Horas depois de Portugal ter protagonizado um dos maiores feitos do Europeu de andebol — vencendo os tetracampeões mundiais Dinamarca, em pleno pavilhão esgotado e diante de um ambiente considerado quase religioso para a modalidade — Paulo Pereira explicou o que aconteceu. Entre análise tática, gestão emocional e ambição competitiva, o selecionador nacional abriu a porta aos bastidores de um grupo que se tem habituado a derrubar impossíveis e que agora prepara o main round com Alemanha, França e Espanha no horizonte. A vitória, garante, não foi sorte nem devaneio: foi plano, crença e trabalho..Portugal vence Dinamarca e está na Ronda Principal do Europeu de andebol.O que é que passou na cabeça do selecionador nacional hoje durante o jogo com a Dinamarca?Nós, quando estamos a jogar, não estamos a olhar muito ao impacto que possa ter a vitória ou a derrota nesse jogo. Estamos a jogar sempre procurando que todos sigam o plano de jogo ou, se tivermos alguma adaptação, fazemo-la. Portanto, tivemos tantas coisas em que pensar em tão pouco tempo, que não tivemos tempo para pensar no impacto que possa ter a vitória. Agora, neste momento, já sei que teve um impacto grande, porque nós estamos a falar de vencer... a Dinamarca! A Dinamarca, num pavilhão com 15 mil pessoas, num país em que o andebol é uma religião. São os atuais tetracampeões do mundo. É disto que estamos a falar. Tem um impacto brutal. Mas, durante o jogo, só pensamos o que é que estamos a fazer mal, o que temos de corrigir o que é que temos de fazer melhor, ou o que é que está a sair fora do plano de jogo para nos reencontrarmos. Agora sim, percebo que foi muito bom para Portugal, uma vez mais, o andebol ter elevado tão alto o nome do país. O que é que transmitiu aos jogadores antes do jogo?Eu estive a ver, seria mentiroso se não dissesse isso, o jogo da Roménia contra a Macedónia. Para ver se haveria ali uma diferença de golos enorme que nós depois tivéssemos de superar ou, pelo menos, terem atenção durante o jogo com a Dinamarca.Mas, a mim, nunca me passou pela cabeça não passar à fase seguinte, eu sabia que nós íamos conseguir. Se calhar, muita gente teria dúvidas, eu nunca tive. Agora, nós também equacionámos a hipótese de poder vencer a Dinamarca, que é uma coisa um bocadinho louca, mas nós falámos sobre isso entre nós, e eu tenho andado a dizer isso há algum tempo, que a Dinamarca algum dia tem de perder. Portanto, porque não com Portugal? Aconteceu porque nós fizemos bem as coisas. Nós, como eu disse antes, seguimos o plano religiosamente, adaptámos o que tivemos de adaptar. Tivemos um trabalho defensivo fantástico e, depois, no ataque, foi uma coisa brutal a forma como os nossos atletas jogaram. Eu já recebi felicitações de treinadores estrangeiros que são campeões da Europa, de clubes, por exemplo. Acharam o grupo extraordinário em todos os níveis, mas sobretudo também em termos defensivos. Portugal está de parabéns mais uma vez e recomenda-se. Apesar da felicidade e da euforia que imagino estejam todos, ainda hoje, a viver, agora muda tudo, não é?Agora nós vamos para o main round. E no main round vamos ter de defrontar equipas do melhor que há, a nível europeu, que acaba por ser o melhor nível mundial. Claro. A qualidade do andebol está na Europa e nós vamos ter de jogar contra a Alemanha, para já, depois contra a França, contra a Espanha. Vão ser jogos de altíssima intensidade, altíssima exigência. Hoje eu usei um grupo de jogadores não muito grande, porque são os jogadores que neste momento nos dão mais garantias. Nós temos um grupo de atletas jovem que estão aqui para pouco a pouco ficarem prontos. Vamos lá ver como é que nós conseguimos gerir isto numa competição que tem um dia de intervalo entre jogos. Todos hoje percebemos que quando fazemos bem as coisas qualquer resultado pode acontecer a nosso favor.Mas também tem aquela responsabilidade de quem ganha a Dinamarca tem de ganhar aos outros todos?Não, isso é para as pessoas que não sabem o que é isto de andar no desporto de alto nível. Podemos fazer tudo bem e perder por um ou por dois. Às vezes não é a forma como se faz, porque são equipas com uma valia extraordinária e é muito difícil. Temos de fazer mesmo tudo bem e eu acho que hoje nós fizemos quase tudo bem para poder vencer este jogo. E não sei se vamos conseguir manter esta constância de fazer sempre tudo bem, porque há sempre jogos que há sempre um dia mau nestas competições. Acha que o jogo com a Macedónia do Norte foi um dia mau?Para nós foi um dia, não diria mau, mas um dia diferente. Ali houve uma série de fatores que fizeram com que nós não jogássemos aquilo que podemos jogar. Nós sabemos disso, portanto, deixámos fugir uma vantagem que criámos e isso é um pouco aquilo que tivemos de melhorar. Contra a Macedónia nós não controlámos este ritmo de jogo. Portanto, hoje fizemos muito melhor esta parte..O que é que disse aos jogadores no final deste jogo?Quem anda num desporto de alto nível não pode ficar demasiado contente quando ganha nem demasiado triste quando perde. Porque no dia seguinte está a jogar outra vez. As emoções, vamos aprendendo um pouco a controlá-las porque isto só acaba daqui a duas semanas. Mas já estamos felizes por termos atingido o primeiro objetivo que era passar ao main round. Mas a alegria dura pouco. Estamos felizes, muito felizes, mas dura pouco. Amanhã continuamos.Neste seu percurso enquanto selecionador nacional e com todos os resultados que o andebol português tem tido, tem valido a pena ter chamado aos seus jogadores “heróis do mar”? Espero que o nome continue a perdurar como sendo uma marca fiável, uma marca respeitada. Este andar aí a desbravar os mares não é tarefa fácil. Se nós conseguíssemos chegar aos calcanhares daqueles que andaram a descobrir terras que ninguém sabia que existiam isso já seria fantástico. Acho que foi uma boa ideia que tive na altura e ela perdura e, se perdurar no tempo, alguma coisa já fiz. Mas sempre com a ajuda dos heróis do mar porque os verdadeiros heróis são os atletas que operacionalizam tudo aquilo que nós vamos pensando com eles também.Aqui em Portugal muitas pessoas já seguem o andebol e estiveram muito atentas à seleção nacional. O que é que quer dizer aos portugueses nesta altura do campeonato? Que aqueles típicos céticos façam o esforço para nos ajudarem um pouco mais porque às vezes ajudam pouco. E a grande maioria, que são aqueles que estão connosco sempre nos momentos bons e nos momentos menos bons, um agradecimento profundo, sobretudo, àqueles que estiveram presentes aqui hoje. Eram poucos, mas ouviam-se muito bem. Parece que não, mas é aquela ajudazinha que às vezes precisamos para poder marcar mais um golo ou ter aquela energia. Mas de uma forma geral, os céticos são uma exceção e nós sentimos que a maior parte dos portugueses estão connosco e identificam-se com a forma como nós lutamos, como nós orgulhamos as pessoas, como nós batalhamos para que o nosso país chegue um pouco mais a todo lado, como algo importante, como algo que merece a pena respeitar e, portanto, é esse o nosso papel que temos vindo a desenvolver durante estes anos todos. .Portugal vence Dinamarca e está na Ronda Principal do Europeu de andebol.Entrada à campeão no europeu de Andebol: Portugal impõe-se à Roménia