O Estádio José Alvalade recebe no domingo (18h00, Sport TV1) o 329.º dérbi entre Sporting e Benfica da história, numa partida da 30.ª jornada da I Liga, que será arbitrada por João Pinheiro, que tem muito mais em jogo do que o simples resultado final. Além dos três pontos da vitória que são essenciais ao objetivo de ambos - aproximação ao líder FC Porto -, leões e águias travam, para já, também uma luta pelo 2.º lugar da tabela e a possibilidade de jogar um play-off de acesso à Liga dos Campeões, prova que garante uma verba entre os 35 milhões de euros, no caso do Sporting, e os 45 milhões de euros, no caso do Benfica.A UEFA ainda não divulgou os prémios a pagar aos clubes que irão participar na Champions 2026/27, mas os valores não vão diferir muito dos atuais. Assim, a entrada na chamada Fase de Liga vale um prémio fixo de 18,6 milhões de euros, mas é o montante que combina o coeficiente histórico e o mercado televisivo - no caso do Sporting, este ano, rondou os 15,5 milhões e para o Benfica chegou aos 28,5 milhões - que faz o valor disparar para uma verba entre os 35 e os 45 milhões de euros, no caso dos rivais de Lisboa.É esse o valor do prémio global de entrada na Champions para ambos, seja via play-off, para quem ficar em 2.º lugar no campeonato, seja pela entrada direta e com o título de campeão na bagagem, se algum deles conseguir destronar o FC Porto.Por isso, o dérbi é revestido de grande importância financeiro-desportiva. Que o digam Francisco Salgado Zenha (Sporting) e Nuno Catarino (Benfica), os responsáveis pelas finanças dos dois clubes. É que, de acordo com os Relatórios e Contas das duas SAD, referentes ao exercício de 2024/25, as receitas da Champions pesaram cerca de um terço dos rendimentos operacionais. Isso mesmo é destacado por Miguel Farinha, da EY Portugal, para quem a Champions pesa “mesmo muito” na receita corrente dos clubes e “pode valer perto de um terço” da receita sem vendas de jogadores. “Em 2024/25, o Benfica teve 230,6 milhões de euros de receitas operacionais sem transações de atletas e somou mais de 71 milhões em receitas UEFA. O Sporting teve 148,1 milhões de rendimentos excluindo transações de jogadores e arrecadou quase 49 milhões na UEFA. Em termos proporcionais, estamos a falar de cerca de 31% da base operacional no Benfica e 33,1% no Sporting”, explicou o responsável da empresa que tem feito o Anuário do Futebol Português.E basta olhar para a realidade europeia para perceber por que é que a competição “pesa relativamente mais em Portugal” do que no topo das ligas mais ricas: “A média das receitas dos 20 clubes do topo foi de 620 milhões em 2024/25, sendo que, nesse universo, o valor fixo da Champions (18,62 milhões) vale cerca de 3% da receita média, enquanto que, nos três grandes portugueses, esse mesmo valor mínimo vale cerca de 8,1% no Benfica, 12,5% no FC Porto e 12,6% no Sporting.”Por isso, segundo o diretor da EY Portugal, a Liga dos Campeões é mais do que uma almofada financeira para possíveis erros de gestão e/ou desportivos. “Quando uma receita desta dimensão está assegurada, o clube ganha tesouraria, baixa a urgência de vender no verão e trabalha mercado, renovações e plantel com muito mais margem. O contrário também é visível: no caso do FC Porto, a ausência da Champions foi assumida publicamente como um impacto de 48 milhões nas contas de 2024/25”, revelou Miguel Farinha, realçando que “o clube compra tempo de decisão” com a entrada na elite clubística e e isso “reflete-se diretamente na construção do plantel”. Desta forma, “falhar a Champions faz muita diferença”, tanto ao Sporting como ao Benfica ou mesmo ao FC Porto, que lidera a I Liga com 76 pontos, à frente de leões (71) e águias (69)."Liga dos Campeões não é apenas um bónus, é o oxigénio vital para a sustentabilidade financeira”Carlos Vieira, que foi vice-presidente do Sporting com os pelouros Finanças, Património e Administrativo e administrador da SAD leonina de 2014 a 2018, não tem dúvidas de que, “para um clube num mercado periférico como o português, a Liga dos Campeões não é apenas um bónus, é o oxigénio vital para a sustentabilidade financeira”, uma vez que “as receitas diretas - prémios de participação, performance e market pool - podem representar mais de 25% do orçamento operacional anual de uma SAD”.Além disso, “a prova confere uma visibilidade global que alavanca patrocínios e a valorização dos jogadores, permitindo que o clube compita a um nível que as receitas domésticas, por si só, não sustentariam”.O antigo administrador recordou ainda que, quando esteve na SAD do Sporting, a Champions era “o eixo central” da estratégia de recuperação financeira. “Um exemplo muito claro foi a negociação do mecanismo de cash sweep com a banca: estabelecemos que 25% das receitas extraordinárias da Champions seriam destinadas diretamente ao reembolso antecipado da dívida, usando assim o sucesso desportivo para desalavancar o clube.”A contratação de Jorge Jesus, em 2015, foi um investimento estratégico do Sporting baseado nesta lógica, segundo Carlos Vieira: “Aceitámos um custo técnico superior porque acreditávamos que se aumentaria exponencialmente as probabilidades de entrada na Champions e de valorização do plantel, gerando um retorno muito superior ao gasto inicial.”Assim, pode mesmo dizer-se que a Champions é a melhor amiga de um administrador ou diretor com a pasta das Finanças, “porque é a maior garantia de liquidez e estabilidade que um CFO pode ter”, e porque “funciona como um selo de credibilidade perante os mercados e os credores, facilitando o acesso a linhas de crédito e melhores condições de financiamento”. No entanto, “deve ser encarada como um vetor de crescimento e não uma condição de sobrevivência para evitar a asfixia”.Para o agora professor universitário, a diferença de entrar ou não na prova principal da UEFA é estrutural: “Sem Champions, surge um défice imediato, que pode superar os 20 ou 26 milhões de euros, o que obriga a a uma estratégia de ‘venda de necessidade’ para equilibrar a caixa. No período em que estive na Direção do Sporting, um dos erros foi a retenção forçada de talento em 2016. Ao mantermos jogadores que tinham propostas e queriam sair, aumentámos a massa salarial e perdemos mais-valias críticas. Uma gestão profissional exige saber o momento certo de vender: se não há Champions, o mercado de saídas deve ser atacado com mais pragmatismo para garantir o reinvestimento. A estratégia deve passar por fazer girar o inventário de talento de forma eficiente para manter a competitividade, independentemente da prova que se disputa.”isaura.almeida@dn.pt.Sporting com volume de negócios recorde de 265 milhões de euros em 2024/25."Somos uma equipa difícil para qualquer adversário". Mourinho garante Benfica pronto para o dérbi em Alvalade