"Ter sete velocistas portugueses nos Campeonatos da Europa de atletismo em pista coberta é único e histórico. No caso dos 60 metros femininos, todas conseguiram a qualificação direta, não foi pela quota ou ranking, foi muito mérito delas o que é extraordinário". As palavras são do técnico nacional de velocidade, João Abrantes, que, ao DN, confessou que tanto Lorene Bazolo como Rosalina Santos e Arialis Gandulla podem "chegar a uma final" nos Europeus que arrancam quinta-feira, em Istambul, na Turquia. Portugal defende três títulos: Pedro Pichardo (triplo salto), Patrícia Mamona (triplo salto) e Auriol Dongmo (lançamento do peso)..O mérito do trio vai para lá dos resultados. É preciso olhar para o que está por detrás de cada marca destas atletas para entender o que passaram para estarem no topo e chegarem a Istambul em posição de brilharem. Desde sobreviver a uma Guerra Civil, a lidar com um tumor, a superar uma gravidez ou conciliar a missão de salvar vidas com uma carreira de atleta. E todas com essa dificuldade em comum: a de ultrapassarem a falta de documentos e o estigma de serem portuguesas não nascidas em Portugal..Natural de Brazzaville, filha de pai congolês (diretor de uma universidade de desporto) e mãe do Benim (trabalhava no ministério do desporto), Bazolo viveu a guerra civil do Congo antes de se mudar para o Benim, após a morte da mãe. Licenciada em Administração, começou a correr aos 24 anos e chegou a Lisboa aos 30. Tornou-se a mulher mais rápida de Portugal nos 60, 100 e 200m, melhorando uma marca que tinha mais de 25 anos, com ajuda do treinador Rui Norte (também treina Rosalina Santos)..Lorene chega a Istambul a dois meses de fazer 40 anos e depois de fazer a melhor época de sempre: "Bateu o recorde de Portugal, o que é extraordinário para um velocista, seja homem ou mulher. É uma atleta muito experiente.".A recordista nacional não descarta ir a Paris 2024, está em crescendo e aparece como 18.ª melhor entre as inscritas, cinco lugares abaixo de Rosalina Santos, a atleta do Sporting que bateu várias vezes o seu recorde pessoal e tem feito "uma época espetacular" com muitas marcas abaixo dos 7.30 segundos, segundo João Abrantes..Filha de pai madeirense e de mãe sul africana, a residir na Madeira desde criança, Rosalina teve um início atribulado por não ter nacionalidade portuguesa. E superou um tumor no útero, que a afastou das pistas durante quase dois anos. Não desistiu e tornou-se uma velocista de grande futuro. Segundo o selecionador, a mais jovem das velocistas (25 anos) é aquela que beneficia mais com a distância dos 60 metros, uma vez que parte bem e é forte na aceleração inicial..Portugal poderá ter um resultado de relevo nos 60 metros, já que Arialis Gandulla chega como quarta melhor das inscritas. Aos 27 anos fez um brilharete há dias, nos nacionais de Pombal, com o recorde pessoal de 7,18 segundos, a um centésimo do recorde nacional... de Lorene Bazolo. Treinada por Ana Oliveira, a portuguesa nascida em Cuba estreia-se por Portugal e na pista coberta o selecionador admite que ela tem "imensa qualidade", e será "mais forte ainda nos 100 e 200 metros"..Arialis chegou a Portugal em 2018. Passou por momentos difíceis a nível pessoal e profissional. Estava grávida de Pedro Pablo Pichardo - o campeão olímpico do triplo salto -, e além das implicações físicas inerentes à maternidade e à ausência de treino e competição, só voltou às pistas recentemente. Após assinar pelo Benfica nem tudo foram rosas. Separou-se de Pichardo e teve uma lesão grave, uma fratura de stress que a obrigou a fazer duas cirurgias à tíbia esquerda, que lhe comprometeram o regresso às pistas. Voltou a competir em outubro e desde então fez mínimos diretos para os Europeus meia dúzia de vezes, entrando no projeto Olímpico Paris 2024..E há mais. Olímpia Barbosa vai estar nos 60 metros barreiras. Natural de São Tomé e Príncipe, a atleta leonina de 27 anos é bombeira profissional nos Sapadores de Lisboa e está habituada a ultrapassar barreiras. Uma