Auriol Dongmo. A devota de Fátima com braço de ferro sagrou-se campeã da Europa

Nasceu nos Camarões e naturalizou portuguesa. Estreou-se a competir por Portugal nos europeus de Torun com uma medalha de ouro ao lançar o peso a 19.34m. Jogou andebol e basquetebol até ser desafiada a lançar o peso. Primeiro não gostou, agora quer fazer história na modalidade e em Tóquio 2021.

Auriol Dongmo Auriol Dongmo é campeã da Europa do lançamento do peso. A emoção tomou conta dela no último lançamento. Quando foi fazer o último lançamento ela já sabia que era campeã da Europa e por isso assim que lançou o peso deu um passo em frente e caiu de joelhos com os braços no ar. Os festejos não foram muito efusivos, mas o objetivo estava cumprido: ouvir A Portuguesa!

É a primeira medalha de ouro do atletismo português nesta disciplina e a primeira de Portugal nos Europeus de Atletismo de Pista Coberta, em Torun, na Polónia. O ar chateado a cada lançamento revelava a insatisfação pelas marcas conseguidas apesar dos lançamentos serem sempre acima dos 19 metros. O primeiro lançamento foi para aquecer (nulo), o segundo foi a 19.21m e deu-lhe a liderança, o terceiro foi 19.07m, o quarto 19.08m, o quinto a 19.34m e o último foi nulo.

"A Auriol é uma atleta muito talentosa, fisicamente muito forte e muito dotada, é uma força da natureza e uma atleta que é dedicada ao trabalho. É ambiciosa e tem uma característica muito importante, gosta da grande competição e tem uma grande capacidade de superação nos momentos mais importantes. Quando é colocada perante um desafio importante, dá uma boa resposta, por isso é uma atleta de excelência."

Esta descrição feita pelo seu treinador, Paulo Reis, ao DN em julho é revelador daquilo que aconteceu na Arena de Torun. A atleta do Sporting liderava o concurso com 19.21m quando a sueca Fanny Roos lhe roubou a liderança com 19,29m. Pressionada e já com a prata garantida ela mandou o peso até 19.34m retomando o lugar que era dela desde o início e conquistando o ouro na estreia com as cores portuguesas. A medalha de prata foi para a sueca Fanny Roos, com 19,29, e a de bronze para a alemã Christina Schwanitz, com 19,04mm.

"Olhei para ela [a sueca Fanny Roos, medalha de prata após bater o recorde nacional com um lançamento de 19,29 metros], e para a marca, e disse para mim: 'Auriol', o primeiro é o teu lugar, não é de mais ninguém, e lancei com isso na minha mente", contou a atleta, citada pela Federação Portuguesa de Atletismo, que tem como melhor marca 19.65 e no aquecimento chegou a lançar 19.80m.

Em 2020 lançou o peso em 17 provas e ganhou 16. Em agosto atingiu os 19,53 metros, batendo o recorde nacional e fechando a época como melhor atleta mundial do ano no peso, condição com que se apresentou nos europeus. No Grande Prémio do Brasil, em dezembro, lançou a 18,57 metros, marca que lhe valeu a qualificação olímpica. Em 2021 sagrou-se campeã da Europa e mostrou que é um caso sério para as medalhas nos Jogos Olímpicos Tóquio2021.

Facebook, Sporting, Fátima

Portuguesa de coração, devoção e papel passado desde outubro de 2019, chegou a Portugal em 2017 para representar o Sporting, fruto de uma arrojada iniciativa pessoal. Apesar de não gosta de redes sociais, a atleta criou um perfil no Facebook só para contactar os leões. O clube respondeu e ela viajou para Lisboa, mas rápido se mudaria para Leiria onde vive e treina com Paulo Reis e com muitas idas a Fátima. "Sou muito católica e a religião é muito importante para mim. Sempre adorei Portugal por causa de Nossa Senhora de Fátima. Depois, quando o Sporting me contactou, vi a oportunidade de conhecer Portugal e Fátima", confessou ao DN no verão.

Com braço forte e lançamento longo, começou no andebol e no basquetebol até um professor de Educação Física a desafiar a lançar o peso. Mas Auriol estava reticente. Não tinha gostado da experiência. Mas tanto a "chatearam" de que "tinha talento para lançar" que a convenceram. E em 2007 ela dedicou-se ao lançamento do peso e do disco, para depois e se fixar apenas no peso.

Em Portugal não demorou a mostrar que aposta tinha sido ganha. Os primeiros tempos "foram de sonho" e as marcas promissoras, bem acima dos 17 metros, mas em 2018 ficou grávida e teve de interromper a competição. Apesar disso, o Sporting manteve a aposta na atleta e ela retomou a competição em 2019. A maternidade obrigou-a a um plano alternativa, mas em 2020 bateu o recorde nacional por três vezes.

Em janeiro, em Pombal, bateu a marca de Jéssica Inchude ao ar livre (17,54 metros) e o recorde de Teresa Machado (17, 28 metros), ao conseguir 18,02 na sua primeira prova. Em fevereiro, na Alemanha, lançou o peso a 18,31 metros, e novamente em Pombal lançou o peso a 18,37 metros. Uma marca que lhe valeu o primeiro título nacional e estabeleceu novo recorde de Portugal. Agora é campeã da Europa.

24ª medalha para Portugal

A medalha de ouro de Auriol eleva para 24 as medalhas de Portugal em Campeonatos da Europa em pista coberta, sendo a primeira de sempre em lançamentos. A maioria de medalhas de ouro fica ainda mais reforçada, com 13, contra nove de prata e somente duas de bronze.

O meio-fundo curto (800, 1500 e 3000 metros) ainda domina, com 13 medalhas, seguido pelos saltos, com oito. Uma medalha apenas para a velocidade, com Francis Obikwelu, uma para as provas combinadas, através de Naide Gomes, e agora uma para os lançamentos, com Dongmo.

O único atleta português com três títulos continentais é Rui Silva, mais um do que Fernanda Ribeiro, Nelson Évora e Naide Gomes, que contribuem com dois cada para o total luso de ouro. Estes quatro atletas e Carla Sacramento são os mais medalhados de sempre nesta competição, assegurando mais de 70% dos pódios.

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