Pichardo e Auriol revalidam títulos europeus em dia de ouro para Portugal

Duas medalhas de ouro, dois recordes nacionais, dois finalistas à porta das medalhas (Tiago Pereira, Jessica Inchude) e um resultado histórico nos 60 metros (Arialis Martinez) ditam a segunda melhor prestação de sempre. E ainda pode melhorar.
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Mais dois ouros para o medalheiro português. Pedro Pichardo (triplo salto) e Auriol Dongmo (lançamento do peso) sagraram-se bicampeões da Europa esta sexta-feira. Ambos deixaram a concorrência a léguas de distância, o que diz bem do seu desempenho nas finais dos Campeonatos da Europa de pista coberta (indoor),que decorrem em Istambul.

Serão ambos coroados em Istambul, onde A Portuguesa vai ecoar duas vezes em cinco minutos logo pela manhã de sábado (09.25, RTP), ainda antes de Patrícia Mamona tentar repetir o feito de Pichardo e Auriol, o que será histórico a nível pessoal e coletivo. Portugal lidera o quadro de medalhas de Istambul 2023 e arrisca regressar com o melhor desempenho coletivo de sempre.

Com os ouros de Pichardo e Auriol, Portugal passou a somar 28 medalhas em Europeus indoor, 17 de ouro. Mas nem só de medalhas se fez mais um dia de ouro para o atletismo português. Além dos título de Pichardo e de Auriol, Arialis Martinez fez história na velocidade, terminando a final dos 60 metros em 5.º lugar e com recorde nacional. Tiago Pereira foi 4.º no triplo salto e Jessica Inchude 4.ª no lançamento do peso, num dia em que o Gerson Baldé fez a melhor marca de sempre no salto em altura português, apesar de falhar a presença na final.

O pior foi a desistência de Mariana Machado na final dos 3000 metros, num dia marcado pelo surpreendente e espetacular bronze de Roman Kokoshko, ucraniano que vive há três anos em Leiria, que lançou o peso a 21,84 metros (recorde da Ucrânia), ficando a seis centímetros do ouro do checo Tomás Stanek.

Pedro Pichardo só fez três saltos e num deles colocou o recorde nacional do triplo salto em 17,60 metros, retirando 12 centímetros à marca que tinha estabelecido na no primeiro salto da qualificação.

O atleta do Benfica revalidou o título europeu conquistado em Torun 2021 (a primeira medalha como português), tornando-se assim o segundo bicampeão português indoor, depois de Nelson Évora ter arrebatado os títulos em Praga 2015 e Belgrado 2017. "O mais importante é sempre a vitória, era o principal objetivo. Estou feliz em voltar a ser campeão europeu de pista coberta. Bati o recorde nacional, estou feliz", afirmou Pichardo, na zona mista da Ataköy Arena.

Pedro Pichardo saltou 17,60 metros - melhor marca mundial do ano - na terceira tentativa, depois de ter iniciado o concurso com 17,26m e abdicado dos segundo, quarto e quinto ensaios, encerrando com um nulo. "O objetivo era três saltos, tentar ganhar, e depois ver se conseguia um grande salto (...) Tentei fazer um salto grande. Infelizmente foi nulo e não seria tão grande quanto esperava. Mas, não é verão. Vamos tentar no verão fazer um...", disse o campeão olímpico, mundial e europeu ao ar livre.

Pichardo superou o grego Nikolaos Andrikopoulos (16,58m) e o alemão Mark Hess (16,54m) nos lugares de pódio. Tiago Pereira terminou no quarto lugar, com 16,51m, a sua melhor marca do ano. "Sinto-me frustrado, por ficar ali tão perto das medalhas. As marcas que deram as medalhas estão ao meu nível e eram possíveis. Não vou ao pódio e sou eu o único culpado. Ainda estou a procurar os tempos certos dos saltos e sinto que bastava o meu melhor para estar lá em cima, no pódio", confessou o atleta do Sporting, agora treinado por Iván Pedroso (antigo campeão cubano, que treina Nelson Évora).

Pichardo celebrou o título europeu praticamente em simultâneo com Auriol Dongmo, que também revalidou o título. As lágrimas eram de alegria, mas também sinal de superação. "Não estava a correr como eu queria. Queria lançar acima dos 20 metros. Mas, agora, estou muito contente porque sinto que estou a voltar ao meu nível. Foi um bocado difícil a época", reconheceu Auriol.

