0 número de praticantes desportivos em Portugal cresceu de 265.588 para os 773.800 nos últimos 27 anos, mas a Confederação do Desporto de Portugal (CDP) tem como meta atingir o milhão e meio de atletas federados até 2030. Um crescimento estimado e progressivo de mais de 100 mil federados por ano a partir de 2027, só possível com a reforma do sistema de financiamento, segundo o estudo “O valor do Desporto português, o seu financiamento (1996-2024) e o seu futuro” a que o DN teve acesso e que será hoje apresentado em Lisboa. .O documento divide a prática desportiva federada em dois períodos: o primeiro de 1944 a 1974, em que a prática cresceu de 26.933 para 136.281 filiados nas federações, e o segundo, pós 25 de Abril, com o País a chegar aos 773.800 praticantes em 2023. Sem surpresa, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) domina o número de atletas federados e representa um quarto do valor total, com 238.313 inscritos em 2023-24, sendo que 192.103 são de futebol, 42.963 de futsal, 1808 de futebol de praia e 1439 de walking football, uma variante do futebol destinada a incentivar a prática de pessoas com idades superiores a 50 anos, que teve uma subida percentual de mais de 300%. .A natação é a segunda modalidade da lista, com mais de 76 mil atletas, seguida do voleibol, com cerca de 51 mil. O atletismo, modalidade que mais medalhas olímpicas deu a Portugal contabilizava cerca de 23 mil federados. .Os dados deste ano só serão conhecidos em 2025, mas o crescimento será residual (na ordem dos cinco mil) ao contrário do projetado pela Confederação, que estima chegar ao milhão e meio de atletas até 2030 à boleia de mudanças estruturais no desporto escolar. Para que a missão seja bem sucedida, Daniel Monteiro, presidente do organismo que lidera o desporto federado português, quer o “comprometimento” do Estado e defende um aumento brutal do financiamento público, dos atuais 100 milhões de euros para cerca de 600ME até ao final da legislatura (ver entrevista). Até porque o custo estimado do setor (e com defeito, por falta de dados de setores como a arbitragem) é de 1100 milhões de euros..Alertas e isenções fiscais.Apesar de ser notório o aumento do número de atletas no Programa “Alto Rendimento Desportivo”, com um total de 923 praticantes em 2023 (306 do Nível A, 180 do Nível B e 437 do Nível C), o documento lança alertas sobre o impacto da não reforma do modelo de financiamento e de como isso pode levar à extinção de pequenos clubes locais, ao abandono dos atletas e, a longo prazo, a baixar o número de atletas de excelência..Para evitar esse cenário e alavancar a prática no futuro, a Confederação do Desporto vai lutar por benefícios fiscais para os agentes desportivos e um regime fiscal especial também para os treinadores, “possibilitando que os professores de Educação Física assumam o estatuto da profissão em regime parcial no Desporto Escolar, de forma a serem remunerados financeiramente em vez dos créditos letivos/transformação de horas letivas para horas de treino”. Um sistema que, segundo os cálculos que constam no estudo, permitirá poupar seis milhões de euros em remunerações, que absorvem a quase totalidade do financiamento do Desporto escolar (40 dos 47,4 M€) e possibilitar mais treinos e captação de novos atletas..E “porque o desporto em Portugal vai muito para lá da prática desportiva”, o organismo quer receber créditos de outros setores da sociedade que também beneficiam com a prática desportiva, como a Saúde, Turismo, Educação e Coesão Territorial. Apesar do Instituto Nacional de Estatística não ter dados integrados do setor desde 2016, é possível estimar a sua mais valia olhando para o Valor Acrescentado Bruto de 1, 8 mil milhões/ano gerado pelas 25 mil empresas envolvidas na atividade desportiva no triénio 2010-12 (a última vez que foi contabilizado) e os 62.814 mil empregos criados há mais de uma década..O que, segundo os autores do estudo, Jorge Vilela de Carvalho, Jorge Nunes de Sousa e Fernando Tenreiro, prova que o “desporto é um setor rentável”, para o qual têm contribuído empresas como a Nelo Kayaks, que continua a ser o principal fornecedor de caiaques a atletas olímpicos da canoagem ou a produção de velas para as atividades náuticas de Diogo Cayola e Pedro Pires de Lima. Portugal é ainda o maior produtor de bicicletas (2, 7 milhões de unidades em 2022) e o próprio Estado reconhece um benefício económico anual de 24 milhões de euros relacionado com o uso de bicicletas, por exemplo. .Por tudo isto, o organismo que rege o Desporto federado quer contribuir para um Plano Estratégico que constitua uma reforma do desporto em Portugal e criar um mecanismo de compensação/solidariedade para o conjunto das federações desportivas não beneficiárias das verbas provenientes das Apostas Desportivas (online e Placard), que em 2023 renderam 61,6 M€..Daniel Monteiro: “Quem paga a esmagadora maioria do Desporto em Portugal são as famílias”.Daniel Monteiro, presidente da Confederação do Desporto