Carlo Ancelotti e Endrick no treino da seleção brasileira em Morristown, em Nova Jersey.
Carlo Ancelotti e Endrick no treino da seleção brasileira em Morristown, em Nova Jersey.Foto: Sebastiao Moreira/EPA

Brasil enfrenta Haiti com Ancelotti questionado e clamor popular por Endrick

Canarinhos enfrentam Haiti em busca da primeira vitória após empate frustrante com Marrocos, com o treinador italiano na mira de adeptos e imprensa, que pedem mais oportunidades ao "xodó" da torcida.
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"Xodó" é uma palavra brasileira de origem africana que caracteriza uma pessoa amada, acarinhada e que conquista um carinho especial. No futebol brasileiro, a expressão ganhou fama ao identificar aquele jogador que se torna o mais querido da torcida, o preferido dos adeptos. E na atual seleção brasileira, que procura o hexacampeonato nos Estados Unidos, não há atleta que carregue mais esse estatuto do que Endrick.

O avançado de 19 anos procura os seus primeiros minutos neste Mundial na partida da madrugada (1h30 em Lisboa) deste sábado, 20 de junho, contra o Haiti, no segundo desafio dos canarinhos após o frustrante empate frente ao Marrocos, resultado que colocou Carlo Ancelotti na mira da imprensa e dos adeptos.

A pressão sobre o treinador italiano não vem propriamente do empate diante de uma potência africana que se consolidou nos grandes palcos internacionais - não é por acaso o Marrocos alcançou as meias-finais do Mundial do Catar, em 2022, eliminando Espanha e Portugal pelo caminho. O problema foi a forma como o Brasil jogou.

André Kfouri, jornalista da ESPN e um dos principais rostos a acompanhar a seleção brasileira nos Estados Unidos, chegou a afirmar que os primeiros 30 minutos da equipa em East Rutherford, no empate por 1-1 do último sábado, foram os piores do Brasil num Mundial desde o fatídico 8 de julho de 2014, quando a Alemanha aplicou os 7-1 que até hoje traumatizam os brasileiros.

Exageros à parte - afinal, há doze anos o marcador já apontava 5-0 para os alemães aos 29 minutos - a estreia brasileira foi, de facto, muito abaixo do esperado. Especialmente por toda a expectativa que o povo brasileiro, pentacampeão mundial mas afastado do principal troféu do futebol há 24 anos, deposita em Carlo Ancelotti, considerado por muitos o melhor treinador presente neste Mundial.

Entre as principais críticas ao italiano está alguma "teimosia" num modelo de jogo que deixa o meio-campo despovoado quando a equipa defende e pouco criativo quando ataca. Desde que assumiu a seleção brasileira, após um ciclo desastroso em que os canarinhos passaram por Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior, Ancelotti chegou com a missão de agitar o balneário e devolver um futebol mais vistoso à equipa, mas o esquema utilizado até agora ainda não convenceu.

Com dois médios imprescindíveis para o seu ciclo - Casemiro e Bruno Guimarães - e quatro homens de ataque, o Brasil tem mostrado dificuldades para controlar os jogos e criar oportunidades. Durante a maior parte da preparação recente, a equipa atuou com Luiz Henrique, Raphinha, Matheus Cunha e Vini Jr. na frente e nem as alterações promovidas por Ancelotti conseguiram mudar significativamente o cenário.

Para a estreia no Mundial, Carletto manteve a estrutura tática, mas mexeu nas peças. Lucas Paquetá entrou para ocupar o flanco direito do ataque, enquanto Igor Thiago, um dos melhores marcadores da Premier League da última temporada, começou de início no lugar de Matheus Cunha.

O avançado do Brentford, no entanto, terminou a partida como um dos principais alvos das críticas. Perdeu uma oportunidade clara de golo ainda na primeira parte, precisamente num lance aéreo, uma das suas principais virtudes e a atuação apagada de praticamente todo o setor ofensivo - com exceção de Vini Jr., autor de um golaço - trouxe, além das dúvidas sobre o esquema tático, novamente à tona uma das perguntas favoritas dos brasileiros: onde está Endrick?

Parte da crítica aponta para uma espécie de "birra" de Ancelotti com o jovem avançado, que encontrou no Real Madrid e a quem deu poucas oportunidades. Em 2024/25, única época em que trabalharam juntos no Santiago Bernabéu, Endrick somou apenas 847 minutos em 37 partidas - menos do que o guarda-redes suplente Andriy Lunin, que teve 1320 minutos, e também menos do que jogadores que passaram grande parte da época lesionados, como Dani Carvajal (878) e Éder Militão (1311).

Na seleção, a tendência repete-se. Formado no Palmeiras, Endrick foi rapidamente identificado pelos brasileiros como uma estrela rara. Em 2023, marcou três golos nos seus primeiros três jogos pela seleção principal e parecia destinado a assumir um papel central na equipa.

Com Ancelotti, porém, as oportunidades têm sido escassas. Entre os atacantes utilizados desde a chegada do treinador italiano, foi um dos que menos minutos recebeu, à frente apenas de Samuel Lino, Rayan, Vítor Roque, Kaio Jorge e Igor Jesus - e destes apenas Rayan integra o atual grupo de convocados para o Mundial.

Nos jogos particulares que antecederam o torneio, o jovem voltou a dar sinais dessa "aura" especial. Contra a Croácia, em abril, participou diretamente dos lances que desbloquearam a vitória por 3-1, com uma assistência e um penálti sofrido. Já diante do Egito, marcou o golo que garantiu o triunfo por 2-1 no último compromisso antes do torneio nos Estados Unidos.

Mesmo assim, na estreia diante do Marrocos, não saiu do banco. Foi preterido por Danilo, Fabinho, Luiz Henrique, Matheus Cunha e Danilo Santos, para desespero dos adeptos brasileiros que querem ver o seu "xodó" em campo.

Carlo Ancelotti preferiu não falar sobre o tema na conferência de imprensa a seguir ao empate contra os marroquinos, mas já deu provas de que ouve o clamor popular: de outra forma não teria chamado Neymar, que ainda nem sequer treinou no relvado desde que a equipa chegou aos EUA.

Apesar do italiano não parecer confiar em Endrick, as evidências parecem querer dizer o contrário para o treinador e, num Brasil que tem encontrado dificuldades para marcar, talvez fosse mais fácil para os ouvidos de Ancelotti ouvir reclamações com o avançado em campo do que continuar a ouvi-las com ele sentado no banco. A ver diante do Haiti.

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