A criatividade e uma boa dose de paciência, respeito e paixão pelo judo salvam o mestre Igor da traquinice irrequieta dos miniatletas de pé descalço que tomam o tatami de assalto a meio da tarde. Igor Sampaio é a alma do projeto e recorre à simbologia animal para tornar a aula (e não treino) mais atrativa e levar os futuros judocas a fazer os movimentos que pede quase sem distrações. Quando chama os castores é hora de controlar, projetar ou imobilizar outro menino (waza), mas quando pede que entrem em cena os caranguejos é altura de usarem a técnica de projeção sutemi-waza, em que se colocam lado a lado e usam as pernas como uma tesoura para derrubar o amigo. E uma panqueca? É deitar no chão de barriga para baixo, com pernas e braços abertos.Nesta aula, as gaivotas entram em cena para o contragolpe, que em linguagem simples significa fazer rasteiras e fazer cair o outro de forma controlada (kaeshi), mas é preciso cuidado com os crocodilos, o usar o corpo para prender ou se mover em redor do parceiro, simulando a forma como um crocodilo domina a sua presa (ne-waza). E assim se passa uma hora.É com 4 anos que se começa a praticar judo na Sociedade Filarmónica Gualdim Pais, um pequeno grande clube de Tomar, que é como uma segunda casa para mais de 90 atletas, incluindo a medalhada olímpica Patrícia Sampaio, os irmãos Afonso e Guilherme Reis, que fizeram história em fevereiro ao defrontarem-se na final da categoria de -60 kg do Campeonato Nacional de Juniores, e Vicente Silva (-81Kg), que se sagrou Campeão Nacional de cadetes no campeonato de sub-18, e vai competir na Taça da Europa de Berlim, neste fim de semana.Na aula dos mais crescidos, os animais descansam, mas não os alunos. Durante uma hora e meia, a disciplina e exigência estão presentes e colam-se ao kimono como uma segunda pele. Vicente, Guilherme e Afonso assistem o mestre Igor na missão. É normal os atletas mais velhos ajudarem no treino antes de ser a vez de eles treinarem. O grupo de elite fecha as portas da associação, já para lá das 22h30. Dia sim, dia sim.No grupo adolescente sobressai um maior número de raparigas. Em boa parte, por culpa da patrona e referência maior do clube e do judo atual, Patrícia Sampaio, que assiste de fora e não resiste a dizer: “Esta turma é muito gira.” A recuperar de uma lesão que a afastou dos últimos Europeus de judo, a medalhada olímpica em Paris2024 ajudou a apertar cintos e enxugar algumas lágrimas, com muito amor e talvez algum déjà vu.Afinal ela já foi um deles. “Havia um sofá e eu ficava lá a ver o treino inteiro do meu irmão Igor, às vezes até às 11 e tal da noite, à espera para ir para casa. Com sete anos experimentei, para fazer a vontade aos meus pais, mas não gostei e, mais ou menos uma semana depois, desisti”, contou a judoca ao DN, sem grandes recordações desse tempo. Aos nove anos voltou a tentar e foi para ficar. Sem se aperceber, foi encontrando várias coisas de que gostava naquele pequeno e fofo quadrado a que chamam tatami. No Gualdim Pais, o judo virou desporto, paixão e profissão..Viver com 47 mil euros por anoO tatami tem amortecido as dificuldades da associação. Fundada em 1877 e à beira dos 150 anos, a associação de utilidade pública e IPSS presta serviços à comunidade através da cultura - tem uma banda filarmónica, uma escola de música, uma escola de dança e uma escola de arte para seniores -, da ação social - tem uma creche e jardim de infância -, e do desporto. E se hoje tem no judo e na natação as modalidades mais praticadas, foi a ginástica de trampolins que pôs o clube no mapa desportivo nacional ao formar os olímpicos Ana Rente e Nuno Merino.O judo entrou em cena em 1989, pelas mãos do mestre Romão Pires, alguém que ousou arriscar e desafiar os tomarenses para a modalidade. Mais tarde Reinaldo Tentado deu seguimento ao trabalho. Já mudou de localização três vezes, com algumas dores e crescimento pelo meio. Hoje, o judo da Gualdim Pais ocupa uma sala-ginásio (separados por uma cortina) com poucos metros quadrados, onde 72 tapetes formam um tatami de mais de 10 mil euros, segundo Vasco Fortunato, “o diretor Desportivo faz-tudo”, que também confia o filho José Maria, de 5 anos, à aula. Fazem muito com pouco. A região tem pouca indústria e os patrocínios escasseiam. As empresas locais dão o que podem e há alguns mecenas, mas não chega para as necessidades do clube, que tem um orçamento anual de 47 mil euros.O salão de entrada da Sociedade Filarmónica Gualdim Pais tem mesas e cadeiras multifunções, mas que, na verdade, são poiso precioso para pais que esperam pelos filhos nas várias atividades. Desde bem cedo, e até depois das 22h30, é um entra e sai que até dá jeito à caixa registadora do café, no qual jovens com maillot de dança desfilam confiantes e ecoa o som da bateria de uma aula de música. Há ainda um salão grande com um palco, onde acontece de tudo um pouco - concertos, festas, missas e até campeonatos de trampolins.O município tem auxiliado nas despesas de deslocação dos atletas em competição em provas nacionais e internacionais - cerca de 15 mil euros por ano -, e decidiu aproveitar o Complexo Desportivo Municipal