Harneet Baweja é o fundador e proprietário do Gunpowder, e mudou-se para Portugal recentemente
Harneet Baweja é o fundador e proprietário do Gunpowder, e mudou-se para Portugal recentemente

Harneet Baweja: “Portugal tem uma longa ligação histórica a Goa. Esse foi o nosso ponto de partida”

O Gunpowder voou de Londres para Lisboa em 2022 e tem conquistado clientela fiel desde então. No bairro do Chiado, foi evoluindo “à medida que o bairro evoluiu” e o seu fundador garante que é um projeto local, “tal como os restaurantes têm de ser”
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Quando abriu o primeiro Gunpowder em Londres, ainda na década passada, Harneet Baweja sabia menos de restaurantes do que acreditava ser necessário, mas tinha a certeza de que queria dar aos seus clientes os mesmos sabores e sensações com os quais tinha crescido, na sua Índia natal. O pai adorava cozinhar e receber pessoas em casa, mas passou-lhe em herança mais do que receitas, admite. Cresceu a perceber a importância dos produtos locais de qualidade e a da alegria de alimentar os outros. E acalentou desde pequeno, ainda que secretamente, a ambição de um dia abrir um restaurante. Fê-lo em Londres porque foi para onde se mudou com a mulher, que ocupava uma boa posição numa empresa. De Londres (onde já abriu mais do que um projeto, tendo sobrevivido ao Brexit, à Covid e ao aumento dos custos para a indústria) para Lisboa foram precisos apenas sete anos e uma história de amor pelo surf. “Venho a Lisboa e a Portugal há 12 anos para fazer surf. Apaixonei-me imediatamente pela cidade”, conta ao DN. “Naquela altura, no Chiado, não havia uma Rua Azul e viviam muitas pessoas no bairro. A zona parecia simultaneamente acolhedora e viva. E era bom ter vizinhos como o Ofício, a Cervejaria Trindade e o José Avillez”, admite, justificando a escolha da localização.

chamuça de recheado balchão
chamuça de recheado balchão Inês Matos Andrade

Na época, recorda, Lisboa estava habituada que “a comida do Sul da Ásia fosse vista como algo barato”, o que se foi alterando com o tempo e também com a influência deste espaço que, em zona nobre, viaja pelas várias cozinhas indianas, tendo tido como Goa o ponto de partida. “A cozinha da Índia é diversa. Portugal tem uma longa ligação histórica a Goa, por isso esse foi o nosso ponto de partida”, admite Baweja que, recentemente, se instalou definitivamente na capital portuguesa. “Na Gunpowder, procuramos levar os clientes numa viagem pela Índia e pelos seus diferentes tipos de cozinha”, mas sem perder o carácter local, garante. “Os restaurantes têm de ser locais. Trazemos a filosofia do Gunpowder –excelente produto e sabores autênticos. O resto aprendemo-lo com a cidade. Temos muitos pratos de cozedura lenta na carta de Lisboa. Além disso, aqui fazemos pão no tandoor/forno, algo que não fazemos em Londres”, continua.

Aliás, a carta do restaurante mudou recentemente, para garantir uma comida mais familiar e de conforto, de alguma forma ainda mais ligadas às origens, mais assente no receituário tradicional, mas sem perder a sofisticação técnica a que foi habituando os clientes. Uma espécie de confirmação de que Baweja continua a perseguir o conforto que sentia, também, quando o pai enchia a casa de convivas.

Costeleta de borrego Barnsley com ghee Kashmiri
Costeleta de borrego Barnsley com ghee KashmiriLuis Ferraz
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O novo menu apresenta ainda mais tipos de pão do que tinha até agora e reforça a oferta de caris - que vão desde malabar de caranguejo-de-casca-mole a vindalho de porco preto alentejano, passando por brócolos malai methi com ervilhas-torta, entre tantos outros.

O que não saiu do menu foram alguns clássicos como o Pulao de Marisco ou a Costeleta de borrego barnsley com ghee kashmiri, pratos que já conquistaram estômagos fiéis. Ao longo dos anos, o Gunpowder tornou-se de tal forma parte da cena gastronómica que há até produtores de vinho que, não raras vezes, o escolhem para apresentar as suas novas colheitas. Uma espécie de casamento continuado entre a gastronomia e a cultura portuguesas e indianas, que pode ser bastante surpreendente para quem nunca tinha pensado em juntá-las à mesa.

