Certamente que o leitor já ouviu, algures nas redes sociais, a canção Follow The Sun, de Xavier Ruud, uma das mais divulgadas no Instagram e TikTok e que muitos replicam nas suas histórias - quase sempre idílicas. Mas o australiano, surfista, defensor da natureza e da cultura aborígene é mais do que isso, tem uma carreira com mais de vinte anos e uma legião de fãs que enchem as salas por onde passa. Homem de muitos instrumentos, vai apresentar as músicas do seu novo EP Freedom Sessions no dia 28 de agosto no Coliseu de Lisboa, naquele segundo disse ao DN, em conversa ao telefone, será “uma celebração da paz, do amor e da unidade”. Como está a correr esta digressão pela Europa? Terminamos uma série de cinco concertos em Itália. Foi muito bonito e muito quente (risos) porque estivemos no sul do país. Agora, estamos a caminho dos Países Baixos, e segue-se Alemanha, Áustria, Suíça e, depois, começamos a descer para Espanha e Portugal. Como está a ser a reação do público aos novos temas do EP Freedom Sessions? Tem sido ótima. Tenho muita sorte, o meu público é sempre muito caloroso e dá-me boa energia. Já passaram alguns anos desde o primeiro disco a solo, To Let (2002), é hoje um cantor/compositor muito diferente desses tempos iniciais? Diria que sim, a música é como um diário, certo? É uma forma de documentar a vida conforme vamos avançando e aprendendo. Sinto que a minha música reflete aquilo que o mundo está a passar. Nos meus concertos é como se estivéssemos a celebrar a união entre as pessoas, a família e o desejo de ver alguma mudança no mundo tal como está atualmente. Sou apenas mais uma pessoa, como todas as outras, que passa pela vida com as suas próprias lutas e que comete erros. Aprendemos à medida que avançamos na vida e vamos ficando mais fortes e a minha música é um reflexo disso. E talvez seja por isso que as pessoas se ligam à minha música. .Depois de uma pandemia temos conflitos e guerras em vários locais do planeta. Digamos que o mundo não é um lugar propriamente simpático nos dias que correm. Sim, o mundo não é um lugar fácil para muitas pessoas e sim mudou muito desde a pandemia de covid-19. Mas também gostava de salientar que há culturas, como a cultura portuguesa e a italiana, as culturas mediterrânicas, que são focadas na família e na comunidade e que funcionam como uma espécie de medicamento para a humanidade. Vocês que vivem em Portugal, numa sociedade assim, é algo normal para vocês, mas viajo pelo mundo e vejo muitas pessoas sozinhas, sem essa ligação familiar e comunitária, e que lutam pela vida solitariamente. O apoio e o sentido de comunidade é muito importante, percebo isso quando vou a locais como Portugal. É muito diferente da sociedade australiana? É diferente sobretudo pela forma como se olha para a Austrália, que é um lugar lindo, fantástico, cheio de grandes comunidades. Mas também há muitas famílias desfeitas na Austrália, e há os aborígenes que foram sujeitos a um racismo intenso. A Austrália tem comunidades de pessoas que vêm de todos os lugares do mundo, de Portugal, de Itália, de toda a Europa e que continuam a fazer perdurar as suas raízes. Mas há também muita gente desfeita, sobretudo descendentes do período de colonização britânica, com muitos problemas e traumas.Uma vez disse que gostava que as suas músicas dessem uma espécie de luz a quem as ouve. Acredita que as suas palavras e música são uma espécie de bálsamo para o dia a dia? Sim, acho importante falar das lutas e das coisas difíceis da vida, como faço, mas também das coisas bonitas e positivas. Vivemos num mundo muito bonito, sou fascinado pelo planeta e pela natureza, cresci rodeado dela e sou sortudo por isso Ainda podemos apreciar o planeta pela sua beleza. Às vezes ficamos muito influenciados pelo stresse, pelo que temos na mente, que por vezes é negativo e nem sempre é a realidade, por isso é bom encontrar uma sensação de paz em algum lado. Hoje, a maioria do mundo vive ligado às redes sociais e passamos horas a ver vidas maravilhosas que na maioria das vezes nem são verdadeiras. As redes sociais são um local estranho. É uma coisa boa para os músicos darem a conhecer a sua música e promoverem o seu trabalho de uma forma independente sem contratar editoras. Mas, ao mesmo tempo, está a criar um mundo em que todos estão distraídos. É muita coisa ao mesmo tempo, é como se todos estivéssemos a ver televisão o dia inteiro, muito mais horas do que costumávamos antes. São horas e horas a ver televisão sem qualidade, “trash tv”, e isso faz com que as pessoas andem distraídas e seja muito difícil ganharem algum foco. Em relação ao concerto em Lisboa, o que se pode esperar? Acho que vai ser muito bonito. O último concerto que fiz em Lisboa foi muito especial. Este será diferente em termos de alinhamento das músicas, mas a energia será a mesma. Será uma celebração da paz, do amor, da unidade. Só quero partilhar um pouco a minha cultura convosco. Vai aproveitar para fazer surf em Portugal? Não, porque temos que sair imediatamente para ir a Madrid e depois vamos para Barcelona. Infelizmente não teremos muito tempo em Lisboa. Fica para uma próxima vez. Já surfei em Portugal antes e foi lindo. Adoro o lugar.Depois dos concertos na Europa para onde segue a digressão? Depois vou participar num concerto de beneficência em Bali, na Indonésia, em setembro. É um concerto especial para juntar dinheiro para limpar as águas do oceano. E, depois, seguem-se alguns concertos pela Austrália.