delas é fazer turnos de 24 horas, onde as chamadas de emergência não lhe dão descanso. As folgas são divididas entre descanso e treino, e tem de lutar contra o desgaste físico e mental de salvar vidas e representar Portugal..No masculino, a velocidade está representada por Carlos Nascimento (60 metros), Abdel Larrinaga (60 metros barreiras) e João Coelho (400 metros). "A velocidade portuguesa evoluiu muito. Portugal podia perfeitamente ter 10 velocistas nestes campeonatos, mas houve problemas de última hora com alguns", revelou João Abrantes, destacando o nível do treino, uma consequência de ter treinadores de excelência e as condições de treino, nomeadamente no Centro de Alto Rendimento do Jamor, como segredos, se é que há segredos para os bons resultados..Mas, segundo o técnico nacional, "ainda falta aparecer um atleta que seja regular nos resultados e possa disputar medalhas", como Francis Obikwelu, medalha de ouro nos 100m, nos Campeonatos da Europa de atletismo de 2002..É a maior delegação de sempre de atletas portugueses em Campeonatos Europeus de atletismo de pista coberta e pode muito bem ser a mais bem-sucedida. Dos 22 atletas presentes em Istambul (entre hoje e domingo) - mais quatro do que em Viena 2002 - há três a defender os títulos conquistados em 2021: Pedro Pablo Pichardo e Patrícia Mamona no triplo salto, e Auriol Dongmo no lançamento do peso. Mas nem só de ouros vive a ambição lusa. Arialis Gandulla, Jéssica Inchude, Isaac Nader e Marta Pen apontam a um lugar entre os finalistas na Atakoy Arena e a superar o número de finalistas.O atleta do Benfica e campeão olímpico do triplo salto, que entra já hoje em ação, é mesmo uma das grandes figuras dos Europeus, a par dos noruegueses Jakob Ingebrigtsen e Karsten Warholm, depois da renúncia do sueco Armand Duplantis, o rei da vara, que há dias voltou a bater o recorde mundial (6,22 metros). Pichardo admitiu que não está a 100% e que ponderou não ir a Istambul, mas não esquece que foi nos Europeus indoor de há dois anos que conquistou a primeira medalha para Portugal..Chega como campeão olímpico, mundial e europeu e sem rivais à altura. Bastaram os 17,12 metros com que venceu no Nacional de Clubes, na única vez que saltou esta época, para liderar a lista de 18 inscritos. Tem a companhia de Tiago Luís Pereira, que tem como recorde pessoal 17,11 mas somente 16,48 nesta época de inverno..Aos 29 anos, Pichardo continua a ambicionar chegar aos 18,29 metros estabelecidos como recorde do mundo pelo britânico Jonathan Edwards, precisamente com essa idade, em 1995: "Em dois anos, fiquei pertinho mas não consigo passar os 18. Fiz 17,98, nos Jogos [Olímpicos de Tóquio 2020], 17,95 no ano passado. Estou aí pertinho.".No triplo feminino, Patrícia Mamona parece condenada a ganhar, com os 14,41 metros que conseguiu em fevereiro. A vice-campeã olímpica em Tóquio 2020 torna-se hoje a atleta no ativo com mais participações em Europeus (cinco de 2013 a 2023) e pode beneficiar das renúncias das melhores adversárias, as italianas Danya Derkacah e Ottavia Cestonaro, e a turca Tugba Danismaz. "Lembro-me de antes dos Jogos Olímpicos ter escrito que ia fazer 15 metros e saiu. Agora tenho escrito, é segredo, mas sei que estou a valer muito mais do que 14,53", confessou Mamona..Menos facilitada é a tarefa de Auriol Dongmo no peso, que tem 19,24 metros esta época, menos um centímetro do que a neerlandesa Jessica Schilder, a grande rival. "Já ganhei há dois anos, quero ganhar outra vez", atirou Auriol, que tem a companhia de Jessica Inchude e Eliana Bandeira no peso. No masculino, apenas Francisco Belo representará Portugal, que volta a ter uma lista significativa no meio fundo..A excelência da forma de Isaac Nader e, sobretudo, de Marta Pen, prometem ressuscitar os 1500 metros de vez. Marta Pen, que bateu por duas vezes o recorde pessoal nos 3000 metros, vai estar nos 1500 metros "muito motivada" e pode intrometer-se na luta pelo bronze, atrás das britânicas Laura Muir e Katie Snowden..isaura.almeida@dn.pt