António Conceição esteve parado cerca de três anos e meio, mas recusa a ideia de que tenha estado ausente do futebol. O treinador português, que nos últimos anos tem construído o seu percurso sobretudo fora de Portugal, admite que a interrupção na carreira teve uma componente inevitável, nascida da forma como terminou a sua ligação à federação dos Camarões, mas também uma dimensão estratégica e até pessoal, num período em que optou por esperar pelo desfecho total do processo jurídico antes de voltar a aceitar um novo desafio. “Foi uma paragem que teve um bocadinho das duas coisas, forçada e não forçada”, resume o técnico, sobre o afastamento dos bancos. A formulação não é inocente e traduz bem aquilo que considera ter sido a realidade dos últimos anos. Por um lado, houve uma circunstância objetiva, que não controlou e que teve origem direta na sua saída da seleção dos Camarões. Por outro, houve também uma decisão racional, tomada em conjunto com a estrutura que o acompanhava, de não regressar de imediato ao mercado enquanto não estivesse encerrado, em definitivo, o litígio com a federação camaronesa. “Os primeiros três anos foram devido à situação da minha saída dos Camarões”, explica. “Tivemos de mover um processo contra a federação, devido à rescisão do contrato de uma forma unilateral. E não houve sequer uma reunião para termos um acordo.”É neste ponto que a história pessoal de António Conceição se cruza com uma crítica mais ampla ao funcionamento da justiça no futebol. O técnico deixa claro que nunca encarou o caso como um simples diferendo administrativo. Do seu ponto de vista, a rutura não teve causa desportiva e resultou essencialmente de uma alteração de poder. “Não havia motivos desportivos”, insiste. “Os resultados estavam a ser excelentes. A equipa estava numa fase excecional de evolução.” Na sua leitura, tudo mudou com a eleição de um novo presidente da federação, que terá entendido mudar a equipa técnica por razões de confiança política e institucional. “Aquilo teve a ver com a mudança do presidente da federação. Houve uma eleição e, a partir dessa eleição, houve uma mudança de presidente que, quando entrou, decidiu mudar o staff técnico para escolher um treinador local, um treinador camaronês.”António Oliveira recorda que a sua equipa tinha renovado contrato pouco antes dessa mudança. Essa renovação surgiu a pedido do ministro e do anterior presidente da federação, numa altura em que o trabalho realizado estava a ser validado. “A verdade é que, passado um mês de termos renovado, houve a eleição na federação com a entrada de outro presidente. E ele entendeu que deveria trabalhar com um agente da confiança dele. Esse terá sido o motivo.” O problema, acrescenta, é que essa mudança nunca foi acompanhada de um processo negocial minimamente aceitável. “Obviamente, para haver esse motivo, teria que haver um acordo de rescisão do contrato, sobre o qual não fomos achados nem ouvidos para a situação.”.Perante esse cenário, o caso avançou para a FIFA. E, de acordo com o treinador, a primeira resposta foi rápida e inequívoca. “A FIFA, na primeira instância, passado três meses do processo ter entrado, deu-nos razão logo”,afirma. O que para António Oliveira parecia ser uma questão clara, no entanto, transformou-se depois num percurso longo e desgastante, porque a federação recorreu. “A partir daí, é que o processo demorou muito tempo.” A crítica do treinador incide precisamente sobre essa capacidade de arrastar litígios através de sucessivos recursos, prolongando a indefinição muito para além do que considera razoável. “As partes têm de ser ouvidas. Houve uma reunião através de uma videoconferência. Entraram as partes, o representante da federação, que era um advogado, e a minha parte. Fomos ouvidos, fomos inquiridos. E depois, a partir dali, houve a avaliação da situação.”A decisão do Tribunal Arbitral do Desporto voltou a ser favorável. Mas nem isso bastou para encerrar o caso. “O TAS deu-nos razão”, sublinha. Ainda assim, seguiu-se mais um episódio processual, que o próprio admite ter descoberto quase por surpresa. “Eu não sabia que existia esse tribunal”, conta, referindo-se a um tribunal federal chamado a analisar eventuais falhas processuais. “Esse tribunal ajuíza se o processo tem falhas. O processo é reaberto e é analisado o porquê dessas falhas.” Também aí a decisão foi a seu favor. “A verdade é que esse tribunal também nos deu razão. Só a partir daí, o processo ficou concluído.”O ponto central, para António Conceição, é que a razão acabou sempre por lhe ser reconhecida, mas tarde demais para evitar um hiato com peso real na carreira. É esse intervalo, mais do que o litígio em si, que vê como o sinal claro da