Para um brasileiro que vive em Portugal e divide a torcida entre a sua seleção e aquela do país que escolheu para viver, o início da semana foi para esquecer. As eliminações de Brasil e Portugal deixaram um sabor amargo não apenas pelo adeus ao Mundial em si, mas especialmente pela forma quase previsível como aconteceram e que, embora por razões diferentes, passaram pela insistência de Roberto Martínez e Carlo Ancelotti nas principais estrelas das respetivas equipas: Cristiano Ronaldo e Neymar.Se por um lado Martínez "morreu abraçado" com o seu capitão, tendo inclusive deixado a seleção portuguesa após o torneio - será substituído por Jorge Jesus -, Ancelotti resolveu dar minutos a Neymar justamente no momento mais inexplicável do Mundial. A partida contra a Noruega, que poderia ter tido outro destino caso Bruno Guimarães convertesse um penálti aos 12 minutos, já era dura antes da entrada do camisola 10. A partir daí, porém, o Brasil praticamente deixou de competir.A estrela brasileira, que até então apenas havia entrado em campo numa partida já definida contra a Escócia (3-0), na fase de grupos, foi lançada aos 66 minutos e, depois disso, a seleção desmoronou. Para promover a entrada de Neymar, Ancelotti deslocou Endrick, que havia entrado minutos antes e tido uma oportunidade clara de golo, para o extremo direito da equipa. A troca passou a ser tão lamentada por imprensa e adeptos quanto o penálti desperdiçado por Bruno Guimarães ou a ocasião falhada pelo jovem avançado do Real Madrid.Isso porque, enquanto atuou como referência ofensiva, Endrick pressionou constantemente a saída de bola da defesa norueguesa. Depois que passou para a ala direita, os centrais da Noruega encontraram muito mais conforto para construir o jogo. Neymar, visivelmente fora de forma, não conseguiu sequer aproximar-se dessa intensidade. Já Endrick ficou longe da zona onde mais ameaça, enquanto Vini Jr., principal arma ofensiva brasileira durante o torneio, teve de assumir funções mais defensivas, afinal, Neymar também não tinha capacidade física para recompor.O primeiro golo da Noruega começou, aliás, precisamente com Schjelderup a passar com facilidade por Endrick, sem características de marcador pelo lado direito. Vini Jr., que já não vinha conseguindo desequilibrar, desapareceu ainda mais da partida. O Brasil transformou os minutos finais em desespero, viu Haaland marcar o segundo e Neymar acabar mais lembrado por uma quase expulsão e por uma provocação sem sentido a Nyland, guarda-redes norueguês, do que propriamente pelo golo de honra que pouco adiantou na derrota por 2 - 1.Embora o favoritismo apontasse para a seleção canarinha frente aos vikings, a pior colocação do Brasil na história dos Mundiais - 11º lugar - não pode ser considerada propriamente surpreendente, tendo em conta o ciclo desastroso da equipa. Desde a saída de Tite, após o Qatar 2022, passaram pela seleção Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e, por fim, Carlo Ancelotti, que chegou pouco mais de um ano antes do Mundial.Carletto teve pouco tempo para implementar as suas ideias, é verdade, mas não está isento de responsabilidade pela eliminação. O italiano nunca pareceu ter total domínio do grupo e, embora tenha sido prejudicado por lesões importantes, insistiu durante demasiado tempo num modelo que não funcionava. Mais grave ainda: acabou por ceder à pressão externa em torno de Neymar e lançou-o em campo no pior momento possível, comprometendo ainda mais as hipóteses brasileiras de seguir em frente.Em Portugal, o cenário foi diferente, mas também deixou uma sensação semelhante. Cristiano Ronaldo continua a ser um dos maiores jogadores da história do futebol e ainda é capaz de decidir jogos, mas já não consegue ser a principal estrela de uma seleção que pede outros protagonistas. Gonçalo Ramos, nos poucos minutos que teve durante o torneio, voltou a mostrar argumentos para assumir um papel maior, enquanto Vitinha, João Neves, Nuno Mendes, João Félix e companhia também foram ofuscados por CR7. Já o Brasil terá pela frente uma renovação ainda mais profunda. Além de Neymar, que deverá despedir-se da seleção muito antes do que dele se esperava, aos 34 anos, vários jogadores dificilmente voltarão a disputar um Mundial, como Alisson, Ederson, Danilo, Douglas Santos, Alex Sandro, Casemiro, Fabinho e o capitão Marquinhos."Temos que assumir essa culpa para que as próximas gerações tenham tranquilidade para trabalhar. A gente pede paciência com os mais jovens", afirmou o central do PSG após a partida. "Peço que apoiem desde já. São quatro anos em que vamos ter que trabalhar para conquistar coisas grandes na próxima Copa", complementou.O Brasil chegará ao próximo Mundial com o maior jejum de títulos da sua história: 28 anos. Se desta vez Carletto terá quatro anos para trabalhar desde o início, também já não terá desculpas. E tanto para Brasil quanto para Portugal, o Mundial de 2026 irá ficar marcado como o torneio em que se percebeu que insistir no passado deixou de ser opção..Lobby por Neymar no Mundial foi de deputado a atleta cortado e transformou a convocatória num 'grande circo'.De Pelé e Eusébio ao menino do Rio Matheus Nunes: os laços que unem Brasil e Portugal dentro das quatro linhas