"A seu tempo, direi a verdade a todos os Portugueses". Ronaldo confirma abandono do estágio da seleção
JOSE SENA GOULAO

"A seu tempo, direi a verdade a todos os Portugueses". Ronaldo confirma abandono do estágio da seleção

Capitão deixou o local de treino 11 minutos após ouvir Jorge Jesus negar "caso". Se é o adeus definitivo ao fim de 234 jogos de quinas ao peito, eis a questão.
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Depois de 8472 dias (23 anos, 2 meses e 10 dias), 234 jogos, 146 golos e três troféus (Euro2016, Liga das Nações de 2019 e 2025), Cristiano Ronaldo abandonou a seleção nacional portuguesa. Uma decisão radical do jogador, em pleno estágio da equipa, em Copenhaga, na véspera do jogo com a Dinamarca (hoje, às 19h45, na RTP1), que tirou o tapete ao selecionador, Jorge Jesus, e ao presidente Pedro Proença.

Uma hora depois de se saber que tinha abandonado o treino, o capitão quebrou o silêncio nas redes sociais, numa mensagem em que confirmou a decisão de deixar o estágio, prometendo dizer, a seu tempo, “a verdade” aos portugueses. “Após a conferência de imprensa do selecionador nacional, e no seguimento de uma conversa com o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, tomei a decisão de deixar o estágio da seleção nacional. A seu tempo, direi a verdade a todos os portugueses sobre as razões que motivaram a minha saída da equipa nacional, à qual sempre me dediquei. Agora é tempo de desejar boa sorte a Portugal e a todos os meus companheiros de equipa, sem exceção”, manifestou CR7 no Instagram, levando assim a notícia ao Mundo.

Depois da conferência de Imprensa de Jorge Jesus, de antevisão à partida frente à Dinamarca para a Liga das Nações, Ronaldo foi visto a sair do Estádio Parken. De repente, o diretor João Pinto entrou no relvado e avisou Jorge Jesus da ausência. Foi então que o selecionador, primeiro falou ao telemóvel com alguém e depois correu para o balneário, talvez numa tentativa de convencer Ronaldo a regressar, mas ele já tinha abandonado o local e ido para o hotel da seleção recolher as suas coisas, mudado depois de hotel para evitar reencontros pós-abandono.

A decisão estava tomada e não havia volta a dar. E, quando se soube do plano de voo do jato privado do capitão, que saíra de Madrid rumo a Copenhaga, todos perceberam que o caso era grave e que ele tinha decidido ir embora.

Só depois de CR7 anunciar que tinha abandonado a seleção a Federação Portuguesa de Futebol informou que o internacional português deixou o estágio, que decorre em Copenhaga. “A preparação dos encontros frente à Dinamarca e à Noruega, este último a disputar no Estádio do Dragão, prosseguirá nos termos previstos, com os restantes 24 jogadores convocados. Toda a comitiva mantém o foco absoluto nos próximos compromissos da seleção nacional e na concretização dos objetivos definidos”, pode ler-se no comunicado da FPF, cujo presidente Pedro Proença se manteve em silêncio.

Convencer Ronaldo a regressar é algo que os mais próximos do avançado do Al Nassr não acreditam que pudesse acontecer. Aliás, sempre que se desentendeu com um selecionador - Paulo Bento, Carlos Queiroz, Fernando Santos - venceu esse braço de ferro.

Se é o adeus definitivo ao fim de 234 jogos de quinas ao peito, eis a questão. Cristiano Ronaldo pode ser alvo de uma suspensão entre um e seis meses, além de uma multa entre cerca de 500 e mil euros, depois de ter abandonado o estágio. É o que prevê o Regulamento Disciplinar da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), no número dois do artigo 160.º do Regulamento Disciplinar.

Jesus: o combinado com Ronaldo e o caso inventado

“Ronaldo não é o principal tema para eu estar aqui, mas sim a Dinamarca”, começou por dizer Jorge Jesus, na antevisão ao jogo com a Dinamarca, garantindo que “não houve caso algum” com CR7. Se não houve, passou a haver, porque o jogador do Al Nassr iria falhar o treino da seleção, depois do selecionador garantir que ele iria treinar e mostrar que estava tudo bem. Pura ilusão.

