A 'Mão de Deus' de Diego Armando Maradona é um dos maiores momentos da história de todos os Mundiais.
A 'Mão de Deus' de Diego Armando Maradona é um dos maiores momentos da história de todos os Mundiais. Foto: DR/FIFA

História dos Mundiais. Em 1986, Maradona e a ‘Mão de Deus’ entraram para a eternidade no bi da Argentina

Quatro anos após a Guerra das Malvinas, o génio argentino protagonizou uma das maiores exibições individuais da história dos Mundiais e conduziu os argentinos ao título no México.
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É impossível falar das histórias dos mundiais sem falar do Mundial de 1986, disputada no México, e que teve como principal protagonista Diego Armando Maradona. Aos 25 anos, no auge da carreira, o capitão argentino produziu uma das campanhas individuais mais impressionantes da história do futebol e conduziu a Argentina ao segundo título mundial, numa sinergia rara conseguida junto ao povo de seu país e que ficou vincado na história.

Naquele ano, na verdade, o torneio deveria ter sido realizado na Colômbia, mas a desistência do país obrigou a FIFA a procurar uma alternativa. O México, que já recebera a competição em 1970, voltou a abrir as portas ao mundo e tornou-se o primeiro país a organizar dois Mundiais. Enquanto isso, o futebol assistia ao aparecimento de novas forças, como a Dinamarca, e à afirmação da França de Michel Platini como uma das grandes seleções da década.

A Argentina de Carlos Bilardo não era apontada como principal favorita. Brasil, França e Alemanha Ocidental pareciam equipas mais completas. Mas os argentinos tinham uma vantagem que ninguém mais possuía: Diego Maradona. O camisa 10 assumiu o controlo da equipa desde o primeiro jogo e transformou cada partida numa verdadeira batalha através dos dribles curtos, arrancadas e remates com o é esquerdo.

A consagração definitiva aconteceu nos quartos de final, diante da Inglaterra. Quatro anos depois da Guerra das Malvinas, o confronto carregava uma carga emocional que ultrapassava largamente o futebol. E foi nesse cenário que Maradona escreveu dois dos capítulos mais famosos da história dos Mundiais.

Primeiro, abriu o marcador com um toque de mão que escapou ao árbitro tunisino Ali Bennaceur. Mais tarde, ao explicar o lance, diria que o golo tinha sido marcado “um pouco com a cabeça de Maradona e um pouco com a mão de Deus”, termo que ficou para a eternidade. Poucos minutos depois, no entanto, um lance incontestável: recebeu a bola ainda no meio-campo, driblou cinco adversários e o guarda-redes Peter Shilton antes de marcar aquele que continua a ser considerado por muitos o mais belo golo da história das Copas.

Anos mais tarde, no documentário Maradona realizado por Emir Kusturica, o craque diria que aquela vitória e, especialmente o golo com a mão, foi como “roubar a carteira de um inglês”. Para muitos argentinos, o jogo representou uma espécie de revanche simbólica pelas feridas ainda abertas da sangrenta guerra de Margaret Thatcher contra o país latino.

Mas reduzir o Mundial de 1986 à partida contra a Inglaterra seria injusto, embora tenha sido, de facto, o jogo mais marcante. No entanto, Maradona voltou a decidir nas meias-finais contra a Bélgica, marcando os dois golos da vitória por 2-0. E na final, diante da Alemanha Ocidental, quando os alemães recuperaram de uma desvantagem de dois golos e empataram a partida, foi novamente dos seus pés que nasceu o passe para Burruchaga marcar o 3-2 definitivo e entregar a taça à Albiceleste.

Poucas vezes um jogador dominou um Mundial de forma tão absoluta. Maradona marcou cinco golos, distribuiu assistências decisivas e participou praticamente em todas as jogadas ofensivas da Argentina. Para muitos historiadores do futebol, nenhuma atuação individual numa fase final conseguiu atingir o mesmo nível de influência.

Para Portugal, o Mundial de 1986 teve um sabor agridoce. Vinte anos depois da epopeia de Eusébio em Inglaterra, a seleção regressou finalmente a uma fase final graças ao célebre golo de Carlos Manuel em Estugarda, que garantiu uma inesperada vitória sobre a Alemanha Ocidental e a qualificação para o México. A campanha começou da melhor forma, com um triunfo sobre a Inglaterra, mas rapidamente ficou marcada pelo célebre Caso Saltillo.

Problemas organizativos, conflitos com a Federação Portuguesa de Futebol e um ambiente de crescente tensão afastaram a equipa do foco competitivo. Duas derrotas consecutivas, diante da Polónia e de Marrocos, ditaram uma eliminação precoce e transformaram aquele que parecia ser um regresso triunfal num dos episódios mais turbulentos da história do futebol português.

Quarenta anos depois, o Mundial de 1986 continua a ser lembrado como o Mundial de Maradona: a Argentina conquistou o bicampeonato, mas foi Diego quem entrou para a eternidade. Assim como Messi o fez há quatro anos Catar. Em seu derradeiro mundial, os argentinos, em breve, estarão em busca do tetra. Faltam 10 dias para o arranque do Mundial de 2026.

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