Quem acompanha de perto os bastidores da seleção brasileira sempre afirmou categoricamente que tanto os resultados dos jogos particulares pré-Mundial como a primeira fase do torneio na América do Norte pouco diziam a Carlo Ancelotti. O objetivo do treinador italiano foi sempre preparar a equipa para chegar ao mata-mata do Mundial de forma competitiva, algo que – ao que tudo indica após a convincente vitória sobre a Escócia – tem tudo para acontecer.O Brasil, evidentemente, é uma equipa em formação. Ancelotti tem pouco mais de um ano de trabalho à frente da seleção pentacampeã do Mundo, onde, recentemente, teve de lidar com críticas pela falta de evolução da equipa. Convicto do esquema com quatro avançados desde o início do ciclo, Ancelotti teve de ceder aos apelos da opinião pública – e, claro, às evidências do relvado – para alterar a forma como o Brasil joga em plena disputa do torneio. A bem da verdade, alguns acasos provocados pelas lesões foram, ironicamente, o que acabou por provocar esses ajustes.Há alguns meses, quando Ancelotti imaginava a sua seleção ideal para o Mundial, o lado direito era formado por Estêvão, o melhor jogador sob o seu comando, e pelo lateral Wesley, da Roma. Mesmo as lesões de ambos os jogadores, primeiro a do extremo do Chelsea e depois a do lateral, fizeram o treinador recalcular a rota: a opção no Mundial foi deslocar Raphinha para ocupar o setor de Estêvão, com o já veterano Danilo a fazer as ultrapassagens como lateral. A equipa continuava sem encaixar, com o capitão do Barcelona apagado na seleção.Foi na partida com o Haiti, quando Raphinha saiu lesionado, que Ancelotti viu-se obrigado a mudar o eixo da equipa. Tanto a estrela do Barcelona como Estêvão eram homens que, apesar de estarem contemplados no desenho tático num dos extremos do campo, procuravam constantemente os espaços interiores, deixando toda a largura para os laterais, quer fosse Wesley ou Danilo – Ibañez, titular na primeira jornada frente a Marrocos, não convenceu.Com a saída de ambos os esquerdinos, ariscos e, acima de tudo, criativos, a solução passou por inverter o eixo da equipa para o lado esquerdo. Para tal, a estratégia que funcionou tanto frente ao Haiti como com a Escócia e passou pela entrada do prodígio Rayan, do Bournemouth, atleta que dá largura ao lado direito do ataque, com Danilo mais "preso" na defesa. Do outro lado, é o lateral-esquerdo Douglas Santos, do Zenit, uma das surpresas deste Mundial, quem dá profundidade na companhia de Vinícius Jr. e Lucas Paquetá.Aliás, Paquetá foi outra das mudanças promovidas por Ancelotti neste Mundial e com rendimento. Com boas combinações com Vini Jr., com quem partilhou balneário ainda nas camadas jovens do Flamengo, o médio, que neste ano regressou ao futebol brasileiro, tem dado mais cadência ao meio-campo da seleção. Bruno Guimarães, já totalmente recuperado da lesão que o afastou de boa parte da preparação para o Mundial, voltou igualmente a cumprir um papel importante: frente à Escócia, assinou duas assistências..E por mais que o caminho rumo ao tão sonhado hexa continue longo – especialmente tendo em conta o duro adversário da próxima fase, o Japão –, quem conhece o povo brasileiro sabe: a empolgação já chegou. Bastaram duas boas exibições e seis golos diante dos adversários mais frágeis do grupo para a seleção voltar a figurar entre as favoritas nas contas de alguns. Isso sem contar com o regresso de Neymar, que mesmo sem demonstrar plenas condições físicas, a sua entrada nos últimos minutos do jogo com os escoceses foi celebrada em todo o estádio Hard Rock, em Miami. De facto, o Brasil, como referido no início do texto, continua a ser uma equipa em construção. Ainda parece um degrau abaixo de favoritas como França, Espanha, Argentina ou Portugal, e até mesmo de Inglaterra, Alemanha e Países Baixos. Mas uma evidência parece começar a ganhar força: se continuar no torneio, uma equipa comandada por Carletto tenderá a crescer a cada eliminatória.Outro motivo que alimenta a expectativa do adepto brasileiro é a excelente forma de Vini Jr., que já participou em cinco golos nos três primeiros jogos – uma assistência e quatro bolas no fundo das redes – e exibe um brilho nunca antes visto com a camisola da seleção brasileira, algo que sempre lhe foi cobrado no seu país. O craque do Real Madrid disputa diretamente o troféu de melhor marcador da competição com Lionel Messi, com cinco golos, e tem os mesmos quatro remates certeiros de Erling Haaland e Kylian Mbappé.O encaixe de Vini Jr., com quem Ancelotti já tinha trabalhado e conquistado títulos no Real Madrid, talvez seja, neste momento, o maior trunfo do italiano, que, após a vitória sobre a Escócia, definiu o início de torneio do camisola 7 como "muito forte". Com a esperança de que essa força continue a acompanhar a seleção, o Brasil, líder do Grupo C à frente do Marrocos, volta ao relvado na próxima segunda-feira, 29 de junho, em Houston, em partida dos 16 avos de final. O encontro está marcado para as 18h00 de Lisboa..Baila, Vini! Craque brilha com dois golos, Brasil vence Escócia e avança na liderança do Grupo C.Os encantos da ‘Canarinha’ que há muito cruzaram o Atlântico