“Podem pôr as questões que quiserem sobre qualquer jogador. Quanto ao Ronaldo, uma pergunta é pouco. Três é de mais. Só deixo fazer duas perguntas sobre o Ronaldo. O Ronaldo não é o principal tema de eu estar aqui. O principal é a Dinamarca”, avisou o selecionador nacional antes de explicar “o caso que não é caso” e que passou a ser um divórcio.

Tudo se precipitou depois do capitão, que foi titular na vitória de Portugal sobre o País de Gales (1-0), ter ficado no banco durante o triunfo sobre a Noruega (2-1) e ter deixado o relvado sem participar nos habituais cumprimentos aos adeptos. Jesus disse que ira falar com ele para perceber porque fez isso, mas a tensão entre ambos foi visível nas notícias que denunciavam uma promessa por cumprir do técnico.

“É verdade que eu combinei com ele [Cristiano Ronaldo], criámos um plano como aquele que fizemos com o Bruno Fernandes. Disse ao Cris [Cristiano Ronaldo], que o jogo na Noruega e na Dinamarca não iria jogar. Conheço completamente as condições físicas do Cris e sei, porque já era assim na Arábia Saudita, quando havia jogos de três em três dias, raramente o Cris jogava todos. Além disso, o Cris nunca treina no primeiro nem no segundo dia após o jogo. Nunca.” E assim foi também na seleção, falhando dois treinos após o jogo que não jogou com a Noruega... antes de falhar um terceiro e último.

Jorge Jesus lembrou depois que o capitão mostrou disponibilidade total para a seleção e sem exigências de titularidade desde o início: “Ele disse “se é para jogar jogo, se é para ficar no banco fico, o que o mister quiser”. Nunca se negou a nada.” Até ontem, que não só se negou a treinar como abandonou o local de treino 11 minutos depois de ouvir a conferência de Jorge Jesus, onde o técnico lembrou que o papel dele, enquanto selecionador é avaliar o que o jogo pede e foi isso que ele fez no jogo com a Noruega, que Portugal venceu (2-1).

“Tinha combinado com ele que não jogava os dois primeiros jogos, mas se calhar até ia precisar dele nos últimos minutos Mas o jogo disse-me outras coisas e eu não o coloquei no jogo”, explicou Jesus, garantindo que ele é que manda na equipa, mesmo com enorme respeito pelo estatuto de Ronaldo: “Tive tantos ao longo da minha carreira. Mas não queiram fazer um caso. Não há nenhum jogador que fique contente por não entrar depois de andar 20 ou 30 minutos a aquecer. Quanto mais o Cris... o Pelé, o Maradona.”

E depois de prometer que só respondia a duas ou três perguntas sobre Ronaldo, os jornalistas foram insistindo e Jesus foi respondendo ao seu jeito sempre que questionado, e dizendo que foram os jornalista a criar um caso que, segundo ele em existia. “Obrigaram-me a falar com o Cris de um caso que não havia caso. “Cris, em Portugal está a falar-se tanto que temos falar, não estou a perceber o que está a acontecer.” Ele disse, “estou aqui para tu decidires. Queres que eu jogue, eu jogo. Queres que eu vá para bancada, eu vou.””

Ora, se não há caso porque o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença, viajou de urgência para Copenhaga como foi noticiado para mediar o conflito entre capitão e selecionador. “O Proença falou comigo e com o Cris porque é o papel de um presidente. Falar com capitão, com o treinador quando há ruídos. Se não houvesse esse caso ele vinha na mesma, mas estivemos a falar os três. Já tinha falado com o Cris depois do jantar. Ele não veio resolver nada porque não havia nada para resolver”, insistiu Jorge Jesus, lamentando a falta de interesse dos jornalistas na sua estratégia para o encontro com a Dinamarca.

O que o selecionador ainda não sabia é que Ronaldo, o capitão da seleção iria deixá-lo na mão antes de um jogo e com um discurso que faz antever outra verdade para além da revelado por Jorge Jesus.

isaura.almeida@dn.pt

"A seu tempo, direi a verdade a todos os Portugueses". Ronaldo confirma abandono do estágio da seleção
Jorge Jesus: "Ronaldo não é o principal tema, mas sim a Dinamarca"
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