Admiradores do trabalho um do outro, levaria mais de 20 anos para que o ator Wagner Moura e a encenadora e cineasta Christiane Jatahy conseguissem finalmente conciliar agendas para desenvolver um projeto em conjunto. Há dois anos reencontraram-se e “começou um diálogo muito interessante, sem pressão”, diz Christiane Jatahy. “Uma coisa rara, sem datas”, acrescenta Wagner Moura. A peça Um Julgamento - depois do Inimigo do Povo, de Henrik Ibsen, foi o resultado de um processo que foi ao encontro dos interesses de ambos. “O Wagner é muito apaixonado por este texto, O Inimigo do Povo, desde o início. Eu tinha muito a ideia de trabalhar sobre irmãos, de como a polarização pode romper a família...O Inimigo do Povo é um texto perfeito para discutir isso, mas eu confesso que resisti, porque eu não queria fazer a montagem do texto. Interessava-me mais fazer as perguntas a que este texto pudesse levar, interessava-me muito escutar como é que o público hoje, a sociedade, dialoga e reage a este texto”, disse a encenadora numa conferência de imprensa no Centro Cultural de Belém, onde a peça estará em cena a partir de hoje, 3 de julho, e até domingo. .Um Julgamento - depois do Inimigo do Povo parte do texto do dramaturgo norueguês, de 1882, mas não é uma adaptação do mesmo. A peça foi escrita por Christiane Jatahy, Wagner Moura e Lucas Paraizo e procurou aproximar o texto de Ibsen à vida real das pessoas. “E aí surgiu a ideia de um tribunal, um tribunal não no sentido preciso da palavra, porque não tem advogados não tem juízes, é um tribunal público onde as pessoas se defendem”. Na peça de Ibsen, Thomas Stockman é um médico de uma estância balnear numa pequena cidade cuja economia depende do turismo termal. Ele descobre e denuncia na imprensa que as águas foram contaminadas e constituem um perigo para a saúde pública. Essa revelação, ao invés do que ele imaginava, acaba por não ser bem acolhida pela população, que é manipulada por jornais e políticos. Para o seu irmão, Peter Stockmann, presidente da câmara da cidade, os interesses económicos e políticos sobrepõem-se ao interesse público. Thomas Stockmann vê-se impedido de defender a sua posição e é declarado “inimigo do povo”.Wagner Moura interpreta Thomas Stockman que, neste texto original escrito a três mãos, está no tribunal perante um grupo de jurados. O ator Danilo Grangheia faz o papel do irmão, Peter Stockmann, e a atriz Julia Bernat interpreta Petra, a filha de Thomas, que vem em sua defesa. Neste julgamento, são revisitados os acontecimentos do passado para decidir se Thomas Stockman é ou não um inimigo do povo.O público vai ter um papel ativo na peça, uma vez que os onze jurados vão ser selecionados entre os espetadores. Eles vão fazer perguntas a que Thomas Stockmann , ou seja, Wagner Moura, vai responder de improviso. No final do julgamento, eles terão de dar o veredito. . “Antes de entrarem, é oferecido aos espetadores a possibilidade de participarem no espetáculo. Recebem uma pulseira, são dadas mais pulseiras do que os jurados que vão subir ao palco. Já dentro do teatro é feito um sorteio, e as pessoas sobem ao palco, mas como nós distribuímos mais pulseiras do que o número de jurados, significa que se alguém se sentir constrangido, ou não quiser subir para participar como jurado, continuamos a sortear até completar o número de pessoas”, explica Christiane Jatahy.Os jurados fazem perguntas previamente selecionadas pela encenadora. “As perguntas são incríveis, é um momento maravilhoso da peça, em que eu me concentro muito. Geralmente as perguntas são respondidas com a própria obra de Ibsen”, diz Wagner Moura. No final, “é muito raro haver um consenso” entre os jurados sobre o dilema apresentado, diz o ator. Na história há uma personagem que é o coordenador do júri, que em cada cidade onde a peça é apresentada é interpretada por um ator local. Nesta apresentação em Lisboa, no CCB, será a atriz Cleo Tavares a representar esse papel. O trabalho de Christiane Jatahy cruza muitas vezes teatro e cinema, e em Um Julgamento - depois do Inimigo do Povo o cinema também está presente, de diferentes formas, explica a artista. "Há 18 anos que eu trabalho com essa fricção entre o teatro e o cinema. Eu acho que o espetáculo tem essa fricção de maneiras muito