Foi difícil para o adepto do Grémio conter o entusiasmo quando, em dezembro de 2025, o treinador português Luís Castro foi anunciado como o novo treinador do emblema de Porto Alegre para a época de 2026. Com boas credenciais no Brasil, onde anos antes havia colocado o Botafogo como uma das equipas mais fortes da América Latina, o técnico voltava ao país onde brilhara em 2023 rodeado de expectativa. Seis meses depois da sua chegada ao clube gaúcho, no entanto, a vida de Castro à frente do Grémio não tem sido fácil, com os maus resultados a colocarem o clube à porta da zona de despromoção.Até ao momento, o português comandou a nova equipa em 36 partidas, obtendo um saldo de 15 vitórias, 11 empates e 10 derrotas. Embora tenha conquistado o Campeonato Gaúcho diante do rival Internacional e tenha mantido o clube vivo na Copa do Brasil e na Copa Sul-Americana, há um consenso que une imprensa, adeptos e o próprio treinador: o trabalho está abaixo do esperado.A crítica mais dura, aliás, partiu do próprio Luís Castro. Após a derrota por 2-1 frente ao Palmeiras, em abril, o português foi questionado sobre o aproveitamento da equipa no Brasileirão e respondeu de forma surpreendentemente direta. "É um trabalho fraco. Pela pontuação, os números não mentem, estou a fazer um trabalho fraco", admitiu, antes de reconhecer que a temporada seria difícil e exigiria paciência por parte dos adeptos.Desde então, o cenário apenas se agravou. O Grémio entrou numa sequência irregular, acumulou exibições pouco convincentes mesmo quando somava pontos e chegou à pausa para o Mundial depois de uma derrota por 3-1 em casa diante do Corinthians, no último sábado, 30 de maio. O resultado deixou os gaúchos na 16.ª posição, apenas um ponto acima da zona de descida.E o que mais preocupa o adepto gremista não é só a a classificação, mas também a sensação de que, passados mais de seis meses de trabalho, a equipa continua sem uma identidade clara. A crítica tornou-se recorrente na imprensa de Porto Alegre, onde analistas apontam dificuldades na construção ofensiva, oscilações defensivas e uma incapacidade de transformar bons momentos em consistência competitiva. Alguns jornalistas, como Wallace Borges, da TNT Sports, já declararam que o Grémio pratica "o futebol mais irritante do Brasil". Na última partida, o treinador ouviu assobios tanto durante a divulgação das equipas, como após o apito final da derrota para o Corinthians. Depois do jogo, no entanto, garantiu que não pensa em abandonar o projeto e foi suportado pela direção do clube, que aposta em aproveitar a pausa do Mundial para corrigir problemas e recuperar o rendimento. "Nunca vou desistir. Em 24 anos de carreira como jogador nunca desisti. Em 30 anos de carreira como treinador nunca desisti. É uma questão de vida, uma questão de valores", afirmou.O cenário torna-se ainda mais delicado porque o Grémio procurou daro ao treinador jogadores experientes e alinhados com o seu perfil. No início da época, o clube foi ao mercado contratar jogadores como Weverton, Juan Nardoni, Tetê - que trabalhou com Castro no Shakhtar Donetsk - e manteve Carlos Vinícius, antigo avançado do Benfica que esteve em grande forma no início da temporada, mas perdeu rendimento nas últimas semanas. Ainda assim, os reforços não foram suficientes para transformar a equipa numa candidata aos lugares cimeiros da tabela, como muitos adeptos imaginavam no arranque do ano após o investimento.Se no Brasileirão o cenário é preocupante, nas taças a situação é menos dramática. O Grémio avançou na Copa do Brasil e segue vivo na Copa Sul-Americana, embora sem o brilho que os adeptos esperavam. Na competição continental, após ficar em segundo lugar na fase de grupos, terá agora pela frente a repescagem com o São Paulo para os oitavos de final, um percurso mais complicado do que o inicialmente projetado para um dos clubes mais tradicionais do país.Recorde-se que há três anos Luís Castro deixava o Botafogo como um dos treinadores mais valorizados do futebol sul-americano. Seguiram-se passagens pelo Al Nassr, ao lado de Cristiano Ronaldo, e pelo Al Wasl, dos Emirados Árabes Unidos e o regresso ao Brasil parecia o reencontro perfeito entre um treinador que conhecia o país e um clube que procurava recuperar protagonismo nacional.Por enquanto, porém, a segunda aventura brasileira do técnico português tem sido bem diferente da primeira, que agora terá a seu favor o calendário: com a pausa para o Mundial 2026, o Grémio terá mais de um mês sem jogos oficiais até ao regresso das competições. Sob pressão, Luís Castro dificilmente terá melhor oportunidade para tentar provar que continua a ser o mesmo treinador que encantou o Brasil há poucos anos.nuno.tibirica@dn.pt.Franclim Carvalho, o treinador português com início positivo no caos no Botafogo.Como o Flamengo se tornou o destino favorito dos treinadores portugueses no Brasil