A inflação está a subir rapidamente, um pouco por todo o mundo, e a Zona Euro não é exceção, o que está a ser entendido como uma enorme pressão para os bancos centrais começarem a subir taxas de juro. Na Europa, a maioria dos analistas aponta para duas ou mesmo três subidas este ano de 0,25 pontos percentuais, a começar já no final de abril. O nível atual é de 2%.Numa conferência que decorreu na tarde de segunda-feira, em Berlim, na Alemanha, a presidente do Banco Central Europeu (BCE) foi mais longe e disse que há indícios de que as famílias europeias estão hoje "mais sensíveis" aos aumentos de custos do que estavam, por exemplo, em 2022, quando a inflação disparou por causa da guerra entre a Rússia e a Ucrânia.Para Christine Lagarde, essa "maior atenção à inflação" é mais um argumento para o BCE aumentar o custo do dinheiro porque os trabalhadores vão ser mais rápidos ou insistentes a tentar negociar ou atualizar aumentos salariais para protegerem a perda de poder de compra infligida pelos custos crescentes e cada vez maiores de bens e serviços, não só os energéticos.A mesma psicologia pode acontecer do lado das empresas, acenou Lagarde: aumentar mais rapidamente os preços para não enfrentarem alguma corrosão de margens como aconteceu há quatro anos, quando o custo da energia também subiu em flecha. Na altura, a Europa era muito dependente da Rússia nesse aspecto, especialmente a Alemanha, a maior economia da Zona Euro.Ambos os referidos comportamentos (consumidores e empresas) alimentam os chamados efeitos de segunda ordem na inflação.Lagarde, que falou perante uma plateia de banqueiros, no 75.º aniversário da Associação dos Bancos Alemães (Bundesverband deutscher Banken), em Berlim, disse que no BCE estão particularmente atentos à velocidade da transmissão dos preços da energia, que desta vez, suspeita a chefe do banco central, pode ter efeitos mais amplos na inflação do que há quatro anos, dependendo claro da duração do conflito no Médio Oriente, para o qual ainda não há fim à vista.De acordo com a banqueira central do euro "o mesmo choque energético pode ter efeitos muito diferentes consoante o ambiente económico em que ocorre"."Em 2022, uma procura forte, estrangulamentos globais nas cadeias de abastecimento e uma escassez aguda de mão-de-obra criaram condições para uma transmissão generalizada" do aumento dos custos da energia à inflação.E foi diferente nos dois choques petrolíferos precedentes. "Quando os preços da energia subiram em 2008 e 2011, as economias ficaram mais fracas o que significou que o aumento de custo ficou maioritariamente contido na componente energética"."A memória está fresca"Mas desta vez é ainda mais diferente. "Por um lado, as famílias e as empresas acabaram de viver um grande choque inflacionista [na sequência do conflito Rússia-Ucrânia] e podem estar mais sensíveis ao aumento dos custos".Para Lagarde, "a memória está fresca" e os "inquéritos mais recentes sugerem que as expectativas de preços de venda das empresas aumentaram e que as famílias prestam mais atenção à inflação" do que dantes.Esta é a força que pressiona o BCE a subir taxas de juro para evitar o enraizamento da inflação e os efeitos de segunda ordem que, ma vez instalados, são muito difíceis de reverter."Duas forças opostas deverão influenciar a resposta da inflação desta vez" e a segunda força, a que ajuda mais o BCE em termos de popularidade e muito a economia no curto prazo (não subir tanto os juros), é que "os preços mais elevados da energia e a confiança dos consumidores mais fraca irão pesar sobre a procura, sobretudo tendo em conta que o crescimento, embora em recuperação, já era moderado antes do início do conflito".Seria algo crucial para o BCE pois "isso poderá limitar a dimensão dos aumentos de preços e salários", espera a presidente da autoridade sediada em Frankfurt."A importância relativa destas forças só ficará clara à medida que observamos dados concretos sobre o comportamento de preços das empresas e as negociações salariais", ou seja, "esta dupla incerteza quanto à duração do choque [atual] e à amplitude da transmissão [aos preços e à produção] justifica a recolha de mais informação antes de se retirarem conclusões firmes para a nossa política monetária"..BCE queria aguentar juros em 2% até junho, mas mercados veem subida para 2,25% em abril e 2,5% no verão