O Torreense joga no domingo a segunda final da Taça de Portugal (às 17h30) e a oportunidade histórica de adicionar um dos maiores troféus nacionais a uma vitrina marcada, essencialmente, pelo sucesso nas divisões inferiores. Em Torres Vedras, há hoje uma sensação agridoce devido ao clube, no espaço de dez dias, ter de jogar a Taça de Portugal entre dois encontros do play-off de subida com o Casa Pia (o primeiro foi disputado na quarta-feira, em casa, e terminou com um empate a zero, estando a 2.ª mão marcada para dia 28). Haverá romaria ao Jamor, há um cenário preparado para festejar em Torres, mas o realismo impera. Mais do que noutros clubes de divisões secundárias que, noutra altura, chegaram ao Jamor e que viveram a festa com o espírito de encerramento de época. A promoção à I Liga é o grande objetivo da temporada e a Taça é um bónus, que não se menospreza, mas que funciona, fundamentalmente, como acrescento importante à solidez. Em conversas tidas com responsáveis do clube, é a visibilidade do Campeonato Nacional que poderá ditar o salto competitivo e a estabilidade futura. Ter, nesta fase, um calendário tão apertado pode, naturalmente, impactar nos dois desfechos. Por isso, o próprio clube tentou evitar uma acumulação de meios de comunicação social em Torres Vedras, porque, primeiro, havia o primeiro jogo com o Casa Pia.Em 1955/56, o Torreense saiu derrotado na final com o FC Porto, por 2-0, uma temporada extremamente positiva já que garantiu, pela primeira vez, a permanência na I Liga e um histórico 7.º lugar. De 1955 a 1958 manteve-se no campeonato principal, mas desceria em 1959 para só voltar mais duas vezes. E em ambas as ocasiões, 1964 e 1991, subiu para descer logo no ano seguinte. Além das seis presenças na I Liga, o clube conta com sete na II Liga e a dificuldade em manter-se nos campeonatos profissionais guiou a construção do projeto nos últimos anos.Em 2008, a criação da SAD para gerir os destinos do futebol tinha como meta chegar aos campeonatos profissionais, mas em dez anos o caminho andou poucas vezes perto da subida à II Liga. Por isso, o clube avançou em 2019 para a aquisição das ações de Qi Chen, investidor chinês conhecido por vários negócios em clubes portugueses, ficando com 86% do capital social. Esses 350 mil euros de investimento impediram grandes contratações em 2019/20, mas já tiveram repercussão na quase subida à II Liga em 2020/21. Seria conseguida em 2022, com o título da Liga 3. O clube do Oeste nunca esteve em risco de voltar ao terceiro escalão: foi 9.º em 2023, 7.º em 2024, 5.º em 2025 até chegar, agora, em 2026, ao play-off pela subida, graças ao 3.º lugar. O trajeto foi, claramente, pensado para, em poucos anos, entrar na rota da I Liga.Diretor de longa dataAndré Sabino terá de ser pessoa mencionada no trajeto, já que assumiu o cargo de diretor-desportivo em 2019. Foi fulcral ajustar a propensão de certos ativos para fazer dinheiro. Este verão, o Torreense realizou o maior encaixe da história e o costa-marfinense Elie N’Tamon foi para o Reims por dois milhões de euros. Em 2024/25, Vando Félix (Vitória de Guimarães) rendera 1,2 milhões. A continuidade de olheiros e do diretor-desportivo tem afinado o trabalho do scouting e há uma atenção especial ao país vizinho: Javi Vázquez, lateral e o mais utilizado na época, Manuel Pozo, que leva oito golos, e Musa Drammeh, que soma nove tentos, têm todos nacionalidade espanhola. Unai Pérez, Arnau Casas, Alejandro Alfaro têm sido elementos de rotação. Léo Azevedo é um dos médios mais influentes e tem formação no Palmeiras e Corinthians. E a atenção a França também teve resultados: Mohamed Ali-Diadié foi recrutado ao Reims, da Ligue 2, e é preponderante na defesa, na frente o maliano Zohi soma nove golos vindo do Laval e Dany Jean chegou em janeiro de 2025 do Estrasburgo. Uma venda que possa, novamente, encher os cofres é bem-vinda para aprofundar o plantel da próxima temporada. Decisivo é ainda o aproveitamento da equipa sub-23 - o Torreense foi campeão na Liga Revelação de 2024/25 - que se mescla com experiência de I e II Liga, com David Bruno (lateral), Costinha (médio), Pité (médio) e Stopira, central que irá ao Mundial por Cabo Verde e que se valorizou no Santa Clara há 16 anos, tendo passado uma década no futebol húngaro. Na terça-feira, o plantel do Torreense juntou-se para celebrar a convocatória do defesa.Treinadores em rotação, Tralhão olha para a juventude Com a meta de subir à I Liga, a continuidade na política desportiva não se segue no banco de treinador. Luís Tralhão é o sétimo a comandar os destinos do clube na II Liga. Vítor Martins liderou o arranque, mas seis derrotas seguidas no campeonato - apesar de ultrapassar, nesse mesmo período, duas eliminatórias da Taça de Portugal e de estar em terceiro quando saiu - precipitaram a subida de Luís Tralhão. Irmão de João Tralhão, fez com o familiar um trajeto de quase 15 anos na formação encarnada, sendo adjunto deste nos sub-19, por exemplo, e ainda nos sub-23. O título em sub-23 na Liga Revelação pelo Torreense foi cartão de visita para assumir a equipa principal em janeiro. Eliminou a União de Leiria e o Fafe para chegar à final da Taça e no campeonato somou 39 pontos em 54 possíveis. Não conseguiu a promoção direta, que era a meta, até pelo grande arranque do clube na II Liga, mas levou a luta pelo segundo lugar até ao fim e joga a oportunidade de subida no play-off.Autarquia e clube têm pontos a afinarOs patrocínios são fundamentais para o futuro do clube. Daí ser determinante a chegada e consolidação na I Liga. Com a autarquia houve alguma cisão em junho pelo que o DN pôde saber. Torres Vedras cede o Estádio Manuel Marques, propriedade do município desde 2008, entregou um autocarro para ajuda ao clube em 2022 e um valor a rondar os 700 mil euros para a construção de dois sintéticos para a formação, além de acordos para as melhorias do recinto e em estudo novos campos para o emblema. Estava em andamento o projeto de um novo estádio, com aval da presidência socialista. Sérgio Galvão é o novo presidente, eleito pela coligação PSD/CDS-PP/VP. Não há informação de recuo nesse sentido, mas é primordial um consórcio para o financiamento. Está previsto o apoio logístico possível face à presença no Campeonato Nacional, tal como aconteceu na II Liga, e a equipa tem noção de que deverá ter de utilizar outro recinto para os seus jogos em casa. Ainda assim, esse cenário é precoce de antecipar face ao jogo ainda em falta contra o Casa Pia. Noutras modalidades, a instituição foi sempre muito relevante para o concelho. É também por isso que se espera festa de arromba, coletiva, como se de um Carnaval se tratasse, pelas ruas, caso a equipa vença o play-off ou a Taça de Portugal. O passado desportivo de Torres Vedras ficará sempre marcado pelo ícone nacional Joaquim Agostinho, que tem um museu como homenagem no concelho. O ciclismo na zona Oeste é tradição e Portugal viu uma equipa mítica local, patrocinada pela Sicasal. Atletismo e râguebi tiveram espaço, o futsal está hoje na I Divisão e a equipa feminina deu o mote para a própria formação profissional de futebol - num projeto erguido por Nuno Cristóvão, que fora campeão no Futebol Benfica e Sporting, ganhou nas últimas duas épocas uma Taça de Portugal, uma Taça da Liga e uma Supertaça.Sétima final com equipas de divisões secundáriasDomingo, será a sétima vez uma equipa fora da I Liga atinge a final da Taça de Portugal, o que não acontecia desde 2010 quando o Chaves chegou ao Jamor, sendo derrotado pelo FC Porto. Antes, no início do século, o Leixões, da II Divisão B, na altura, enfrentou o Sporting, embora saísse derrotado. O primeiro a ser finalista não estando no principal escalão foi o V. Setúbal, na II Divisão em 42/43, sofrendo derrota pesada com o Benfica por 5-1. Os encarnados voltariam a enfrentar uma equipa de divisão secundária no ano seguinte, batendo por 8-0 o Estoril. Em 1961/62 nova proeza sadina, mas com vitória encarnada, do Benfica campeão europeu, por 3-0. Em 1990, foi a vez de o Estrela da Amadora erguer a competição pela primeira e única vez ao derrotar o secundário Farense. .Torreense vence Fafe e volta à final da Taça de Portugal 70 anos depois.Torreense e Casa Pia empatam no primeiro jogo do play-off da I Liga