de Portugal..O presidente da Confederação do Desporto de Portugal alerta para o subfinanciamento crónico de um setor vital para a sociedade e aponta a 1% da despesa geral no Orçamento do Estado. Clubes locais têm os dias contados porque o dinheiro não chega lá..Que conclusões se pode tirar do Estudo da Confederação do Desporto de Portugal? Desde logo que o Estado está a investir menos de 10% do custo total. Calculamos, por defeito, que o Desporto em Portugal tem um custo de cerca de 1100 milhões de euros, sendo que o Estado faz um investimento de cerca de 100 ME entre desporto federado e desporto escolar. Significa que o desporto em Portugal tem um subfinanciamento crónico e que, quem paga a esmagadora maioria do desporto em Portugal são as famílias, por via de um associativismo voluntário ou por via do orçamento familiar. Nos últimos 25 anos os praticantes desportivos mais do que duplicaram (ver gráfico) e o financiamento real reduziu. O desporto tem menos dinheiro real hoje do que tinha em 1996 e se a tendência de redução continuar, em breve não haverá clubes de base local que resistam. .Quer dizer que o pequeno clube poderá ter os dias contados? Tem os dias contados sem dúvida, porque o financiamento não está a chegar lá. O primeiro-ministro anunciou um aumento mínimo de 20 % no investimento para o próximo ciclo olímpico e paralímpico, mas em breve podemos não ter atletas a chegar aos projetos olímpico e paralímpico, ou porque não acedem ou porque desistem até lá chegar. Por isso a prioridade do investimento do Estado tem de ser na base. Daí a CDP propor a introdução de três tempos semanais obrigatórios de Educação Física no primeiro ciclo, a partir do ano letivo de 2026-27. Essa medida é fulcral e é estrutural. No cenário traçado prevemos a colocação de 2549 professores de Educação Física do primeiro ciclo como professores coadjuvantes dos professores titulares. Estimamos que isto traduziria um investimento de 72 ME, mas com esta medida prevemos que mais de 356 mil crianças tenham acesso a formação física e motor através do primeiro ciclo de escolaridade. Isso teria um impacto brutal no país a médio e longo prazo na educação e saúde dos portugueses, que têm um dos piores indícios de atividade física e desportiva da Europa (78%)..Ou seja, várias áreas da sociedade beneficiariam com um maior investimento no setor? Sim. Da mesma forma que beneficiam com os eventos de atividade desportiva, que rendem milhões de euros por via direta e indireta. Há dados públicos que mostram que o não investimento no desporto representa 569 ME de custos extraordinários para a saúde pública. Ou seja, cada trabalhador inativo custa à economia portuguesa 1049 euros por ano. No total são 330 ME de receitas que o Governo não arrecada devido à redução da produtividade. Ter um ministério do Desporto é uma prioridade e não é um assunto menor, quando estamos a falar na valorização política de um setor que tem sido negligenciado. A ausência de representação no Conselho Económico e Social é um exemplo claro da desvalorização política sofrida ao longo dos anos. A débil realidade desportiva nacional é consequência de ser um arredondamento do Orçamento do Estado e responsável pela ausência de mais resultados desportivos de excelência, que felizmente vamos tendo fruto de verdadeiros milagres e de um trabalho heroico de atletas e agentes desportivos..E qual o papel da C DP na desejada mudança? A CDP representa mais de 60 federações e é representante legal e o parceiro social do Estado em matéria de políticas públicas para o desporto. A nossa intervenção vai ser política, na defesa do setor, junto dos partidos políticos e da sociedade civil. E é fundamental que se perceba a importância social e o impacto que o desporto tem em várias áreas e o retorno que gera. O investimento no desporto é rentável para o País..O lançar de bases é importante para chegar a um alto rendimento capaz e medalhado? Com certeza. Se o projetado maior investimento de sempre para os ciclos olímpico e paralímpico Los Angeles2028 não for acompanhado de um reforço de investimento substancial na base e nos patamares intermédios de desenvolvimento desportivo, não terá impacto a médio e longo prazo e daqui a uns anos não vamos conseguir ter atletas a chegar a esse estatuto de alto rendimento. De nada serve o investimento no topo se não for acompanhado de investimento na base. .A CDP está a ser demasiado ambiciosa ao querer duplicar o número de atletas federados? Queremos comprometer o Governo com o objetivo de atingir 1,5 milhões de praticantes federados em 2030, isso é quase duplicar os atuais cerca de 778 mil. E queremos que até ao final da legislatura o desporto atinja o 1% da despesa geral no Orçamento do Estado. É um objetivo com o qual o Governo tem que se comprometer para atingirmos os objetivos a que nos propomos. Estamos a falar de um investimento extraordinário, tendo em conta que hoje o impacto no total da despesa do Estado é inferior a 0,2%..isaura.almeida@dn.pt