Portugal volta a ter atenções dirigidas para a Volta a Itália, prova que tem sido, recentemente, o principal palco mediático dos ciclistas portugueses, isto depois da conquista de uma etapa de montanha de João Almeida e Rúben Guerreiro (2023 e 2020), da camisola do prémio da montanha ganha por Guerreiro (2020) e do terceiro lugar da classificação geral de Almeida em 2023.Após uma fuga, Afonso Eulálio conquistou tempo importante ao pelotão e é o novo líder da corrida. Veste a camisola rosa, apesar de ter perdido na meta para Igor Arrieta, da UAE. A grande dúvida é saber se ficou afetado pela queda que lhe marcou a jornada na aproximação a Potenza, nesta 5.ª etapa. No pódio era só sorrisos.Com 2,51 minutos de vantagem para Igor Arrieta e 6,12 para Giulio Ciccone, anterior líder, e restante principal oposição, a esperança é que Eulálio possa comandar a prova alguns dias. Partiu para a segunda Grande Volta da carreira com Santiago Buitrago como líder, porém o colombiano já abandonou. Só pensava em etapas o português. Mas agora é lógica a proteção ao corredor recrutado em 2025 por dois anos, fazendo deste o principal cartão de visita na sua curta carreira ainda. A etapa 7 é para sprinters, o primeiro grande teste, que terá, certamente, mexidas entre favoritos é o Blockhaus, na sexta-feira. Os 13 quilómetros de subida, com pendentes médias de 8%, já dirão se Eulálio terá a meta de agarrar a rosa mais uns dias e se sonha, efetivamente, com um lugar no top-10 a partir deste momento..Giro de Itália: Afonso Eulálio torna-se o terceiro português a vestir a camisola rosa. "Ainda não acredito".Talentoso desde jovem, é considerado um produto de Santa Maria da Feira. O natural da Figueira da Foz abraçou o projeto e lá subiu a profissional em 2020. Em ano e meio, mesmo ao serviço de líderes, destacou-se pelo trabalho, comandando pelotões, sendo requisitado pela Glassdrive-Q8-Anicolor. Lá, teve poucas chances de liderar face ao plantel que teve, por exemplo, o título e ainda o segundo e o terceiro postos na Volta a Portugal. Na ABTF-Betão Feirense, foi o escudeiro de António Carvalho para o terceiro posto na Volta a Portugal de 2023. "O meu menino de ouro", elogiava, Carvalho, projetando o futuro promissor do jovem. Mas o regresso a Santa Maria da Feira tinha voos maiores à espreita. O sétimo lugar na Corrida da Paz, o quinto em Ordizia e o segundo na Prova de Abertura despertaram curiosidade dos olheiros. Saiu com um top-5 das Astúrias em 2023, foi segundo no Troféu Joaquim Agostinho e entrou na Volta a Portugal com a convicção de que iria para o estrangeiro. Mas foi na Volta que fez o país acreditar numa vitória portuguesa. Comandou desde o final da etapa da Torre, onde foi segundo, até à Senhora da Graça, em Mondim de Basto. Nessa 9.ª etapa, viu ataques de todo o lado, até do anterior vencedor da prova, Colin Stussi, em 2023. Seria a Sabgal/Anicolor, por Nych, a dar o golpe de misericórdia nas ambições do jovem português, mas Eulálio impressionou pela fibra. Chegou exausto, mas a solo foi à procura dos rivais, tentando, por tudo, manter a amarela. O desgaste pesou no contrarrelógio de Viseu e caiu de sexto a décimo.Aos 22 anos conseguiu dar o salto, pouco comum atualmente. As equipas World Tour preferem jovens sub-19 e Eulálio passou do terceiro escalão para uma equipa profissional na primeira divisão. E a ambição sempre foi essa, tendo até um treinador estrangeiro. Assume-se como trepador, mas, particularmente, para provas íngremes. Nunca foi líder efetivo da equipa em provas de uma semana, mas é para lá que aponta na Bahrain, além de clássicas mais onduladas. É tido como um jovem com imenso talento e, em Portugal, tanto se elogiava a sua coragem a correr como se apontava alguma rebeldia em certos momentos, onde a estratégia devia imperar. A viver essa mesma dualidade, mas com mais maturidade, Eulálio corre com a camisola rosa e vai testar-se ao mais alto nível em montanhas onde ainda teve oportunidade e num contrarrelógio de 42 km na etapa 10 que é, até, mais difícil à partida do que dias com colinas. Liderar a prova não surpreende quem o conhece bem, não só pelo potencial, mas por ter o "descaramento" de atacar de longe e de procurar fugas.Portugal deve estar atento. A seleção já está. Depois do top-6 na Grã-Bretanha, Eulálio foi aos Mundiais do Ruanda ser nono classificado. Um grande resultado para a prova em linha tendo em conta ser o primeiro ano de World Tour. Explosivo, atacante, é a sonhar com uma clássica ou com um grande Mundial que Portugal pode contar. Com as devidas distâncias para Rui Costa, que, quando foi campeão do mundo, já tinha um enorme palmarés em provas de um dia e de uma semana. Sem contrato ainda para 2027, tem uma oportunidade de ouro para se mostrar. João Almeida quando andou de rosa em 2020, durante 14 dias, já tinha feito quatro top-10 em provas por etapas. Como tal, não seria um líder tão inesperado quanto Eulálio é hoje. Tem a palavra o jovem da Figueira da Foz. .Giro de Itália: Afonso Eulálio torna-se o terceiro português a vestir a camisola rosa. "Ainda não acredito".Pogacar sagra-se bicampeão do mundo de fundo em ciclismo. Afonso Eulálio ficou em nono lugar