lentidão da justiça desportiva. Porque, lembra, um treinador não tem o mesmo tempo de espera que um tribunal. O mercado mexe-se rapidamente, os projetos aparecem e desaparecem, e a perceção externa muda com facilidade. “As pessoas também julgam por isso”, admite. “Julgam que, ao estar tanto tempo afastado do futebol, se perderam conhecimentos, se perderam capacidades.” É uma leitura de que discorda em absoluto, mas que reconhece existir no meio..A decisão de não regressar ao trabalho enquanto o processo não estivesse encerrado foi tomada por prudência e aconselhamento jurídico. “A partir do momento em que metemos o assunto na FIFA, o advogado aconselhou-nos que seria bom aguardarmos até ao final do processo para voltarmos outra vez ao mercado de trabalho”, explica. “Cumprimos aquilo que o advogado nos aconselhou” Só depois disso se voltaram a abrir verdadeiramente as portas do mercado. Desde então, existiram vários contactos, embora nem todos correspondessem ao tipo de desafio que procura. “Tivemos algumas abordagens para alguns mercados, para algumas zonas do globo que não nos interessavam muito”. A proposta do Irão foi o exemplo mais marcante, desde logo por envolver boas condições financeiras para toda a equipa técnica. “Era uma proposta muito boa para todos nós. Para mim e para o meu staff técnico.” Ainda assim, recusou. E a razão foi, acima de tudo, geopolítica e pessoal. “Eu decidi não aceitar”, recorda. “Porque me parecia que isto iria acontecer, o conflito que infelizmente afeta aquela zona do globo e a zona do Irão.” O treinador admite que já existiam sinais de tensão na região e que essa perceção pesou decisivamente. “Falava-se que poderia eventualmente haver ali qualquer coisa relativamente à postura do governo do Irão, aquele conflito que já existe há muito tempo com Israel, arrastando os Estados Unidos. E eu sinceramente não me agradou essa possibilidade de ter de ir para uma zona onde pudesse existir um conflito. E ter de voltar. Eu para lá não vou. E não fui.”Houve também abordagens de seleções africanas, mas aí o bloqueio foi outro: a impossibilidade de manter intacta a equipa técnica que o acompanha. “Já tive abordagens de seleções para regressar a África”, refere. “Ou porque o budget não é satisfatório para o staff técnico, ou porque só me permitem levar um treinador e ter de levar com mais pessoas locais. E o meu staff é o meu staff. Eu não abdico deles. Somos quatro”, explica. E esse núcleo, deixa claro, não é negociável.A Roménia, país onde viveu alguns dos maiores sucessos do seu percurso, voltou também a surgir como hipótese. Mas, mais uma vez, sem reunir as condições certas. “A Roménia já teve abordagens também”, admite. “Mas para projetos menores. Nós na Roménia já ganhámos tudo o que lá tínhamos para ganhar. Fomos campeões, ganhámos a taça, ganhámos as supertaças, já fomos às competições europeias.” Por isso, considera que um regresso só faria sentido se fosse para um patamar superior. “Eu acho que para ir para a Roménia, onde de facto nós fomos muito felizes e temos uma boa imagem, o que seria lógico era agarrar um projeto maior.” A conclusão é direta: “Eu quero regressar ao mercado de trabalho, mas não quero regressar só porque sim.”Ao falar da Roménia, António Conceição faz ainda questão de referir o sucesso recente de outros portugueses no campeonato daquele país, precisamente para sublinhar que continua a ser uma liga relevante e um espaço de afirmação para treinadores nacionais. “Eu falei na Roménia porque, além de já termos lá estado, agora também há portugueses com sucesso”. E aponta dois nomes em concreto: “O Filipe Coelho, que está neste momento à frente do campeonato com o Craiova, e o Bruno Romão, que faz parte do staff técnico.” Para o treinador, estes casos confirmam duas ideias: a competência dos técnicos portugueses e a capacidade daquele mercado para relançar carreiras e dar visibilidade. “São dois jovens treinadores que estão a fazer um bom trabalho, com fortes possibilidades de poderem ser campeões na Roménia”, observa. .A longa paragem trouxe inevitavelmente custos, mas António Conceição recusa que se leia esse intervalo como sinónimo de estagnação. Pelo contrário: apresenta-o também como um tempo de observação, atualização e reflexão. “Não vou por esse tipo de juízo. Há treinadores no mercado do futebol, conceituados, que fazem uma pausa nas suas carreiras. Uma pausa de um ano, dois. Porque isto é uma vida de grande pressão.” E a pausa, acrescenta, pode até ser útil. “Às vezes, uma paragem dá para fazer uma reflexão, dá para fazer um bocado de aprendizagem, dá para ter outros contactos, temos mais disponibilidade de tempo. Eu continuo a ir ao estrangeiro, às vezes até vou dar