Sem saber quem é o produtor, sem conhecer a região, sem fazer ideia da casta, sem provar uma gota, de repente, parece que estamos diante de uma espécie de Santo Graal.
A garrafa ficou mais interessante, mais séria, mais desejável. Símbolos de euro surgem em balões de pensamento. É extraordinário o poder que duas palavras podem ter… mesmo que só na nossa cabeça.
Mas o que é, afinal, uma vinha velha? Uma vinha com quarenta anos? Cinquenta? Setenta?
Cem? A resposta é menos objetiva do que gostaríamos. Não existe uma definição universal.
Em algumas regiões, uma vinha com quarenta anos já é considerada velha; noutras, é apenas uma vinha adulta. Em alguns países há critérios estabelecidos; outros, nunca sentiram necessidade de o fazer.
Ainda assim, o mercado parece ter chegado a um consenso silencioso: se no rótulo estiver escrito "vinhas velhas", o vinho é, com certeza, melhor.
Certeza, no entanto, podemos ter apenas uma: uma vinha velha não é apenas uma vinha com muitos aniversários, é uma sobrevivente. Sobreviveu a geadas, secas, tempestades, crises económicas, mudanças de moda e decisões agrícolas que arrancaram milhares de hectares para dar lugar a plantações mais produtivas.
Cada cepa antiga que continua de pé venceu batalhas que nunca veremos e, talvez isso, por si só - não apenas a idade, mas a resistência - já nos emocione. Sempre gostámos de histórias e as vinhas velhas contam algumas das melhores do vinho: famílias que passaram a tesoura de poda de geração em geração; parcelas que escaparam ao abandono; agricultores que preferiram preservar em vez de substituir.
Mas há uma pergunta que todo este romantismo nem sempre gosta de ouvir: uma grande história faz, indubitavelmente, um grande vinho?
Por mais que não quisesse interromper a melodia dos vinos que neste momento paira no ar, a resposta é não. E admitir isso não retira um milímetro de valor às vinhas velhas. Apenas devolve a conversa ao lugar onde ela deve estar: património e qualidade podem não andar de mãos dadas, por isso até onde será razoável manter ambos?
Mas vamos por partes.
Comecemos pelo mais incómodo: há vinhas velhas que não merecem a aura que lhes atribuímos. Uma vinha pode ter idade e, ainda assim, estar mal localizada, maltratada ou assente em castas sem particular interesse enológico. O tempo não corrige um mau terreno nem transforma uvas medianas em matéria-prima extraordinária.
Uma vinha de vinte anos, num excelente lugar e trabalhada com rigor, pode dar um vinho muito mais interessante do que outra com oitenta. Raízes, solo, exposição, água e equilíbrio da planta contam tanto - ou mais - do que a idade. Porque o tempo oferece oportunidades; não oferece garantias. No entanto, há algo em algumas vinhas velhas que merece a nossa atenção mais detalhada: a diversidade. Em muitas parcelas antigas convivem numerosas castas escolhidas não por modas, mas porque funcionavam naquele lugar. Misturavam-se variedades tintas e brancas, castas precoces e tardias, produtivas e menos produtivas. Hoje chamamos-lhe biodiversidade; durante gerações foi simplesmente agricultura.
Diferentes castas respondem de forma diferente ao calor, à seca ou à chuva, podendo criar um equilíbrio que torna a parcela mais estável ao longo dos anos. Num cenário de alterações climáticas, esta diversidade pode ser muito mais do que uma curiosidade histórica – estas vinhas são arquivos vivos e estudá-las pode ajudar-nos a perceber o que sobreviveu, onde e porquê, e a levar esse conhecimento para a vinha do futuro.
E esta é uma vantagem que não devíamos desperdiçar.
Mas preservar custa. Uma vinha velha produz menos, exige mais trabalho, dificulta a mecanização e precisa de conhecimento. Uma plantação nova pode ser mais produtiva e mais fácil de gerir. E o agricultor também precisa de pagar as contas.
Até 2025, o VITIS – programa de Reestruturação e Conversão de Vinhas – já tinha apoiado a reestruturação de cerca de 103 mil hectares de vinha. E há razões legítimas para renovar uma vinha: quando perdeu capacidade produtiva, está doente ou deixou de ser economicamente viável. O problema, na minha opinião, começa quando tratamos todas as vinhas antigas da mesma maneira. Porque quando arrancamos uma vinha de valor, não perdemos só uma planta - perdemos genética, diversidade, conhecimento e décadas de adaptação a um território, que não conseguimos reaver.
Aprendamos então com acontecimentos passados, como algumas medidas de modernização agrícola implementadas após a entrada de Portugal na CEE, em que a eficiência imediata se sobrepôs ao conhecimento local e às consequências a longo prazo. A lição não é travar a mudança, mas sim fazê-la com critério e sem extremismos.
Precisamos de identificar as vinhas velhas de verdadeiro valor, promover e capacitar o seu estudo e compreensão, apoiar quem as conserva e fazer chegar esse valor ao preço da uva e do vinho. Preservar sem apoio e valorização económica pelo esforço acrescido é apenas adiar o abandono. E é preciso sensibilizar o consumidor para o trabalho a ser feito, através do enoturismo e outras iniciativas, tornando visível o empenho que uma vinha velha exige para que seja percetível que, por detrás de uma garrafa, existe muito mais do que uvas – existe história, pessoas e raízes.
É também assim que uma vinha deixa de ser apenas uma paisagem e passa a fazer parte da nossa memória: numa fotografia, num rótulo guardado, numa história contada à mesa, na lembrança de um vinho que nos fez sentir parte de algo que começou muito antes de abrirmos a garrafa.
Olhemos, por isso, para os erros do passado antes de repetir a mesma lógica. Não se trata de preservar tudo, nem de travar a mudança. Trata-se de saber o que estamos a perder quando decidimos que uma vinha velha já não tem lugar no futuro.
Nem tudo tem de ser preto ou branco, oito ou oitenta. Nem tudo tem de ser perdido em nome da eficiência.
Porque há coisas na agricultura que podem ser substituídas numa estação, mas outras nem uma vida inteira traz de volta.
*Esta secção tem o patrocínio da Quinta da Biaia. Os textos são produzidos pelo DN com total independência editorial. Conheça as regras do DN relativas à elaboração de reportagens sobre restaurantes e artigos de crítica gastronómica.