de Tomar para criar uma Unidade de Apoio ao Alto Rendimento. Será uma realidade em 2027 e permitirá criar uma rede de apoio multidisciplinar, com acesso a psicólogo, nutricionista, médico e fisioterapeuta... o que também os poderá beneficiar. Até agora essas despesa, quando necessárias, são suportada pelo clube e/ou pelos pais, assim como a compra dos kimonos, que podem custar entre 14 (criança) e 200 ou mais euros. As mensalidades pagas pelos alunos vão desde os 26 aos 49 euros.Vasco e Igor partilham o ambicioso objetivo de chegar aos 150 mil inscritos, o que, numa cidade como Tomar, com cerca de 40 mil habitantes, será um feito enorme e os obrigará a repensar as estruturas atuais e a concorrer a projetos, bolsas e concursos de apoio. O professor e o diretor são o braço-direito um do outro, trabalhando em uníssono na permanente construção do espaço e com o aval da presidência de José Brito, que comunga das ideias deles para o clube.Faltam recursos humanos. A modalidade é tão específica que raramente alguém externo ocupa um cargo na estrutura. Igor Sampaio é o único professor a tempo inteiro e por mais que isso tenha as suas recompensas, como assistir à evolução e gerir a progressão de um atleta, também gera um enorme desgaste físico e mental. O próprio identifica-o nos cabelos grisalhos, que tem ganhado também à custa dos judocas mais velhos a quem dá treino. Esses, entram e saem do espaço com alguma facilidade. Muitas vezes usam o intervalo da escola para irem fazer pesos no miniginásio colado ao tatami, apenas separado por uma cortina, ou usam a secretária do mestre para estudar. É quase uma segunda casa para muitos deles, assim como o foi para os manos Sampaio..Parentesco e irmandade olímpicaDezoito anos mais velho, Igor começou a praticar com 9 anos, por influência de Manuel Francisquinho. Tornou-se um “obcecado” pela modalidade, teve alguns bons resultados a nível nacional, “mas nada que chegue perto do nível da Patrícia” ou de saber o que é ser Campeão Nacional 16 vezes. “Foram 19!”, retifica Patrícia. Aos 22 anos abandonou devido a uma doença óssea e cresceu enquanto treinador numa aliança de sucesso com a irmã. Juntos deram ao clube uma medalha olímpica.O boom nas inscrições, após a medalha de bronze de Patrícia Sampaio, mostra que a importância da judoca vai para lá do seu próprio sucesso. Em julho de 2024 eram 71 atletas e em setembro de 2024 passaram para 89 e depois para os 96. Ela ter-se mantido no clube também passou uma mensagem importante e de reconhecimento para com a Gualdim Pais, que se tornou uma casa de campeões e uma grande família. “A Gualdim Pais faz-me sentir em casa e é uma das coisas que mais me fortalece. Quando estava em Lisboa na faculdade [falta-lhe terminar a cadeira de Rádio na Universidade Nova para tirar o curso de Comunicação Social], após a última aula corria para apanhar o comboio e chegar a Tomar à hora do treino. E se me atrasava já vinha a chorar”, confessa a judoca, reconhecendo que “o judo não foi amor à primeira vista”, mas foi um amor que foi crescendo: “Hoje sou obcecada. Gosto mesmo muito de praticar, de ensinar, de tudo que tem a ver com o judo. Ganhar é viciante. E depois de ficar em primeiro, quando se fica em segundo ou terceiro custa muito.”O parentesco tem sido um aliado e não um bloqueio à progressão de ambos. Por isso “o não” está garantido a quem os tenta seduzir com outros projetos, segundo o mestre: “Não houve um momento sequer, nem mesmo com a conquista da medalha olímpica da Patrícia, em que eu dissesse: ‘OK, tudo o que eu posso fazer aqui está feito, vou partir para um novo patamar.’ É mais especial se for aqui, mas às vezes, roça o autoflagelo.” Mas sem culpas. O mestre sentir-se-á plenamente realizado quando a “Gualdim Pais vencer em todos os escalões em que competir” [risos]. Os alunos/atletas, como Vicente Silva e os gémeos, Afonso e Guilherme Reis, estão no bom caminho.Os irmãos Reis deram que falar nos últimos Nacionais de Juniores, tendo-se defrontado na final. Afonso levou a melhor e sagrou-se Campeão Nacional. Gosta de um judo mais físico, enquanto o Vice-campeão aprecia um judo mais ágil e tático. Afonso gostaria de continuar a competir até onde os estudos o permitirem - quer estudar Economia - e Guilherme quer cursar Imagem Médica e Radioterapia, e continuar a treinar e a competir para chegar tão ou mais longe do que o irmão.Tinham 9 anos quando começaram. Dizem que não gostaram lá muito da modalidade, mas, por insistência da mãe, foram-se mantendo. Hoje já são uma referência. “Ganhámos o gosto da competição. A competitividade entre os dois, se calhar, foi um motor para continuarmos a treinar”, na opinião de Guilherme. Mas, para Afonso, é “complicado” e “um pouco estranho” competir com o irmão. Ambos admitem que lhes falta frieza e distanciamento competitivo para se verem como adversários.Afonso Reis já está no Programa do Alto Rendimento e prepara-se para o Campeonato da Europa, mas Guilherme ainda precisa lutar para lá chegar. E lá em casa há mais um irmão de 4 anos, Gabriel, que pode muito bem ser o próximo aluno de judo da Gualdim Pais. isaura.almeida@dn.pt