Num momento em que o futebol vive cada vez mais da lógica financeira, dos direitos televisivos e dos grandes investimentos, José María Gallego defende que o crescimento da indústria não pode acontecer à custa do afastamento dos adeptos. Empresário, investidor e autor do livro O Futebol S.A., o antigo proprietário do Amora FC e atual dirigente ligado ao Bétis falou sobre a transformação do futebol num ativo financeiro, a realidade do futebol português, o papel dos adeptos, os desafios dos investidores e a importância de preservar a identidade dos clubes. Numa conversa com o Diário de Notícias, deixa uma ideia clara: sem paixão, o futebol perde o seu verdadeiro significado. O que o levou a escrever este livro? Porquê O Futebol S.A.? Eu queria reivindicar um pouco, enquanto pessoa que está dentro da indústria, que o futebol não pode ser visto apenas como negócio e que aquilo que o sustenta é a paixão e a alma dos adeptos. No fim de contas, é um negócio que pode crescer, mas sem adeptos não é nada. Se não houver pessoas que vão ao estádio, que compram bilhetes e pagam a entrada, se não houver pessoas a ver o jogo na televisão, não há direitos televisivos nem receitas para os clubes. Este não é um livro contra a indústria, nem contra o facto de o futebol ser um negócio global em crescimento, mas sim um livro que pretende lembrar que não podemos esquecer a sua essência de clube enquanto alma social, enquanto comunidade. É tentar que não se esqueça verdadeiramente o adepto. Como é que se consegue fazer com que uma indústria, de tantos milhões, consiga coexistir bem com essa paixão? Respeitando os símbolos, aquilo que faz com que a comunidade sinta aquele clube como seu. Neste momento há mais de 250 clubes no mundo que pertencem a modelos onde um dono tem vários clubes em diferentes países. Se esse proprietário achar que gerir um clube na Bélgica é igual a gerir um em Portugal ou em Espanha, está a cometer um erro, porque no final cada clube tem a sua própria essência, as suas tradições, a sua cultura. Eu costumo dizer uma frase que resume tudo: o adepto não é um cliente. Os clubes de futebol não podem olhar para o adepto apenas como alguém a quem se vende um bilhete mais caro ou uma camisola nova todos os anos. O adepto faz parte do clube. A indústria chega a um teto de crescimento de cerca de 3,5% ou 4% ao ano em receitas. Mas, se nos esquecermos de quem sustenta essa indústria e de quem a consome, o negócio cai.Essa relação de que fala entre os adeptos e os donos, e o facto de os adeptos acabarem também por se sentir donos, consegue tê-la no Bétis e também teve no Amora?O Bétis é um clube cuja propriedade é composta por um conjunto de empresários jovens que são do clube de nascença. Temos essa paixão. O adepto reconhece-nos como proprietários que preservam essa identidade.No caso do Amora é diferente, porque eu chego ao Amora como investidor. Nunca tinha estado no Amora, não conhecia a cidade, não tinha nenhuma ligação emocional ou tradição, e invisto no clube. O meu objetivo aqui era, logicamente, pelo menos não perder dinheiro, criar valor, valorizar o clube para um dia vender — como acabou por acontecer. Desde o primeiro momento, aquilo que tentei fazer foi absorver a cultura do Amora: um clube centenário, com raízes muito fortes, um clube que chegou à Primeira Divisão, que tem uma comunidade muito forte. Portugal é um mercado muito atrativo para investidores comprarem clubes, porque os clubes são relativamente baratos em comparação com outros mercados. E, para um país que não é muito grande, há uma enorme quantidade de talento para valorizar.O futebolista português é muito valorizado no mercado, adapta-se bem, encaixa facilmente noutros campeonatos. Os treinadores têm um nível muito alto, existe uma excelente formação em Portugal, e isso faz com que fundos internacionais olhem para o país como algo atrativo. Aliás, há um verdadeiro boom em Portugal na compra de clubes da Primeira, Segunda e até Liga 3..Disse que é muito mais barato comprar clubes em Portugal do que noutros países. Qual é, proporcionalmente, a diferença de valores entre um clube com as características do Amora em Portugal e em Espanha?Desde que comprei o Amora até à minha saída, a valorização de um clube da mesma categoria multiplicou-se por quatro. Só dentro de Portugal, em quatro anos.Mas, comparativamente, um clube da Liga 3 em Portugal, face a um clube da mesma divisão em Espanha — e tentando fazer uma comparação que nunca é exata, porque cada clube tem as suas particularidades — pode custar cerca de três vezes mais em Espanha.Em relação ao modelo de que falou há pouco, desta interação entre donos e adeptos, acha que isso é possível nos novos mercados, nomeadamente nos Estados Unidos e também nos países árabes? O futebol nasce na Europa e noutros países do mundo como algo comunitário, algo de bairro, uma identidade local — em alguns casos muito ligada ao bairro, como acontece na Argentina ou noutras cidades, onde as pessoas se juntam em torno de um clube. A partir daí, o clube cresce, conquista títulos, gera receitas, cria histórias.Nesses mercados é ao contrário: primeiro vem o dinheiro, depois nasce a paixão. O processo é inverso. Nesse sentido, ligas como a MLS ou a liga saudita, que hoje são ligas importantes e competem com a Europa e com o Brasil na atração de talento, funcionam assim: chega o dinheiro, atraem-se jogadores, criam-se marcas, constroem-se bons estádios e, a partir daí, as pessoas apaixonam-se por uma marca e seguem-na.Nestes países as pessoas seguem mais os jogadores enquanto ativos. E menos os clubes. O exemplo do Ronaldo é claro: tem mais de 600 milhões de seguidores nas redes sociais. O clube que tenha Ronaldo no plantel possui um ativo de marketing poderosíssimo para atrair marcas, patrocínios, receitas e adeptos em todo o mundo.Como é que se consegue fazer evoluir o futebol num país como Portugal, quando existe um fosso tão grande entre os grandes clubes e os mais pequenos? Se olharmos para o volume de espectadores da Liga portuguesa, comparando os três grandes com o resto, a diferença na proporção de adeptos e de assistência ao estádio é abismal.A afluência média aos estádios do resto das equipas não ultrapassa os 2.500 ou 3.000 adeptos por jogo. Quem faz subir a média são os três grandes. Mas há uma situação que eu acho que pode mudar um pouco as coisas. Nunca será algo totalmente igualitário, mas pode ajudar os clubes mais pequenos da Primeira Liga — excluindo os grandes — a crescer: a centralização dos direitos televisivos.Portugal, ao contrário de outros países, ainda não conseguiu alcançar esse acordo de centralização. E fala-se muito do Benfica, dizendo que é o clube que não quer, embora, sinceramente, nenhum queira verdadeiramente. E eu não justifico totalmente a posição dos grandes, mas também digo o seguinte: quando alguém sente que gera mais valor, pensa naturalmente “porque é que hei de ceder parte daquilo que é meu a quem gera muito menos?”. É uma postura egoísta, sim, mas também humana.Benfica, Sporting e Porto nunca vão deixar de ser os maiores. Mas, se conseguirem tornar a Liga mais competitiva e distribuir um pouco melhor os direitos — não totalmente, mas um pouco mais —, esses clubes vão conseguir contratar melhores jogadores. Talvez alguns jogadores deixem de querer sair tão cedo de Portugal porque também têm aqui salários mais competitivos e boas condições. Não há praticamente nenhum país do mundo que, ano após ano, consiga exportar tantos jogadores e por valores tão elevados.