interessantes. Primeiro, acho que tem uma coisa mais especial, que é o Wagner. Mesmo sem nenhuma imagem, a própria presença, a própria relação que o espectador cria com o Wagner, conhecê-lo tão fortemente do cinema, e vê-lo no teatro, eu acho que isso faz parte dessa fricção entre o teatro e o cinema", começa por dizer. No espetáculo a utilização da imagem está muito centrada no tribunal. "A parte cinematográfica é, muitas vezes, uma prova. A câmara está como uma possibilidade de mediação, para mostrar as coisas, como podem ser vistas", revela. .Um clássico é um clássico por alguma razão, sublinha Wagner Moura, e quase 150 anos depois de ter sido escrito, o texto de Henrik Ibsen é mais atual do que nunca. Como diz Christiane Jatahy, a peça encerra “camadas que se vão sobrepondo”, permitindo refletir sobre questões como a ecologia, a relação entre política e ciência, as fake news e o papel da imprensa, e as ameaças à democracia numa altura em que a extrema-direita cresce no mundo. Para Christiane Jatahy, vencedora em 2022 do Leão de Ouro da Bienal de Veneza pela sua carreira no teatro, não há que ter medo das palavras, e o fascismo, que utiliza os princípios democráticos para destruir a democracia, “é uma questão importante de ser discutida hoje em dia”. No entanto, a encenadora diz que tem “tem horror a peças panfletárias” e que o fundamental neste espetáculo são as perguntas que são suscitadas. A estreia mundial de Um Julgamento - depois do Inimigo do Povo foi em Salvador, na Bahia, no dia 2 de outubro de 2025. A peça seguiu depois para o Rio de Janeiro e na Europa foi apresentada pela primeira vez em Amsterdão, nos Países Baixos, entre 24 a 28 de junho deste ano.Para Wagner Moura, distinguido como melhor ator no Festival de Cannes em 2025 pela participação no filme O Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho, é um regresso ao teatro, onde começou a carreira. “Eu me considero um ator de teatro. Eu comecei a trabalhar como ator numa época, nos anos 1990, em que a única coisa que a gente podia fazer em Salvador era teatro. A gente não podia fazer TV, a gente estava muito longe do eixo do Rio de Janeiro e de São Paulo, havia ainda muito preconceito com a forma como os nordestinos falavam”.A última vez que o ator pisou um palco foi há 17 anos e, desde então, diz o ator, não apareceu um projeto de teatro com a “força” que ele pretendia para regressar. “O teatro é um compromisso muito importante, muito sagrado. Como eu tenho a oportunidade de fazer filmes e fazer televisão, o teatro é uma coisa que eu só faço quando me mobiliza muito. Não que as outras coisas também não possam ser assim, mas menos. O teatro é mais. A última coisa que eu fiz no teatro foi justamente em 2009, o Hamlet, com o Aderbal Freire-Filho. E a experiência foi muito autêntica, muito forte.”Wagner Moura trabalhou em Um Julgamento - depois do Inimigo do Povo ao mesmo tempo que rodava O Agente Secreto. “Tem muito de mim mesmo, tanto esta personagem como a do Agente Secreto”, sublinha. “O que eu nunca fiz foi separar a minha vida do resto, não gosto da palavra carreira. As personagens são todas um pouco de nós mesmos, nós contemos multidões”, diz Wagner Moura, considerando que “tudo é política”. O ator assume-se de esquerda e pessoa preocupada com a polarização política no Brasil e a desinformação. “Os factos não existem mais. A verdade acabou e isso me assusta”, disse aos jornalistas. “É o momento de fortalecer o jornalismo”, acrescenta.No Brasil, defende, a direita “foi usurpada pela extrema-direita com a qual não há diálogo”. Um diálogo necessário para resolver questões complexas da sociedade, como aquelas levantadas na peça de Ibsen. Por exemplo, como “organizar uma forma de desenvolvimento que proteja o ambiente e em que as pessoas consigam sobreviver”. A peça é uma coprodução do CCB , do Holland Festival (Amsterdão), do Festival d’Avignon (França), do Edinburgh International Festival (Escócia) e do DeSingel (Bélgica). Depois de Lisboa, o espetáculo segue para o prestigiado Festival d’Avignon, entre 11 e 22 de julho. .Wagner Moura diz que vitória de Flávio Bolsonaro nas eleições brasileiras de outubro seria "uma tragédia".Wagner Moura: “Quanto mais democrático for o governo, mais ele vai entender que cultura é importante”