Num Brasil tão polarizado politicamente nos últimos oito anos, não é absurdo comparar a fragmentação do cenário político nacional com aquela que continua a ser uma das maiores paixões do país: o futebol. O termo “País do Futebol”, aliás, popularizou-se ao longo do tempo para definir a nação com mais Mundiais na galeria de troféus - cinco no total - e que agora, nos Estados Unidos, Canadá e México, vai atrás do hexacampeonato com a principal figura das últimas três participações da canarinha entre os convocados: Neymar.Nunca antes na história da maior campeã do mundo houve tanto burburinho em torno da convocação - ou não - de um atleta. Dono de um poder mediático capaz de rivalizar com algumas das maiores estrelas do desporto mundial, como Cristiano Ronaldo, Lionel Messi, Stephen Curry ou LeBron James, mesmo sem ter atingido patamares tão impactantes quanto esses nomes, o brasileiro de 34 anos voltou a estar no centro do debate futebolístico nas últimas semanas.O lobby pela convocação do astro envolveu desde jogadores da própria seleção brasileira, como Casemiro e Raphinha, a personalidades da cultura pop, jornalistas, ex-atletas e até o deputado bolsonarista Hélio Lopes (PL), que enviou um ofício à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) pedindo a presença do jogador no Mundial. No documento, Neymar foi descrito como um “símbolo de talento, criatividade, superação e esperança para milhões de torcedores”.A expectativa em torno do regresso de Neymar, quase mil dias depois da última vez em que vestiu a camisola da seleção brasileira - não joga pela canarinha desde 17 de outubro de 2023 -, foi tão grande que se tornou impossível dissociar o anúncio da convocação do espetáculo promovido pela CBF na última segunda-feira, 16 de maio, quando Carlo Ancelotti revelou os 26 nomes escolhidos para o Mundial.Ao contrário da conferência de imprensa discreta de Roberto Martínez na Cidade do Futebol ou do anúncio simples feito por Lionel Scaloni antes do Mundial de 2022, vencido pela Argentina, o que se viu no Rio de Janeiro foi aquilo que parte da imprensa brasileira passou a definir como um verdadeiro “circo” - foi dessa forma que o jornalista Tim Vickery, da estação de televisão brasileira Sportv, resumiu o evento montado pela CBF.Em cerimónia recheada de glamour, celebridades, adeptos e concertos, houve quase uma comemoração como se o Brasil já tivesse conquistado o Mundial no momento em que Carlo Ancelotti anunciou o nome do camisola 10 do Santos. Seguiu-se um frisson com batuques, gritos de festa e palavras de ordem como “olé, olá, Neymar!”, enquanto as câmaras focavam Luciano Huck, apresentador da TV Globo e um dos rostos mais populares do país, a vibrar efusivamente..“Ancelotti resolveu levar este grande circo [Neymar e o seu entorno] para dentro da seleção”, disse Vickery, ressaltando o desconforto do treinador italiano ao responder a uma pergunta sobre a ausência de João Pedro - autor de 15 golos na Premier League e eleito melhor jogador do Chelsea na temporada - para a entrada de Neymar, que soma apenas 15 jogos pelo Santos neste ano. Ironia ou não, João Pedro foi um dos jogadores que publicamente fizeram lobby pela convocação do antigo camisola 10 da seleção. “O Neymar é o Neymar, quero ele na Copa. Assim como o Messi é para a Argentina, o Neymar é para o Brasil”, afirmou à estação de televisão TNT Sports no início de maio.Ancelotti, como seria inevitável, saiu do anúncio da convocatória simultaneamente celebrado e criticado por um Brasil futebolisticamente dividido. Antes do anúncio da lista, uma sondagem do portal ge.com intitulada “Você convocaria Neymar para a Copa do Mundo?” mostrava o país rigorosamente partido ao meio: 50,79% respondiam “não”, contra 49,21% favoráveis ao regresso do craque.Para parte da imprensa e dos especialistas brasileiros, o italiano “compôs” com os interesses que defendiam a presença de Neymar, nomeadamente a própria CBF, atletas influentes e patrocinadores que ainda veem no jogador uma figura de alcance mediático praticamente incomparável no mercado interno. Não é por acaso que, nas primeiras 24 horas após a convocação, o astro já aparecia em pelo menos seis campanhas publicitárias preparadas para explorar o regresso à seleção. Agora que Neymar está garantido nos Estados Unidos, o lobby deve continuar - desta vez para que tenha o maior número possível de minutos em campo..“Hoje era Neymar mais 25. Agora será Neymar mais dez. Está só começando”, resumiu André Henning, um dos principais apresentadores da TNT Sports, alertando para a pressão que deverá existir para que o jogador esteja entre os titulares durante o Mundial. No fundo, a convocação do maior talento produzido pelo “País do Futebol” nos últimos 15 anos muda completamente o ambiente em torno da seleção brasileira para o torneio.Raphinha, do Barcelona, passa a carregar menos pressão, assim como Vinícius Júnior, uma das principais estrelas do Real Madrid. Já Ancelotti, com contrato recém-renovado até ao Mundial de 2030, que será disputado em Portugal, Espanha e Marrocos, tentou conciliar mundos e ficar na posição mais confortável: se ganhar o Mundial com Neymar, terá encontrado o cenário perfeito; se perder, ao menos evita carregar a narrativa de que o Brasil caiu sem Neymar entre os convocados e segue seu trabalho para o próximo ciclo. Agora resta perceber se, durante o torneio, o italiano resistirá ao peso do entorno do craque e às evidências do relvado ou se acabará por ceder às pressões que ajudaram a transformar uma convocatória num espetáculo nacional.nuno.tibirica@dn.pt.Ancelotti inclui Neymar nos convocados do Brasil para o Mundial.Crise? Treinadores brasileiros ficam fora de um Mundial pela primeira vez em 96 anos