Antiga referência do futebol brasileiro, São Paulo vive crise sem fim e teme queda inédita
Houve um tempo, especialmente nos anos 1990 e na primeira década do século XXI, em que falar de futebol brasileiro era falar do São Paulo Futebol Clube. Um dos clubes mais vitoriosos do país, bicampeão da Taça Libertadores e do Mundial de Clubes (1992 e 1993, contra Barcelona e Milan, respetivamente), voltou a chegar ao topo do mundo em 2005, ao superar o Liverpool, e foi o único a conquistar três campeonatos brasileiros de seguida (2006, 2007 e 2008). Há menos de vinte anos, dava passos largos e caminhava para se afirmar como o maior clube do Brasil.
Referência também fora de campo, sempre alvo de elogios pela estrutura e pelo trabalho com as camadas jovens - revelou, entre outros, craques como Kaká, Rogério Ceni, Casemiro, Lucas Moura, Denílson e Hernanes -, o São Paulo, no entanto, de forma quase inexplicável, parou no tempo. Do tricampeonato para cá, foram apenas três títulos, bem espaçados entre si - uma Taça Sul-Americana, um Paulistão e uma Taça do Brasil -, campanhas discretas nos terrenos onde costumava reinar, a Libertadores e o Campeonato Brasileiro, e um fantasma do rebaixamento a rondar o Morumbis, estádio onde atua a equipa.
Desta vez, num ano em que a dívida segue alta e houve o primeiro impeachment da história do clube, a situação parece ainda mais difícil. Nunca ter sido rebaixado é, afinal, um dos grandes orgulhos do adepto são-paulino. Os três principais rivais do estado - Corinthians, Santos e Palmeiras, este último em duas ocasiões - já passaram pelo segundo escalão do futebol brasileiro.
Passadas 23 rondas do torneio, a equipa, comandada desde maio pelo histórico Dorival Júnior - vitorioso no clube e antigo treinador da seleção brasileira -, soma apenas 27 pontos, três a mais que o Mirassol, primeiro a abrir a zona de rebaixamento. Para tornar a situação ainda mais tensa, as três equipas que separam o Tricolor do clube do interior são outros três gigantes do Brasileirão: Internacional, Grémio e Santos. Há ainda o Vasco da Gama dentro do 'Z-4', numa luta contra a queda que promete durar até às últimas jornadas.
Mais preocupante ainda é o retrospecto recente do clube na competição. "O São Paulo vive um momento muito ruim, não vence desde abril no Brasileirão", conta ao DN Ulisses Lopresti, setorista do ge (Globo Esporte). "Foi um momento muito turbulento com o Roger Machado [técnico anterior] e o Dorival Júnior ainda não conseguiu arrumar a casa", explica. Dorival, aliás, é o terceiro comandante são-paulino do ano, que começou com Hernán Crespo no banco de reservas.
Com uma dívida de cerca de 2,45 mil milhões de reais, de acordo com o ge, o São Paulo encontra dificuldades para manter o clube em dia. As estruturas, outrora referência para o resto do país, ficaram para trás e foram-se precarizando. "Quando voltei para treinar o clube, não havia nem água na piscina", disse Rogério Ceni, maior ídolo da história do emblema paulista, quando foi treinador do São Paulo, em 2022.
A formação, também sempre elogiada, segue a render bons frutos, mas o clube pouco consegue aproveitar de Cotia, onde são formados os jogadores. Na sua gestão, o presidente Júlio Casares, alvo de impeachment este ano, foi acusado de promover um "saldão" de atletas da formação, aceitando propostas consideradas abaixo do valor dos jogadores. Alguns dos maiores ativos do clube saíram nessa leva, como Matheus Alves e Henrique Carmo (CSKA Moscovo) e Lucas Ferreira (Shakhtar Donetsk). Até o FC Porto aproveitou a "promoção" tricolor para agarrar William Gomes.
Sem dinheiro para grandes investimentos, uma das soluções foi encontrar jogadores livres ou oportunidades no mercado e, nesta leva, chegaram alguns portugueses ao São Paulo nos últimos anos. Cédric Soares, campeão europeu em 2016, foi o primeiro deles, mas, após épocas abaixo das expectativas, treina agora separado do grupo. Mais recentemente, chegaram outros dois lusos, Aurélio Buta e Domingos Duarte - e o segundo já começa a chamar a atenção dos adeptos.
"Está a jogar bem, mas ainda é muito começo", avalia Lopresti sobre Domingos Duarte. Para o jornalista, além das atuações, o central português começa a ganhar espaço também pela liderança. "É um jogador experiente, muitos anos de La Liga e desde a conferência de imprensa de apresentação, fala um pouco em nome do grupo. Na derrota com a Chapecoense [último domingo, dia 23], foi ele quem apareceu na zona mista, ou seja: tem pouco tempo de casa e foi ele que deu as caras", destaca.
Buta, por outro lado, ainda é uma incógnita. O lateral chegou como uma oportunidade de mercado e, nos primeiros jogos, ainda não conseguiu convencer. "É mais uma opção para reserva do que necessariamente alguém que vai mudar a cara do São Paulo. Tem toda a questão da adaptação, claro, que pode levar algum tempo, mas ele não foi tão bem", avalia Lopresti.
E tempo é justamente o que o São Paulo não tem. Com a ameaça de um rebaixamento inédito cada vez mais presente, o gigante que há menos de duas décadas parecia caminhar para dominar o futebol brasileiro precisa agora olhar para baixo da tabela e tentar estancar uma crise que atravessa campo, estrutura e direção. O Tricolor volta a tentar acabar com o jejum de vitórias no Brasileirão neste sábado (29), quando recebe o Bragantino no Morumbis.

