Dois trípticos e dois painéis isolados de José de Almada Negreiros, num total de 192 m2 de superfície pictórica, estão a ser alvo de trabalhos de conservação e restauro na Gare Marítima de Alcântara, em Lisboa. No piso superior da gare, onde se encontram os murais do artista, já se ergueram andaimes nos alçados poente e sul. Maria João Revez, conservadora-restauradora e sócia da Nova Conservação, explica que começaram pelos painéis do lado poente porque, “tipicamente, são os que estão em pior estado de conservação, dada a exposição ao oceano e à entrada de nevoeiro salino”. Lá em cima duas conservadoras-restauradoras da empresa contratada para esta empreitada estão a trabalhar no tríptico a que Almada Negreiros deu o nome de Lá vem a Nau Catrineta que traz muito que contar, inspirado num poema popular recolhido e publicado por Almeida Garrett sobre a tripulação de um navio quinhentista. Nesta interpretação contemporânea, as figuras estão vestidas como nos anos 1940 – os painéis foram concluídos em 1945, dois anos após a abertura da gare de estilo modernista do arquiteto Porfírio Pardal Monteiro. Já o painel isolado nesta parede é dedicado à lenda de D. Fuas Roupinho. Na parede nascente o tríptico intitula-se Quem não viu Lisboa não viu coisa boa, onde se veem, por exemplo, mulheres carvoeiras. Também neste alçado existe um painel isolado – Ó terra onde eu nasci. Os protagonistas deste conjunto de oito frescos são pessoas do povo, varinas, marinheiros, pescadores, saltimbancos e outras figuras e retrata-se a vida quotidiana na cidade. .O restauro agora em curso constitui a segunda fase do projeto de conservação dos frescos do artista português nas gares marítimas de Lisboa, um investimento de 420 mil euros que junta os esforços da Worlds Monuments Fund Portugal (WMF) e Administração do Porto de Lisboa. Na primeira fase, concluída em 2024, foram restaurados os seis painéis de Almada Negreiros na Gare da Rocha do Conde de Óbidos, o que permitiu antecipar alguns dos problemas que seriam encontrados nos painéis da gare de Alcântara. “Aparentemente, ao longe, parece tudo muito estável. Mas quando nos aproximamos vemos a realidade e a dimensão dos problemas”, observa Teresa Veiga de Macedo, diretora executiva da WMF Portugal. “Quando se vê ao perto, estão em pior estado do que quando se vê de longe. Havia muitas pessoas que vinham aqui e achavam que eles estavam muito bem”, reforça Maria João Revez. São problemas que apareceram ainda em vida de Almada Negreiros que, em 1954, explica a conservadora, foi chamado para tratar dos painéis. Depois, nos anos 1970, os murais seriam alvo de outra intervenção. .O projeto de restauro incorpora várias etapas. “Começamos por um diagnóstico exaustivo das pinturas, o que, obviamente, obriga a perceber como é que elas foram executadas. E, neste sentido, são feitos mapeamentos das técnicas de produção artística, nomeadamente das formas como Almada fez a transposição do desenho para a parede e de como depois aplicou os pigmentos, o tipo de pinceladas, a espessura das camadas e por aí fora”, elenca Maria João Revez. “Após esse mapeamento e análise diagnóstica passamos então à realização dos tratamentos, que, tipicamente, começam com uma fase de limpeza”. .Esse trabalho prévio permitiu perceber “a extrema sensibilidade de toda a camada pictórica à água e, portanto, as fortes limitações que temos ao uso da água, por exemplo, em ações de limpeza”, aponta a conservadora-restauradora. O problema, explica, decorre da “sulfatação superficial” decorrente de contaminantes atmosféricos, assim como de “uma grande extensão de carbonato de cálcio, quer nas camadas de argamassa, quer nas próprias pinturas”. A água gera “auréolas de propagação e alguma dissolução”, adianta Maria João Revez, e por isso “a limpeza é seca, com esponjas suaves e muito delicada”. Só assim se consegue tirar “a grande camada de poeiras e sujidades” sem danificar a pintura. Outra vulnerabilidade encontrada foi “a extrema ‘descoesão’, sobretudo nos pigmentos ocres. Ou seja, as partículas de pigmento estão a separar-se e a pulverizar, qualquer pequena passagem pode causar perdas de policromia. Portanto, estamos aqui com uma esponja muito suave e com toques lentos para tentar remover as poeiras e deixar o pigmento”, diz a conservadora-restauradora. . Uma das profissionais no local está a aplicar um “consolidante” para restaurar a coesão dos pigmentos, uma espécie de adesivo que vai ligar os grãos. “É um adesivo que foi testado aqui, mas que também sai de testes que já tinham sido realizados na Rocha do Conde de Óbidos, com propriedades adequadas em termos de eficácia e de compatibilidade com estas pinturas”, revela a responsável da Nova Conservação. Existe ainda outro problema nestes murais, detetado também na primeira fase do projeto. “Um fenómeno de degradação que tínhamos muito na Rocha do Conde de Óbidos e que aqui temos em muito menor extensão é o levantamento de lascas de policromia