UEFA, Ásia e CONCACAF estudam moção de censura para afastar Infantino da FIFA
Segundo a Reuters, que cita responsáveis conhecedores das conversações, as três confederações estão a avaliar a possibilidade de levar a contestação ao presidente da FIFA até um Congresso extraordinário. A iniciativa seria inédita: não há registo, nos 122 anos de história da FIFA, de um Congresso ter realizado formalmente um voto de desconfiança destinado a afastar um presidente em funções.
A oposição a Infantino ganhou dimensão internacional depois da tentativa, entretanto abandonada, de criar a FIFA Forward Enterprise (FFE), projeto através do qual a FIFA pretendia atrair investimento privado para uma estrutura ligada aos seus ativos comerciais. A forma como o processo foi conduzido provocou fortes críticas relacionadas com transparência, governação e ausência de consulta às estruturas continentais.
A 10 de agosto, UEFA, AFC e CONCACAF já tinham tornado pública a rutura através de uma carta conjunta dirigida à comunidade do futebol. Os presidentes das três confederações acusaram Infantino de ter quebrado a confiança das instituições através de “deception” e defenderam uma análise independente ao processo que conduziu ao projeto, entretanto abandonado.
A questão passa agora de uma contestação política para a possibilidade de uma ofensiva institucional contra o presidente da FIFA. Os estatutos do organismo não contemplam especificamente uma moção de censura ou voto de desconfiança contra o presidente, o que torna o eventual procedimento juridicamente pouco habitual. Existe, contudo, um mecanismo que permite convocar um Congresso extraordinário. Para isso, é necessário que pelo menos um quinto das 211 federações filiadas na FIFA apresente um pedido escrito, indicando os assuntos que pretende ver incluídos na ordem de trabalhos. Na prática, são necessárias pelo menos 43 federações.
Este número está, teoricamente, ao alcance das confederações que contestam Infantino. A UEFA tem, por si só, 55 federações filiadas, enquanto a AFC e a CONCACAF aumentam significativamente o universo potencial de apoios. Isso não significa, porém, que todas as federações pertencentes a estas confederações acompanhem automaticamente a posição dos respetivos dirigentes: no Congresso da FIFA cada associação dispõe de um voto próprio e não transferível.
As divisões já são visíveis. O México, por exemplo, manifestou apoio a Infantino apesar de pertencer à CONCACAF, enquanto o Qatar tem contestado a posição assumida pela liderança da AFC. A federação qatari voltou esta quinta-feira a criticar a forma como a confederação asiática participou na carta conjunta contra o presidente da FIFA.
Do outro lado está sobretudo África. A Confederação Africana de Futebol (CAF), que reúne 54 federações e representa mais de um quarto dos votos da FIFA, reafirmou por unanimidade o apoio a Infantino. O presidente da CAF, Patrice Motsepe, defendeu posteriormente que o futuro do dirigente deve ser decidido pelas 211 federações nas eleições presidenciais marcadas para março de 2027.
Infantino mantém igualmente apoios na América do Sul. A Reuters noticiou que a CONMEBOL continua do lado do presidente da FIFA, enquanto Argentina e outras federações sul-americanas manifestaram apoio ao dirigente. Na Oceânia, a OFC também declarou apoio a Infantino, embora a Nova Zelândia tenha quebrado a posição do bloco e retirado formalmente o apoio à sua recandidatura.
A pressão aumentou esta semana com a tomada de posição de Sándor Csányi, presidente da Federação Húngara e vice-presidente da FIFA, que declarou ter perdido a confiança em Infantino. A saída do responsável operacional da FIFA, Kevin Lamour, depois das divergências relacionadas com o projeto de investimento privado, foi apontada por Csányi como o episódio que tornou insustentável a sua confiança na atual liderança.
O confronto poderá, por isso, transformar-se numa verdadeira batalha pela presidência da FIFA meses antes das eleições. Infantino anunciou em abril que pretende apresentar-se a um novo mandato e a eleição está marcada para 18 de março de 2027, em Rabat, Marrocos. Até ao momento, não surgiu um adversário formal capaz de reunir uma coligação alternativa, estando o prazo para apresentação de candidaturas previsto para novembro.
Um eventual Congresso extraordinário acrescentaria, porém, uma variável imprevisível. Caso pelo menos 43 federações apresentem o pedido, o Congresso terá de ser convocado no prazo de três meses. Embora os estatutos não estabeleçam uma regra específica para uma moção de censura presidencial, as decisões do Congresso são, em regra, tomadas por maioria simples dos votos válidos, salvo quando os próprios estatutos exigem uma maioria diferente.
Se Infantino fosse afastado antes das eleições, o cenário sucessório teria igualmente de ser resolvido à luz dos estatutos. De acordo com a análise do enquadramento regulamentar feita pela Reuters, o vice-presidente há mais tempo em funções, atualmente o presidente da AFC, Sheikh Salman bin Ebrahim Al Khalifa, assumiria interinamente a liderança até à eleição de um novo presidente.
O risco para os opositores é também significativo. Uma moção apresentada sem garantias de vitória poderia acabar por reforçar Infantino, demonstrando que, apesar da contestação das principais estruturas da Europa, Ásia e América do Norte, o presidente continua a dispor da maioria das 211 federações. É precisamente a contagem desses votos que deverá determinar se UEFA, AFC e CONCACAF transformam a atual contestação numa tentativa formal de afastamento.
Por enquanto, a moção de censura não foi apresentada. Mas a discussão entre três das seis confederações da FIFA confirma que a crise deixou de estar limitada à polémica em torno de um projeto comercial: passou a colocar diretamente em causa a permanência de Gianni Infantino na presidência do organismo que dirige o futebol mundial.

