"Xodó" é uma palavra brasileira de origem africana que caracteriza uma pessoa amada, acarinhada e que conquista um carinho especial. No futebol brasileiro, a expressão ganhou fama ao identificar aquele jogador que se torna o mais querido da torcida, o preferido dos adeptos. E na atual seleção brasileira, que procura o hexacampeonato nos Estados Unidos, não há atleta que carregue mais esse estatuto do que Endrick.O avançado de 19 anos procura os seus primeiros minutos neste Mundial na partida da madrugada (1h30 em Lisboa) deste sábado, 20 de junho, contra o Haiti, no segundo desafio dos canarinhos após o frustrante empate frente ao Marrocos, resultado que colocou Carlo Ancelotti na mira da imprensa e dos adeptos.A pressão sobre o treinador italiano não vem propriamente do empate diante de uma potência africana que se consolidou nos grandes palcos internacionais - não é por acaso o Marrocos alcançou as meias-finais do Mundial do Catar, em 2022, eliminando Espanha e Portugal pelo caminho. O problema foi a forma como o Brasil jogou.André Kfouri, jornalista da ESPN e um dos principais rostos a acompanhar a seleção brasileira nos Estados Unidos, chegou a afirmar que os primeiros 30 minutos da equipa em East Rutherford, no empate por 1-1 do último sábado, foram os piores do Brasil num Mundial desde o fatídico 8 de julho de 2014, quando a Alemanha aplicou os 7-1 que até hoje traumatizam os brasileiros.Exageros à parte - afinal, há doze anos o marcador já apontava 5-0 para os alemães aos 29 minutos - a estreia brasileira foi, de facto, muito abaixo do esperado. Especialmente por toda a expectativa que o povo brasileiro, pentacampeão mundial mas afastado do principal troféu do futebol há 24 anos, deposita em Carlo Ancelotti, considerado por muitos o melhor treinador presente neste Mundial.Entre as principais críticas ao italiano está alguma "teimosia" num modelo de jogo que deixa o meio-campo despovoado quando a equipa defende e pouco criativo quando ataca. Desde que assumiu a seleção brasileira, após um ciclo desastroso em que os canarinhos passaram por Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior, Ancelotti chegou com a missão de agitar o balneário e devolver um futebol mais vistoso à equipa, mas o esquema utilizado até agora ainda não convenceu.Com dois médios imprescindíveis para o seu ciclo - Casemiro e Bruno Guimarães - e quatro homens de ataque, o Brasil tem mostrado dificuldades para controlar os jogos e criar oportunidades. Durante a maior parte da preparação recente, a equipa atuou com Luiz Henrique, Raphinha, Matheus Cunha e Vini Jr. na frente e nem as alterações promovidas por Ancelotti conseguiram mudar significativamente o cenário.Para a estreia no Mundial, Carletto manteve a estrutura tática, mas mexeu nas peças. Lucas Paquetá entrou para ocupar o flanco direito do ataque, enquanto Igor Thiago, um dos melhores marcadores da Premier League da última temporada, começou de início no lugar de Matheus Cunha.O avançado do Brentford, no entanto, terminou a partida como um dos principais alvos das críticas. Perdeu uma oportunidade clara de golo ainda na primeira parte, precisamente num lance aéreo, uma das suas principais virtudes e a atuação apagada de praticamente todo o setor ofensivo - com exceção de Vini Jr., autor de um golaço - trouxe, além das dúvidas sobre o esquema tático, novamente à tona uma das perguntas favoritas dos brasileiros: onde está Endrick?Parte da crítica aponta para uma espécie de "birra" de Ancelotti com o jovem avançado, que encontrou no Real Madrid e a quem deu poucas oportunidades. Em 2024/25, única época em que trabalharam juntos no Santiago Bernabéu, Endrick somou apenas 847 minutos em 37 partidas - menos do que o guarda-redes suplente Andriy Lunin, que teve 1320 minutos, e também menos do que jogadores que passaram grande parte da época lesionados, como Dani Carvajal (878) e Éder Militão (1311).Na seleção, a tendência repete-se. Formado no Palmeiras, Endrick foi rapidamente identificado pelos brasileiros como uma estrela rara. Em 2023, marcou três golos nos seus primeiros três jogos pela seleção principal e parecia destinado a assumir um papel central na equipa.Com Ancelotti, porém, as oportunidades têm sido escassas. Entre os atacantes utilizados desde a chegada do treinador italiano, foi um dos que menos minutos recebeu, à frente apenas de Samuel Lino, Rayan, Vítor Roque, Kaio Jorge e Igor Jesus - e destes apenas Rayan integra o atual grupo de convocados para o Mundial.Nos jogos particulares que antecederam o torneio, o jovem voltou a dar sinais dessa "aura" especial. Contra a Croácia, em abril, participou diretamente dos lances que desbloquearam a vitória por 3-1, com uma assistência e um penálti sofrido. Já diante do Egito, marcou o golo que garantiu o triunfo por 2-1 no último compromisso antes do torneio nos Estados Unidos.Mesmo assim, na estreia diante do Marrocos, não saiu do banco. Foi preterido por Danilo, Fabinho, Luiz Henrique, Matheus Cunha e Danilo Santos, para desespero dos adeptos brasileiros que querem ver o seu "xodó" em campo.Carlo Ancelotti preferiu não falar sobre o tema na conferência de imprensa a seguir ao empate contra os marroquinos, mas já deu provas de que ouve o clamor popular: de outra forma não teria chamado Neymar, que ainda nem sequer treinou no relvado desde que a equipa chegou aos EUA.Apesar do italiano não parecer confiar em Endrick, as evidências parecem querer dizer o contrário para o treinador e, num Brasil que tem encontrado dificuldades para marcar, talvez fosse mais fácil para os ouvidos de Ancelotti ouvir reclamações com o avançado em campo do que continuar a ouvi-las com ele sentado no banco. A ver diante do Haiti..Brasil empata com o Marrocos. Multidão assiste ao jogo em Lisboa.Lobby por Neymar no Mundial foi de deputado a atleta cortado e transformou a convocatória num 'grande circo'