formação.” E cita como exemplo recente a presença num fórum no Egito. “Fui convidado com grandes figuras do futebol mundial. Falamos do Fabio Capello, do Ruud Gullit, do Steve McMahon. Partilhamos conhecimento, partilhamos conversas, e isso também é fazer crescer.”Quanto ao futuro, a disponibilidade para regressar é clara. “Quero regressar ao mercado de trabalho, mas não quero regressar a qualquer preço”, é a ideia que atravessa toda a sua reflexão. E isso aplica-se tanto ao estrangeiro como a Portugal. No plano interno, admite que ainda não existiram abordagens concretas. “Não vamos estar aqui a falar de uma coisa que é fictícia. Não temos tido abordagens no âmbito nacional.” Ainda assim, não fecha essa porta. “Portugal é Portugal. Estamos em casa, estamos perto da família. Obviamente que isso não depende só de uma parte. Depende fundamentalmente da outra parte.”É nessa fase da conversa com o Diário de Notícias que António Conceição amplia o foco e faz uma leitura do futebol português. O primeiro grande elogio vai para a formação, área em que considera que Portugal se impôs claramente como potência internacional. “Nós somos, de facto, uma grande potência mundial ao nível da formação. Temos muito recentemente o título conquistado ao nível dos sub-17”. E acrescenta que esse mérito se estende também ao trabalho dos clubes. “Ao nível dos clubes, também os jovens, quando participam na Youth League, têm participações muito, muito valiosas. Portanto, isso diz bem do nosso potencial.”António Conceição entende que esse trabalho de base ajuda a explicar o reconhecimento internacional dos treinadores portugueses. Na sua leitura, Portugal não exporta apenas talento dentro das quatro linhas, exporta também conhecimento, capacidade metodológica e competência técnica. E essa reputação é um ativo que deve ser valorizado. Ao mesmo tempo, considera que o crescimento da formação e da preparação tática elevou também o nível competitivo dos clubes portugueses. “Vemos os clubes mais bem organizados, dotados de condições de trabalho fantásticas”,refere. Mas o diagnóstico não é só elogioso. O treinador entende que o futebol português continua a carregar vícios de comportamento e de ambiente que prejudicam a sua imagem e travam uma afirmação ainda maior. “Nós temos visto que tem havido grandes problemas no nosso futebol, com exposições públicas, com atos públicos que não beneficiam nada a modalidade.” A crítica vai para o ruído, tensão, suspeição permanente e um discurso que, no seu entender, muitas vezes ultrapassa os limites desejáveis. “Essa mentalidade tem de mudar”, defende. “Tem de se ganhar, mas não se pode ganhar a qualquer custo. Tem de se ganhar com fair play, tem de se ganhar dentro das quatro linhas, tem de se ganhar com desportivismo e tem de se ganhar com a capacidade que cada equipa tem.”Na apreciação ao momento competitivo do futebol português, António Conceição encontra sinais positivos. Destaca, por exemplo, a capacidade de algumas equipas para se afirmarem em contextos de exigência alta e fazerem crescer a marca do campeonato. Fala do FC Porto como uma equipa competitiva, agressiva e fiel a uma identidade histórica. Identifica o Sporting como exemplo de capacidade de reação e superação, lembrando a reviravolta europeia que, diz, ficará na memória. “Sinceramente, como homem de futebol, depois daquela exibição péssima que fizeram no primeiro jogo, eu não esperava uma reação tão forte da equipa do Sporting no jogo seguinte”, confessa. “E ainda bem para eles e ainda bem para o futebol português.” Ao mesmo tempo, vê no Sporting de Braga um caso interessante de afirmação sustentada dentro do campeonato. E esse crescimento, na sua perspetiva, é importante porque ajuda a reduzir a distância para os principais candidatos ao título e a tornar a competição mais exigente. António Conceição acredita que o crescimento do futebol português depende, não apenas do sucesso de dois ou três emblemas, mas do fortalecimento do conjunto da liga, da densidade competitiva e da exigência interna. Se houver mais equipas fortes, argumenta, o nível médio sobe, os jogos tornam-se mais duros e os clubes chegam mais bem preparados à Europa. É por isso que, mesmo quando fala dos sucessos recentes, insiste em enquadrá-los numa lógica de evolução coletiva. “Sinto uma melhoria relativamente àquilo que é a competição e o nível competitivo das equipas.” Na sua perspetiva, isto traduz uma valorização real da marca futebol português, acompanhada por uma organização mais profissionalizada e melhores condições de trabalho..Queiroz vence António Conceição e vai jogar a final da CAN.Decisão de tribunal da UE obrigará FIFA a mudar regulamentos e clubes a protegerem-se