver qual o cenário que prevalece. Temos de nos manter focados nos dados. Temos de pensar com muita atenção em que dados nos podem fornecer informações de que a inflação pode consolidar e que pode haver efeitos secundários."Philip Lane, economista-chefe do BCE, 22 de abril:"Penso que os mercados acreditam que faremos o que for necessário". "Sei que se preocupam se a alteração da taxa de juro ocorrerá numa reunião ou noutra, mas, no contexto geral, a reunião em que tomaremos a decisão... isso é um pormenor."Joachim Nagel, governador do banco central da Alemanha, Bundesbank, 15 de abril:"Não há clareza suficiente sobre o que vai acontecer em abril, mas continuo a defender que devemos ter todas as opções". "Duas semanas podem trazer muitas informações novas, e vamos tê-las em consideração."Olli Rehn, governador do Banco da Finlândia, 16 de abril:"O que mais importa não é o aumento imediato dos preços, mas se o choque terá efeitos persistentes na inflação e no nível geral de preços". "Neste momento, a perspetiva é nebulosa." "O bom senso prevalecerá sobre a pressa, e nenhuma decisão está pré-determinada".