Numa Lisboa que já tinha sabores da região em alguns espaços, precisamente graças à história que une Portugal e Goa, o Gunpowder terá acrescentado “autenticidade à cozinha do Sul da Ásia”, reflete Baweja. “Garantimos que o produto é local e de qualidade, e que os sabores são autênticos”, seja qual for a estação que comanda os produtos escolhidos para cada carta – que vai variando com a sazonalidade, naturalmente.

Frango com manteiga à moda de Old Delhi
Frango com manteiga à moda de Old DelhiInês Matos Andrade

As mudanças na cena gastronómica lisboeta, onde a restauração internacional ganhou especial protagonismo nos últimos anos não assusta o fundador do Gunpowder – sobretudo porque tem a seu lado uma equipa coesa, com vários elementos que o acompanham desde o início, naquela tal pequena cozinha em Londres. “Lisboa tem capacidade para acolher restaurantes e cozinhas de diferentes origens”, acredita. Mas “temos de garantir que mantemos os nossos padrões internacionais, ao mesmo tempo que aprendemos sobre a cultura e a legislação locais” para se manterem não apenas competitivos, mas sustentáveis. “Penso que precisávamos de mais tempo para compreender as regras e leis locais. Tenho o péssimo hábito de tomar decisões com o coração, em vez de com a cabeça”, diz com alguma descontração o empresário, quando questionado sobre os principais desafios de ter um restaurante independente em Lisboa.

Mas ainda assim, olha com otimismo para a evolução da gastronomia em Lisboa, que acredita estar a assemelhar-se cada vez mais às suas congéneres espanholas - e não tanto a outras capitais mundiais como alguns chegam a apontar. “Com mais profissionais portugueses de hospitalidade a regressarem e a cozinharem aquilo que compreendem e conhecem, penso que Lisboa estará mais alinhada com cidades do País Basco, como San Sebastián e Bilbau, do que com Londres e Nova Iorque”, vaticina.

Tártaro de atum com jhal muri de Calcutá - um dos novos pratos da carta
Tártaro de atum com jhal muri de Calcutá - um dos novos pratos da cartaInês Matos Andrade

Sugestões vínicas para pratos indianos, por Francisco Fortuna Guilherme

Croquetes de atum com caril moilee

A combinação do crocante do croquete com a cremosidade e o carácter aromático do caril moilee pede um branco fresco, expressivo e capaz de acompanhar as especiarias sem as sobrepor. Sugiro um São Marcos Henn Riesling, pela sua frescura e perfil aromático, que equilibra a untuosidade do prato e realça o lado cítrico e especiado do caril, ou um Parapente Loureiro, mais tenso e preciso, cuja acidez firme limpa o palato e prolonga a frescura do conjunto.

Costeleta de borrego Barnsley com ghee Kashmiri

A intensidade e suculência do borrego, aliadas ao carácter rico do ghee e às especiarias Kashmiri, pedem um tinto com estrutura, mas que preserve frescura e elegância. Deixo como sugestão um Monte da Raposinha Trincadeira, que oferece fruta, acidez e uma componente especiada que acompanha naturalmente o carácter aromático do prato, ou um Serra Oca Tinta Roriz, que apresenta um perfil mais fresco e delicado, com taninos suaves e boa tensão, permitindo acompanhar a gordura do borrego sem tornar o conjunto pesado.

Pulao de marisco

O carácter delicado do marisco, combinado com o arroz aromático e as especiarias do pulao, pede um vinho fresco, mineral e de boa definição. Se procura um vinho com uma expressão fresca e mineral, capaz de acompanhar o lado marítimo do prato e respeitar a delicadeza do marisco, sugiro um Somium Branco. Se procura uma alternativa com mais textura e complexidade, um Quinta do Poço do Lobo Reserva Rosé alia frescura, fruta vermelha delicada e uma textura elegante, criando um contraste interessante com as especiarias e a intensidade aromática do pulao.

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*Esta secção tem o patrocínio da Quinta da Biaia. Os textos são produzidos pelo DN com total independência editorial. Conheça as regras do DN relativas à elaboração de reportagens sobre restaurantes e artigos de crítica gastronómica.

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