A campeã europeia e mundial indoor começou o concurso a lançar 19,63 metros, seguindo com 18,68m até lançar alcançar os 19,76m - melhor marca europeia do ano -, que lhe valeram o segundo título europeu consecutivo. E depois de um nulo no quarto lançamento, concluiu a competição com 19,38m e 19,62m. Crónica insatisfeita, Auriol admitiu ter ficado "feliz por conseguir lançar acima de 19,50".

E quase festejou a dobrar. A amiga Jessica Inchude terminou a competição no quarto lugar, com 18,33m, atrás da alemã Sara Gambeta (18,83m) e da sueca Fanny Roos (18,42m): "Ficar em quarto lugar é a minha medalha!"

Arialis Martinez ficou à porta das medalhas na final dos 60 metros. Na estreia por Portugal e em provas indoor a velocista de 27 anos igualou o recorde nacional de Lorene Bazolo ao completar a prova em 7,17 segundos. "Trouxe-me tantas emoções que tenho a certeza de não conseguir dormir", disse a atleta do Benfica, que se tornou a primeira portuguesa a chegar a uma final dos 60 metros em Europeus de atletismo indoor.

Terminou em quinto lugar e superou (de longe) os 13.ºs lugares alcançados por Virgínia Gomes (Lievin 1987) e Bazolo (Glasgow 2019). "Tínhamos pensado, a minha treinadora, Ana Oliveira, e eu, em fazer o recorde de Portugal. Foi igualado. Era a primeira vez que estava num campeonato assim, e a correr indoor. E sim, tinha pensado que era possível", afirmou a velocista, confessando: "Posso aperfeiçoar a partida, mas foi a minha corrida ideal."

Arialis começou o dia a vencer a sua eliminatória e a apurar-se para as meias finais (tal como Lorene Bazolo e Rosalina Santos), em que ganhou um lugar na final aos correr os 60 metros em 7,24s. Tempo que lhe permitiu ser repescada para a final, onde foi 5.ª, atrás da suíça Mujinga Kambundji, da polaca Ewa Swoboda, da britânica Daryll Neita e da belga Rani Rosius.

Pela primeira vez Portugal conseguiu ter três atletas nas meias finais dos 60 metros. A felicidade de Arialis contrastou com a desilusão da recordista nacional Lorene Bazolo, de 39 anos, e de Rosalina Santos, de 25, eliminadas nas semifinais. Bazolo encerrou a participação com o 17.º tempo, com 7,34 segundos, um centésimo a menos do que Rosalina Santos, 20.ª.

Patrícia Mamona defende sábado (16.50, RTP2) o título europeu conquistado em Torun 2021. A atleta portuguesa apurou-se para afinal do triplo salto, com 14,09 metros, a mesma marca conseguida pela turca Tugba Damismaz, que beneficiou do nulo da portuguesa.

A recordista nacional e vice-campeã olímpica em Tóquio 2020, que acabou por abdicar do terceiro e último salto, chegou a Istambul no primeiro lugar do ranking entre as inscritas e com a melhor marca europeia do ano. Mamona está a disputar os seus sextos Europeus de pista coberta, tornando-se na segunda portuguesa com mais presenças, apenas superada pelo antigo velocista Luís Cunha, sendo a primeira entre os atletas no ativo.

Já Marta Pen prometeu cobiçar as medalhas nos 1500 metros (17.00, RTP2)."É para isso que estamos nos Europeus, primeiro chegar cá, depois chegar a uma final e, quando lá estamos, interessa ser medalha", afirmou a atleta do Benfica, após assegurar um dos 12 lugares na final da distância, com 4.23.30 minutos.

Ainda na sexta-feira, Gerson Baldé falhou a final do salto em altura. Com a marca de 2,14 metros, o atleta acabou entre um lote de nonos classificados, conseguiu a melhor classificação de sempre de um português nesta especialidade, superando o 26.º lugar de Rafael Gonçalves em Viena 2002, então entre 28 participantes. "Foi a minha primeira competição. Estava a sentir-me bem, foi um nono lugar. Os oito primeiros já davam, mas não deu. Agora é trabalhar para o verão", declarou o campeão nacional do Benfica.

Também João Coelho falhou o apuramento para a final dos 400 metros, depois de se ter apurado para as semifinais com um novo recorde nacional de 46,51 segundos, menos 13 centésimos que a anterior marca que era de Ricardo Santos.

Olímpia Barbosa (60m barreiras), Evelise Veiga (salto em cumprimento) e Carlos Nascimento (60m) e Abdel Larriaga (60m barreiras) e Patrícia Silva (800m) entram sábado em ação, nos europeus de Istambul.

isaura.almeida@dn.pt

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