Pedro Pichardo. O desertor cubano que escolheu Portugal é campeão da Europa

Luso-cubano conquistou a segunda medalha de ouro para Portugal nos Europeus de Atletismo de Pista Coberta, em Torun, Polónia. Saltou 17.30 metros. Ana Oliveira define-o assim: "Ele nasceu para vencer e conquistar o lugar mais alto do pódio. Felizmente através do Benfica descobriu Portugal e a liberdade para o fazer. É reservado e grato! Focado e determinado."

Sobrinho de Pio Pichardo que um dia salvou a vida a Che Guevara durante uma emboscada no Congo, a bagagem de vida do desertor cubano Pedro Pablo Pichardo é pesada, mas fica mais leve a cada salto como português. Este domingo voou para lá dos 17 metros (17.30) e conquistou a medalha de ouro para Portugal nos Europeus de Atletismo de Pista Coberta.

"Ele nasceu para vencer e conquistar o lugar mais alto do pódio. Felizmente através do Benfica descobriu Portugal e a liberdade para o fazer. É reservado e grato! Focado e determinado. Tem um sentido de família que une, protege e muito nos orgulha. Como portugueses também nos deviamos sentir gratos e orgulhosos por atletas como o Pedro escolher o nosso país, a nossa cultura e os nosso valores. Este é um dia muito especial para o Pedro. Pela primeira vez cantou o hino da pátria que o acolheu. A historia comecou a escrever -se hoje", elogiou ao DN, Ana Oliveira do projeto Olímpico do Benfica.

Desertou em abril de 2017 durante um estágio da seleção cubana em Estugarda (Alemanha). A notícia correu mundo. Era um das maiores promessas do atletismo cubano e do triplo salto, vice-campeão mundial e ficou impedido de representar o país a nível internacional e de regressar à ilha durante oito anos.

Ele ficou "em parte incerta" e o destino só foi conhecido mais tarde. Lisboa e Benfica. O clube da Luz conseguiu-o desviar do Barcelona e apresentou-o como vice-campeão mundial em 2013 e 2015 e um dos cinco triplistas que já voaram para lá de 18 metros.

Pichardo já tinha entrado em rota de colisão com a Federação Cubana de Atletismo em 2014. Queria abandonar o técnico Ricardo Ponce e passar a ser treinado pelo pai (Jorge Pichardo, hoje seu treinador no Benfica), mas acabou suspenso por seis meses. Isso não abalou a ascensão. Ele estava destinado a altos voos. Em 2015 subiu ao pódio nos Mundiais de Pequim, lado a lado com Nelson Évora (medalha de bronze) e de Christian Taylor (ouro) e aguardava-se com alguma expectativa pela presença nos Jogos Olímpicos Rio2016, que falhou por lesão.

A rivalidade com Nelson Évora e a naturalização

Contratado para substituir Nelson Évora, que tinha ido para o Sporting deixando o Benfica em brasa, o saltador foi anunciado no dia 26 de abril. Tinha 23 anos. A naturalização demorou apenas alguns meses ao abrigo de um inicial estatuto de refugiado. A 7 de dezembro Pichardo já era português, mas ainda teve de esperar quase ano e meio para competir com as cores nacionais.

As regras da World Athletics preveem um período de 3 anos sem competir internacionalmente para os naturalizados, mas há exceções e o clube da Luz chegou a atacar a Federação de Atletismo por não lutar pela rápida integração do luso-cubano nas provas internacionais - falhou os Mundiais Indoor de Birmingham e os Europeus de Berlim e de Gasgow - dando a entender que estaria ligado à polémica com Nelson Évora, que considerou a naturalização de Pichardo "um ataque pessoal".

O cubano estreou-se com as cores portuguesas em agosto de 2019 com uma vitória no Europeu de Nações de atletismo, em Sandnes, na Noruega ao saltar 16.98. Desde então, seja pelo Benfica ou por Portugal tem estado sempre nos primeiros lugares. Desiludiu nos mundiais ao ar livre de 2019 com um quarto lugar, mas vingou-se agora no europeu. A próxima missão dá pelo nome de Jogos Olímpicos Tóquio2021, no verão.

Gosta do sol do Algarve por lhe lembrar a terra onde nasceu, Santiago de Cuba. Estava sempre na rua, a brincar com os amigos, a jogar beisebol, futebol, às caricas até que um dia a minha irmã Rosalena, que cuidava dele e começou a levar ao treinos de atletismo. "Aos 6 anos comecei por brincadeira e aos 7 passei a treinar corrida mais a sério. Só começo a fazer triplo salto com 14 anos em Santiago. Aos 18 fui para Havana", contou em entrevista ao DN, onde explicou que fugiu do país de origem por considerar que o regime cubano não lhe permitiria ir mais longe.

E ele nunca o escondeu que o seu grande sonho é bater o recorde mundial da disciplina (Jonathan Edwards, 18.29 metros, agosto de 1995), mas em entrevista ao DN em 2019 ele aponta mesmo ao 19 metros. Será?

Qualquer um dos saltos valia o ouro na final de Torun

Qualquer um dos saltos lhe daria o ouro e isso diz bem da supremacia do luso-cubano, um dos três atletas a saltar acima dos 17 metros na final. Abriu o concurso com um salto de 17.30 metros, depois fez um nulo e a seguir saltou 17.08m e 17.06m. No quinto salto optou por não ir e fechou com 17.12m.

A prata foi para Alexis Copello (Azerbaijão), que saltou 17.04 m e o bronze para Max Heb (Alemanha), com 17.01m.

O atleta do Benfica só tinha precisado de um salto com 17,03 m para garantir a presença na final mostrando que é de longe o melhor europeu do triplo salto e dizendo alto e bom som que o objetivo era ganhar o ouro e ser o melhor do mundo. O primeiro objetivo foi conseguido, mas o ar chateado com que terminou a prova mostra como ele esperava mais dele próprio. Afinal ele é um dos cinco triplistas a nível mundial que já voaram para lá de 18 metros (18,08, que se mantém como o seu atual recorde pessoal e que foi conseguido em Havana).Nos mundiais ao ar livre desiludiu com um quarto lugar, agora vingado com o ouro europeu.

Segunda medalha de ouro para Portugal, a 25.ª no geral

É a segunda medalha de ouro para Portugal nestes Europeus de Atletismo de Pista Coberta, depois do ouro conquistado por Auriol Dongmo no lançamento do peso e a 25.ª em todas as edições dos campeonatos (14 de ouro, nove de prata e duas de bronze). É a segunda vez na história que o atletismo nacional arrecada dois ouros num europeu indoor, depois de Fernanda Ribeiro (3000m) e Carla Sacramento (1500m) em 1996.

No que ao triplo salto masculino diz respeito esta é a terceira vitória de sempre em Europeus de Pista Coberta nas últimas quatro edições, depois dos triunfos de Nelson Évora em 2015 (Praga) e em 2017 (Belgrado).

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