Rui Patrício envergou a camisola 11 no Wolverhampton
Rui Patrício envergou a camisola 11 no Wolverhampton

Diogo Costa com o n.º 2 do FC Porto? Não seria inédito num guarda-redes... até já houve médios com o n.º 1

É raro, mas desafio lançado por Villas-Boas não faria de Diogo Costa o primeiro guardião (nem entre os portugueses) a envergar um número habitualmente destinado a um jogador de campo.
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Caso o guarda-redes Diogo Costa aceite o desafio de André Villas-Boas para envergar a camisola número 2 do FC Porto na próxima época, em homenagem ao malogrado central e capitão Jorge Costa, seria estranho e raro, mas estaria longe de ser inédito. E desengane-se até que é uma modernice ou um golpe de marketing do século XXI.

No Mundial 1966, por exemplo, Portugal destinou os três primeiros números aos guarda-redes: Américo (1), Carvalho (2) e José Pereira (3). Curiosamente, só os dois últimos jogaram no torneio disputado em Inglaterra, no qual a equipa das quinas alcançou aquela que ainda hoje é a sua melhor classificação de sempre num Campeonato do Mundo (3.º lugar).

Essa prática, porém, foi iniciada pelas seleções da França e da Suíça no Mundial 1954.

Rui Patrício envergou a camisola 11 no Wolverhampton
André Villas-Boas desafia Diogo Costa a ficar e a usar a camisola número 2 do FC Porto na próxima época

Em sentido inverso, a primeira equipa a desbravar o caminho de dar o número 1 a um jogador de campo terá sido a seleção do Chile, em 1966, quando a entregou ao avançado Pedro Araya e o dorsal 9, por exemplo, ao guarda-redes Adán Godoy. O motivo? A atribuição de números por ordem alfabética, tendo em conta o apelido.

Os Países Baixos seguiram o exemplo em 1974, quando foram vice-campeões mundiais: a camisola laranja do avançado Ruud Geels tinha o 1 nas costas, enquanto na baliza estava Jan Jongbloed com o número 8. O capitão Cruyff quebrou a ordem alfabética e ficou com o 14.

Jongbloed na baliza dos Países Baixos no Mundial 1974 com o número 8
Jongbloed na baliza dos Países Baixos no Mundial 1974 com o número 8DR

Deu sorte à Argentina

Nos Mundiais seguintes, os Países Baixos abandonaram essa política, mas inspiraram a Argentina a adotá-la. O número 1 foi assim atribuído a Norberto Alonso em 1978, Osvaldo Ardiles em 1982 e Sergio Almirón em 1986. Outra consequência desse método foi a atribuição de claros números de jogadores de campo nas costas de guarda-redes: Héctor Baley foi o 3 em 1978 e o 2 em 1982 e Ubaldo Fillol o 5 em 1978 e o 7 em 1982. Não se pode dizer que tenha corrido mal, uma vez que a Argentina venceu dois dos seus três Mundiais nessa altura (1978 e 1986). Deu sorte, mas também deu jeito, em 1986, ter um jogador chamado Diego Armando Maradona.

Médio Osvaldo Ardiles foi o n.º 1 da Argentina no Mundial 1982.
Médio Osvaldo Ardiles foi o n.º 1 da Argentina no Mundial 1982.DR

Mais recentemente, o número 1 também foi visto nas costas de jogadores de campo como Pantelis Kafes no Olympiakos e no AEK Atenas, Stuart Balmer no Charlton, David Carabott no Sliema Wanderers, Simon Vukcevic (ex-Sporting) no Partizan, Daniel Pancu no Besiktas, Diego Souza (ex-Benfica) no Atlético Mineiro, Adolfo Bautista no Guadalajara e no Chiapas, Edgar Davids enquanto jogador-treinador do Barnet, Filip Knezevic no Radnicki Nis ou Derek Riordan no Hibernian.

De Jorge Campos a Patrício

Lembra-se de Jorge Campos? Foi o titular na baliza do México nos Mundiais de 1994 e 1998 e destacava-se pelas camisolas extravagantes, que nesses torneios tinham o 1 nas costas. Mas noutras ocasiões, entre 1995 e 1997, também utilizou o número 9, tal como quando representou LA Galaxy, Atlante e Cruz Azul no final da década de 1990. Um dorsal apropriado para alguém que, mesmo sendo guarda-redes, apontou 35 golos durante a carreira, tendo chegado a atuar como ponta de lança em alguns dos clubes que representou.

Excêntrico Jorge Campos chegou a usar o número 9 na seleção mexicana.
Excêntrico Jorge Campos chegou a usar o número 9 na seleção mexicana.DR

Mas há mais. E um dos casos é de um guarda-redes português: Rui Patrício. Após assinar pelo Wolverhampton, em 2018, o guardião leiriense tinha a camisola 1 livre, mas decidiu envergar a 11. Foi uma demonstração de respeito pelo anterior dono do número 1 dos wolves, Carl Ikeme, que foi obrigado a afastar-se dos relvados devido a leucemia. Por isso, escolheu utilizar o número 11.

Outro dos casos de guarda-redes que usaram dorsais de jogadores de campo é precisamente daquele que era para ser o sucessor de Patrício no Sporting, o italiano Emiliano Viviano, que envergou a número 2 na Sampdoria, na SPAL, no Fatih Karagümrük e no Ascoli.

Emiliano Viviano com a camisola 2 da Sampdoria
Emiliano Viviano com a camisola 2 da SampdoriaDR

Outro guardião transalpino, Cristiano Lupatelli, não fez a coisa por menos: quando defendia a baliza do Chievo, entre 2001 e 2003, fazia-o com a camisola número 10, habitualmente destinada aos craques. Deu sorte ao clube de Verona, que nessas épocas conseguiu as melhores classificações da sua história na Série A (5.º e 7.º lugares). Valorizado, Lupatelli foi para a AS Roma envergar o número 3, mas não chegou a jogar oficialmente pelo emblema da capital.

Lupatelli usou o dorsal 10 na baliza do Chievo.
Lupatelli usou o dorsal 10 na baliza do Chievo.DR

Quem também chegou a usar a camisola 10 mesmo sendo guarda-redes, mas apenas numa ocasião, foi Rogério Ceni, histórico do São Paulo. Quando completou 1117 jogos pelo tricolor paulista, ultrapassando Pelé e tornando-se o jogador a atuar mais vezes por um clube no futebol brasileiro, teve direito a essa honra. Depois voltou para o dorsal habitual, o 1. Ou melhor, o 01 (sim, com os dois algarismos).

Rogério Ceni envergou o número 10 do São Paulo num jogo especial
Rogério Ceni envergou o número 10 do São Paulo num jogo especialDR
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