com enrolamento. Trata-se de um problema de falta de adesão, a camada policroma destaca-se da camada subjacente e estamos a tentar recuperar a adesão com um adesivo aplicado com seringa de insulina”, explica Maria João Revez. . Nalgumas partes das pinturas veem-se manchas brancas decorrentes de infiltrações de água no edifício. “O que estamos a ver são os sais a florescer aqui à superfície das pinturas. Estes aspetos são um bocadinho perturbadores da leitura global do painel e, nestes casos, depois da limpeza e da fixação, há uma reintegração, ou seja, uma tentativa de atenuação desse impacto”. Apesar de tudo, diz a responsável, “estas pinturas, felizmente, têm poucas lacunas. Nós fazemos a reintegração cromática sempre e só onde achamos que é perturbador para a leitura das pinturas, para o olhar da pessoa não ser imediatamente dirigido para a zona onde está a lacuna”. Para fazer essa “reintegração cromática” é utilizada uma técnica designada de tratteggio. “A técnica foi desenvolvida especificamente para a pintura mural e com o intuito de se poder distinguir em observação de proximidade o que é que é original do que não é”. Ao perto, em vez de cores sólidas, veem-se traços verticais, mas ao longe o que se observa é apenas a cor e não as linhas. .Os trabalhos nos murais da gare de Alcântara progridem de painel a painel. “Os dois primeiros já foram limpos e já estão a ser alvo de consolidação com as pinceladas aplicadas. Apenas e só onde os pigmentos estão ‘descoesos’, portanto, onde as camadas estão em perda. Nesta fase de estabilização, são ‘readeridas’ estas escamas de policromia. E, depois, serão feitos preenchimentos de pequenas lacunas que existam e reintegração cromática para os preenchimentos não se verem”, resume Maria João Revez. .Apesar de estarem a ser intervencionados, o público, nomeadamente os visitantes do centro interpretativo dos murais de Almada – inaugurado em abril do ano passado no piso inferior da gare de Alcântara –, continuam a ter acesso à área onde os frescos se encontram, no piso superior.. Esta nova fase do projeto de conservação e restauro dos painéis de Almada Negreiros está a ser financiada por vários mecenas, sobretudo internacionais, mas também nacionais, nomeadamente a Fundação Millennium bcp, a Caixa Geral de Depósitos, a REN - Redes Energéticas Nacionais e a AGEPOR – Associação dos Agentes de Navegação de Portugal.No total, juntando a primeira fase de intervenção nos murais da Gare da Rocha do Conde de Óbidos, esta ação de restauro envolve um investimento de 830 mil euros. O projeto candidatou-se ao programa Watch da WMF em 2022 e foi um dos 25 selecionados de entre mais de 225 candidaturas. . "Curiosamente, a nível internacional, eu acho que foi um dos projetos onde foi mais fácil as pessoas reverem-se e, no fundo, quererem estar envolvidas. É um projeto muito mobilizador, não só pelo valor artístico, mas pelo contexto em que a obra é feita. Há uma série de situações que aconteceram no século XX e que se replicam hoje em dia, como as restrições à liberdade de expressão. O Almada passou por todos estes processos de ter que ter a aprovação dos seus esboços, das suas intenções, pelo Estado Novo", diz Teresa Veiga de Macedo. "Houve um processo, inclusivamente, de dúvida sobre a sua continuidade na segunda fase da encomenda, que seria a Rocha do Conde de Óbidos. E, quando chega à Rocha do Conde Óbidos, há uma explosão de liberdade."Este projeto já atraiu outras entidades a envolverem-se, como a Associação de Turismo de Lisboa, responsável pela dinamização do Centro Interpretativo Murais de Almada nas Gares Marítimas. Ali é possível conhecer detalhes das obras do artista, o contexto político que levou à encomenda dos murais pelo Estado Novo e a história de quem passou por estas gares da capital ao longo da segunda metade do século XX.Para Teresa Veiga de Macedo, "há mais que poderia ser feito, e espero que venha a ser feito, sinergias com outras entidades culturais, quer aqui na Zona Ribeirinha, quer com a própria Gulbenkian, com o Museu Nacional de Arte Antiga, que está ali do outro lado da linha de comboio. Criar aqui exposições temporárias, acho que poderia fortalecer muito também a motivação de regressar, porque em Portugal há muito esta tendência de se ir uma vez visitar um lugar patrimonial e não voltamos mais, isso acontece muito com a Torre de Belém". Também na sequência deste projeto, o Porto de Lisboa vai investir na preservação do exterior dos edifícios das gares e na requalificação da área envolvente. "Através desta semente, no fundo, fez-se desenvolver este projeto do qual todos nós temos o maior gosto em estar envolvidos", sublinha a responsável da WMF Portugal. .Restauro dos oito murais de Almada Negreiros na Gare Marítima de Alcântara foi formalizado .Murais de Almada nas gares marítimas já se podem visitar, mesmo com restauro previsto em Alcântara.A organização americana que está a ajudar a preservar o património português